quarta-feira, 1 de junho de 2011







Leia nesta edição


Editorial – Artista polivalente..


Coluna De corpo e alma – Mara Narciso, crônica “Mundo real nas telas”


Coluna Da terra do sol – Marco Albertim, conto, “Ingrid”.


Coluna Personalidade e atitude – Sayonara Lino, crônica “Hora marcada”.


Coluna Porta Aberta – Adélia Prado, poema “Pelicano”.


Coluna Porta Aberta – Marleuza Machado, crônica “Cinquentinha”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. O twitter é: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Artista polivalente

Um poeta canadense, já bastante vivido e experiente, de 76 anos de idade (fará 77 em 21 de setembro), conquistou o prestigioso e cobiçado Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras de 2011, superando outros 31 candidatos, de 24 países diferentes (inclusive do Brasil). Trata-se, sobretudo, de um artista polivalente, que brilha, com o mesmo brilho, em artes diferentes. Refiro-me a Leonard Cohen, nascido em Montreal, de uma família judia de origem polonesa.

Embora escritor, e dos bons, (tanto que acabou de ganhar um dos prêmios literários de maior valor), o feliz premiado é mais conhecido, mundo afora, como cantor e compositor. O Youtube está repleto de vídeos com suas apresentações artísticas. Para que vocês tenham uma ideia do seu prestígio, basta informar que é citado em uma canção conhecidíssima da banda Nirvana, intitulada “Pennyroyal tea”. E não é só isso. A escritora Elizabeth Gilbert citou-o no livro “Comer, rezar, amar”, um dos hits desta temporada. Isso basta? Se não bastar, há outra menção a ele, de alguém até mais célebre, de um escritor ganhador do Nobel de Literatura, José Saramago, que fez uma referência a Leonard Cohen no livro “História do cerco de Lisboa”.

Interessante notar, porém, que quando esse showman, esse artista polivalente passou a se dedicar à música, o que fez aos 30 anos de idade, há já bom tempo era consaiderado escritor experiente, com alguns romances publicados, além de vários volumes de poesia. Não se tornou cantor e compositor, portanto, por eventual fracasso na literatura. Muito pelo contrário. Até premiações locais já havia conquistado.

Fico fascinado quando dou de encontro com histórias desse tipo. Gosto de pessoas talentosas e competentes e que são bem sucedidas. E minha admiração, além da apreciação, aumenta em progressão geométrica quando esse sucesso é multiplicado e ocorre em artes diferentes, como é o caso. Se chegar ao topo, numa delas, já é uma parada, que exige muito mais do que talento, mas também relacionamentos, canais de divulgação, saber detectar e aproveitar oportunidades e muita, muitíssima, enorme dose de sorte, imaginem em duas! Isso não ocorre, claro, com muitos e nem a todo instante.

O primeiro livro de poesias de Leonard Cohen, “Let us compare mythologies” foi lançado em 1956. E emplacou. Depois dele, vieram outros treze, entre os quais vários romances. Ele começou a dedicar-se à música, para valer, em meados da década de 60, quando se mudou para os Estados Unidos. Antes de arriscar-se a cantar, deu o pontapé inicial na nova carreira com o que sabia fazer melhor: compor. Mas compunha não somente letras (embora sobretudo estas, já que é poeta), mas também melodias. Suas duas primeiras composições de sucesso, “Suzanne” e “Dress rehearsal rag”, foram gravadas pela cantora norte-americana Juddy Collins, em 1966, no disco “In my life”. E o que aconteceu? Sucesso logo de cara.

Um ano depois, resolveu gravar um LP só dele, cantando suas próprias composições, intitulado “Songs of Leonard Cohen”. Foi um sucesso, tanto de crítica, quanto, e principalmente, de público. A partir de então, sua carreira decolou de vez, transformando-o praticamente num mito no mundo da música popular.

Apesar da ascendência judia, no início dos anos 90 esse inquieto poeta-cantor, ou cantor-poeta como queiram, converteu-se ao budismo. Passou, então, a viver no mosteiro budista de Mount Baldy Zen Center, nos arredores de Los Anges, sendo ordenado monge em 1996 e rebatizado com o nome Dharma de Jikan (cujo significado é “Silencioso”). E silenciou, de fato. Afastou-se dos palcos por longos sete anos, retornando só em 2001 com o álbum “Ten new songs”.

Para que vocês conheçam um pouco do talento de Leonard Cohen, pincei, na internet, as letras de duas de suas composições, mas traduzidas para o português. Claro que a tradução tira um pouco do encanto original, mas, ainda assim, considero duas magníficas letras e com mensagens. Confiram:

Hino

Os pássaros cantam
No romper do dia
"Comece de novo"
Eu ouço eles dizendo
Não se apoie naquilo
Que passou
Ou naquilo que está para vir

Ah, as guerras,
Elas serão lutadas de novo
A pomba sagrada
Ela será apanhada novamente
Comprada e vendida
E comprada de novo
A pomba nunca está livre

Toque os sinos que ainda pode tocar
Esqueça sua perfeita oferenda
Há uma falha em tudo,
É assim que a luz entra.

Nós pedimos sinais
Os sinais foram enviados:
O pássaro traído
O casamento gasto
Sim, a viuvez
De todo governo...
Sinais para todos verem.

Eu não posso mais correr
Com essa multidão desgovernada
Enquanto os assassinos em lugares altos
Fazem suas orações em voz alta.
Mas eles foram convocados, foram convocados
Para uma nuvem tempestuosa
E eles vão ouvir de mim.

Toque os sinos que ainda pode tocar...

Você pode acrescentar as partes
Mas você não vai encontrar a soma
Você pode iniciar a marcha,
não há nenhum tambor
Todo coração, todo coração
Virá para amar
Mas como um refugiado

Toque os sinos que ainda pode tocar
Esqueça sua perfeita oferenda
Há uma falha, uma falha em tudo
É assim que a luz entra.

Toque os sinos que ainda pode tocar
Esqueça sua perfeita oferenda
Há uma falha, uma falha em tudo
É assim que a luz entra
É assim que a luz entra
É assim que a luz entra


Avalanche

Bem, eu adentrei uma avalanche,
Isso encobriu minha alma;
Quando não sou esse corcunda que você vê
Eu durmo embaixo do monte dourado.
Você que deseja conquistar a dor,
Deve aprender, aprender a me servir bem.

Você tomou meu lado por acidente
Enquanto descia pelo seu ouro.
O aleijado que você vestiu e alimentou
Não está mais faminto ou com frio;
Ele não procura por sua companhia,
Não no centro, o centro do mundo.

Quando estou em um pedestal,
Você não me armou lá.
Suas leis não me compelem
A ajoelhar, grotesco e desprotegido.
Eu mesmo sou o pedestal
Dessa feia corcunda que você encara.

Você que deseja conquistar a dor,
Deve aprender o que me torna amável;
As migalhas de amor que você me oferece,
São as migalhas que eu deixei pra trás.
Sua dor não é credencial aqui,
É só uma sombra, sombra da minha úlcera.

Eu comecei a ansiar por você,
Eu, que não tenho ambição;
Eu comecei a perguntar por você,
Eu, que não tenho necessidades.
Você diz que se afastou de mim,
Mas posso senti-la quando você respira.

Não vista esses trapos para mim,
Eu sei que você não é pobre;
Você não me ama tão ferozmente agora
Quando você sabe não estar certa.
É sua vez, adorada,
E é sua carne que eu visto.

Pelo exposto, entendo que o Prêmio Príncipe das Astúrias de Literatura de 2011 ficou em excelentes mãos. O cara, além de inegável talento, tem estrela, nasceu, como se costuma dizer em roda de amigos, “com o bum-bum virado para a lua”, além do que tem algo muito importante para pessoas públicas, notadamente artistas: carisma.

Boa leitura.

O Editor.




Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk






Mundo real nas telas



* Por Mara Narciso

Chegando à Santa Casa para operar, às três horas da manhã, Dr. Konstantin Christoff vê, pela milésima vez, Irmã Veerle, na sua batalha diária, dando banho nas crianças da Pediatria:
- Irmã Veerle, e se quando a senhora morrer, descobrir que não tem céu? Como vai ser?
Ousadia sempre foi a sua marca de homem talentoso e diferente. A minha mãe, Milena Narciso, já falecida, conviveu muitos anos com Dr. Konstantin, no bloco cirúrgico, onde ambos faziam cirurgias. Ela contava, às vezes, algumas inconfidências ditas durante os atos cirúrgicos. Eu tenho, e ela também tinha, o maior respeito pelas maneiras excêntricas dele, ateu convicto, mas, dizem, foi batizado e se converteu nos seus últimos dias.
Um dos primeiros médicos da cidade de Montes Claros, e também artista plástico, atuou numa instituição religiosa, conviveu com a convicção das freiras, e manteve sua posição rebelde em muitos temas. Era duro num ponto: intolerância a mediocridade e falta de independência intelectual.
O multitalentos era assim: pequena estatura, olhos azuis de búlgaro, cabelos brancos longos, barba, chapéu, cachimbo e um carro esportivo. Sempre fora do lugar comum, Dr. Konstantin só poderia ser o primeiro em muitas coisas. Observando-o a distância, apenas uma vez falei com ele. Mãe, sua grande admiradora, estava do meu lado, quando fui atendida para tirar um ponto cirúrgico que deu rejeição. Além de embelezar o mundo operando bócios, Dr. Konstantin fez diversas reconstruções faciais de lábio leporino, gratuitamente. Milena foi testemunha de um agradecimento apaixonado. Uma criança pobre, já com uns doze anos, tinha uma fenda labial grave, e como é de se esperar, ainda mais naquele tempo do “tudo incorreto”, era vítima de todas as rejeições. Foi operado, e no dia da retirada dos pontos, olhou-se no espelho e agarrou o seu anjo salvador pelo pescoço e deu-lhe um grande beijo. Mãe viu, e nunca se esqueceu. O menino, hoje quase um velho, também não.
Sua obra prima, dizem os entendidos, foi a “Via sacra”, que vi num livro. Uma vez, houve no Automóvel Clube uma exposição de outras pinturas religiosas, com anjos, santos, e Jesus crucificado. E também a misteriosa figura de Irmã Beata, a qual muito conviveu com o pintor, com seu hábito negro, de braços abertos, num gesto protetor às suas parturientes, retratadas como dança-de-roda de recortes de jornal. As mulheres pobres têm bócio, estão grávidas e levam galinhas e abóboras. Genial!
Andei durante 21 anos procurando o quadro que eu gostaria de ver todos os dias da minha vida. Quando o vi, cheio de flores voadoras, num hotel da cidade, fiquei em estado de êxtase. Era de autoria de Konstantin Christoff. Impossibilitada de comprá-lo, encomendei uma recriação, que era outro quadro, tão lindo quanto o seu irmão. Não consegui fazer a permuta. Fiquei inconformada por meses, mas, acabei me apaixonando também pelo novo.
Então, o grande polivalente de talentos morre aos 87 anos, em 21 de março de 2011. Muitos escrevem sobre ele. Contive-me. Acrescentar o quê a tantas homenagens? O cartunista Márcio Leite organiza uma mostra de quadros, para enaltecer o seu mentor. Tenho a honra de emprestar meu quadro de flores para o que Márcio, apropriadamente, chamou de “Jardim de Konsta”. Pintou a parede do fundo de amarelo, e deu uma vida ainda maior àquela maravilhosa pintura. Na parede ao lado, outras flores que não existem, saídas da imaginação do artista completam o belíssimo jardim.
Márcio Leite conseguiu, com a divisão dos quadros por temas, e paredes com cores vibrantes, ampliar a grandeza das obras expostas. E, tantos anos depois, especialmente as suas mulheres, causam impacto ao observador, que não consegue ficar imune às suas mensagens.
Um vídeo com imagens do pintor em seu atelier mostra os seus quadros, num detalhamento surpreendente. Crítico mordaz, nos auto-retratos, adquire as mais diversas formas, como gatos tarados, ou bobos-da-corte, que apresentam num balão seus pensamentos profanos. Também há cartuns referentes às suas participações na revista Playboy, e outros mais.
A exposição “Tudo Konsta” está deslumbrante. Sinto-me impura em atravessar esse quase santuário do audacioso e gigante autoral que foi Konstantin Christoff. Então, a homenagem foi grande, embora o artista tenha com sua obra, ido muito além de onde a nossa vista possa alcançar.

* Médica endocrinologista, jornalista profissional, acadêmica da Academia Feminina de Letras de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”.





Ingrid

* Por Marco Albertim






Ingrid viera de São Paulo, onde fora presa e fugira no meio do tratamento das pernas queimadas por ácido. A polícia vasculhara o Morumbi à cata de uma loura, então em agitação de rua, e de família grã-fina. Tinham seu retrato, lá. No hospital, não trocara confidências com os camaradas intangíveis; imaginara fuga como um enredo de folhetim. Assim aconteceu. A custódia da polícia no corredor. Ela, trancada no quarto, a mãe do lado. As pernas com ataduras, vestiu a roupa trazida pela mãe. Pulou a janela. Puseram-na numa cadeira de rodas, dois camaradas reais. Caminharam, prosaicos, como visitas de rotina. Do lado de fora, um Fusca levou-os a um apartamento no Bexiga. Tratada por médico amigo, saiu com as queimaduras cicatrizadas.
No Recife não era conhecida, mas tinha dúvidas se sua fotografia não fora espalhada. Confortava-a não figurar entre os procurados mais cotados pela polícia. Não mudara a identidade civil, só o rosto, polvilhado de cosméticos. Com a desintegração do grupo a que pertencera, desligou-se de amigos, afins. Pressentia, pois, iminente cilada. Sentia-se paranóica no meio de estranhos.
Integrou-se ligeiro a novo grupo. Se lhes ordenasse invasão de posto policial, não hesitariam se ela se pusesse à frente. Punham-se de ouvidos, eles, esmolando uma palavra que fosse de seu léxico sem lesões.
Encontraram-se para planejar num sítio afastado. A reunião seria no dia seguinte. Ela se deitou sem pijama, com a calcinha, cobrindo-se dos pés à cabeça, no mesmo quarto onde Raquel se deitara e tinha costume de dormir. Não era insone, por toda a noite se deixava velar por camponeses matando patrões, operários ocupando fábricas, estudantes em barricadas. Fantasmas vivos; via-os de dia, examinando feições, músculos, para resgatá-los nos sonhos.
Apareceu na porta dos fundos, enrolada em lençol branco; cabelos soltos, fadiga nos olhos. Falou-lhes com voz baixa, rouca... e autoridade. Apreciavam-lhe qualquer peroração. A rouquidão, ainda não ouvida, aguçou-lhes os sentidos. Beberam, como um ungüento noturno, o juízo sem tropeços de Ingrid. Não evitaram, quando ela se virou para entrar, olhar o lençol fino por onde se via o contorno de suas coxas, interrompido nas nádegas com a calcinha. Durou dois minutos sua aparição.
. - Raquel me disse que não é comum por aqui, reunião de madrugada. A luz pode chamar a atenção. Vocês devem entrar para dormir.
Horácio tinha caderno e caneta, anotando frases, gestos, o que lhe parecia útil para escrevinhar contos.
- Estamos discutindo lingüística. Poderá a revolução fazer da língua, o que fará com a socialização dos meios de produção!? Quero dizer: a língua será posta num tubo de ensaio para ser objeto de experiências?
Ela não respondeu. Antes que Ingrid sumisse dentro de casa, ele insistiu:
- Ingrid! Seu nome não é nada brasileiro.
Ela se voltou.
- Eu sou internacionalista! Minha alma é tupiniquim.
- Pode ser uma bela resposta para um nacionalista que se esconde no tronco dos tupis.
A resposta não saíra de Horácio. Saíra de Miguel, até ali calado, à cata de um mote, ou de uma moita para dar o bote, que nem um guerrilheiro.
- Tenho prática de nacionalista?
Ela perguntou, chispando nos olhos de Miguel; chispando para tirar dali as vísceras do provocador.
- Não. Mas nenhum credo nasce inteiro. Surge potencialmente.
- Estou com sono. Não estou me evadindo da discussão. Temos uma pauta marcada para deliberar amanhã... ou mais tarde. Não demorem, liberais.
Entrou deixando um perfume vago de fêmea que não se deixa capturar; nem na controvérsia, nem no sexo. Entrou deixando-os confusos. Continuaram falando o tempo bastante para ela dormir. Não havia lua. Iluminava-os a luz rala do quintal, na cumeeira da casa. No intervalo entre uma fala e outra, ouviram, vinda de dentro, a voz de Ingrid. Não era sua interlocução conhecida. A modulação da voz, escorreita, soou austera, com fluidez de morto-vivo.
- Silêeeencio...
Ingrid dormira para reencontrar com seus duendes. Em geral, tinha conversação amistosa com eles. Ouvia-os reverente, animosa, perempta. Sonhava com um ou com todos juntos. Dormia profundamente, e a cada quinze minutos soltava duras interjeições de apoio, de rejeição. Estava sonhando com um camponês urdindo tocaia. Ouvira a voz de Miguel. Lembrou-se residualmente de que ele questionara seu internacionalismo. Outra vez o importuno! Pediu silêncio.
Nunca fora inquirida sobre suas singularidades, e em se tratando de hábitos noturnos...
Convinha entrar, inda que suspeitassem ser o espectro de estranhos a razão do gemido de Ingrid. Horácio advertiu:
- Ela não está dormindo, está arrumando a crítica ao nosso comportamento liberal.
-Com razão - rendeu-se Miguel.
- Podemos dormir em paz porque estamos sob a tutela de Ingrid - Alfredo, com a lente grossa dos óculos, ocultava o pensamento sem truques; ocultava para ficar à vontade em sua cobiça de ser capturado pelo devaneio de Ingrid. Sabia que ela nunca dormia só, ou tinha prazer em dormir para urdir, lasciva, a seu modo, a revolução.
Raquel, primeira a se levantar, trouxe o pão da padaria. Viúva, vivia só, tinha saudades dos filhos longes. Aproveitou para fazer a refeição como se estivesse em família. Não entendia de revoluções. Sentia-se feliz em cevar moços dispostos a sacrifícios. Forrou a mesa com toalha quadriculada. Dispôs leite em jarra de barro, cuscuz em bacia de porcelana, ovos na frigideira de ágata.
Ingrid elogiou o cuscuz, elogiou sem confessar que há muito não comia cuscuz de coco com leite doce. Conversou só com Raquel, conhecendo-a. Os outros, camaradas de propósitos, olhara-os um a um nos olhos; preferia crer que não suspeitavam do sussurro com os afins intangíveis.
Alfredo, míope, beneficiava-se dos óculos, examinando-a; nutria-se com a boca, os ouvidos. Sabia quão remota era a chance de tê-la amante, e pinçava cada um de seus traços para reencontrá-los noutra mulher.
Ingrid tinha parelho, não se fazia acompanhar porque viviam ocultos. Melhor viver só, nutrir paixão à furtiva, que serem pegos os dois pela polícia. Encontravam-se em lugar não sabido, com intervalos longos. Queria não chorar, chorava. Trazia na bolsa onde guardava cosméticos para disfarce, uma cueca dele. Tirando, certa vez, o estojo de ruge, o talismã veio preso à tampa. Não se conteve na presença de Alfredo:
- A cueca de meu marido!
Ele desfez a tenção de sitiá-la...
Reuniram-se por todo o dia. Antes que começassem a falar, ela, tal como desconfiara Horácio, increpou a indisciplina à noite. Esperavam. Increpou sem lesões na voz, com mis-en-scène alegórica, sensual. Mantiveram-se reféns de sua censura; experimentavam gozo, agonia. Alfredo, que fora dormir para sonhar como insurreto dos planos de Ingrid, teria preferido a dor do infarto à acusação de pôr em risco a segurança.
- Liberalismo!
Horácio quis fazer a ata da reunião. Ingrid advertiu-o do perigo. A polícia poderia pôr os olhos no registro. Ele queria, queria para narrar a tensão escoada pelo libelo de Ingrid. Conformou-se olhando para as cicatrizes nas pernas dela, do ácido jogado por polícias; as compridas estrias sob a saia de Ingrid, infundiam densidade as suas palavras.
Era o único escritor. Tinha um romance pronto, recusado pelo editor; fora lido por todos, com exceção de Ingrid. Alegara outra prioridade, conforme seu trabalho de revolucionária.
Depois do libelo, expôs o que seria um plano de incitamento popular. Doença infantil! Horácio via em Ingrid o gênero de esquerdismo diagnosticado por Lênin. Não se contrapunha, pelo menos em sua frente. Sem explicação, capitulou sob o discurso abundante... as pernas com as cicatrizes deixadas pelo inimigo.
À noite não houve conversa nos fundos da casa. Raquel, sem nada lhes dizer, matara uma ave cujas penas, raras no sobrecu, davam conta de fartura de carne, de carne e de gorduras. Preparou canja de galinha. O apetite regular fantasiou um cardápio burguês à espera de todos. Não estavam acostumados a comer galinha de capoeira; comeram, repetiram sem pedir licença. A gordura colidiu nos intestinos. Ingrid, a mais diarréica, teve ajuda da erva doce preparada por Raquel; suou e não perdeu a compostura, nem quando sentou as três vezes na latrina de cimento. Os outros não deixaram por menos, mesmo com resíduos de remorsos à passagem pelo local onde Ingrid os censurara. Raquel, dali em diante, conteve os rapapés.
Depois do quinto dia, desfez-se o encontro. Ingrid foi a única a permanecer na casa cuja única vizinhança era um arruado a dois quilômetros, e granjas dispersas de proprietários desconhecidos. Raquel não pôde compartir os dotes de inteligência da hóspede; passava o dia varrendo, cozinhando, tangendo bichos. Ingrid aproveitou para estudar; leu os seis volumes d'O Capital, incluindo prefácios, posfácios e a nota do tradutor. Mais tarde confessaria, num raro rasgo autocrítico, não ter entendido nada, vítima de insofrida pressa.
Dormiu em quarto vazio. Raquel, sono ininterrupto, não ouviu os monólogos noturnos de Ingrid. À leitura de cada livro, ela intuía ser capaz de transmitir o conhecimento a uma assembléia obreira. A assembléia ressurgia toda noite. Os duendes atendiam a seu chamado, insurgentes de rosto difuso. Deitava-se esperançosa de não dormir só, de que era velada por fiéis camaradas incertos. Operários de todo o mundo, uni-vos! Eles davam-se as mãos, apartavam-se para aplaudir, invectivar a favor. Numa noite, Raquel foi ao banheiro, ouviu em frente ao quarto um balbucio estranho. Empurrou a porta para certificar-se de que a casa não fora invadida por ladrões. Ingrid jazia sob o lençol branco, a cabeça enrolada no tecido, nenhum fio de cabelo à mostra; só o rosto vermelho, com os beiços se movendo. Balbuciava para operários de todo o mundo. Mijando, Raquel ajuizou-a freira, com recatos de dia... e ricto à noite.
O retiro durou quinze dias, até às vésperas das eleições para candidatos a deputado. Entre um capítulo e outro d'O Capital, redigiu texto pregando o voto nulo. No Recife, entregou-o a Alfredo e foi para casa. Não deliberaram sobre os termos; demais, ninguém duvidava dos dotes persuasivos de Ingrid. Nem Horácio!
Houve dificuldade para entender sua letra hieroglífica. Alfredo, maquinando conjuras, conjuras e o amor impossível, decifrou traço por traço. Sorriu feliz ao final. Horácio, suando:
- Devia exercitar a escrita, nossa orácula. Onde aprendeu a escrever assim? Com egípcios, numa pirâmide.
Os dois passaram a noite acordados, imprimindo cinco mil cópias do texto, num mimeógrafo a álcool.
- Teremos cinco mil votos nulos e duas tendinites - Era azedo, Horácio.
- Não quero ser preso... nem ficar aleijado para não poder destravar uma matraca. - Você tem dedos ágeis, Alfredo. Poderá destravar qualquer pau-de-fogo. Só não poderá detonar o fogo de Ingrid.
-!
- Isso mesmo! Estou dizendo que nossa tutora tem mercúrio nas veias. Não precisa que lhe acendam o pavio. Ela é chama, toda chama; uma labareda que não se deixa queimar e queima todo mundo. Está doido por ela, não é mesmo?
- Ela me atrai.
- Tenha cuidado. Ela é fogosa mas pode lhe jogar uma ducha de água fria que lhe deixaria impotente por um bom tempo. Ela é fria, cruelmente fria nas verdades.
Às quatro da manhã não resistiram ao sono. Interromperam para deitar. Havia duas camas no quarto dos fundos. Acordaram às nove para continuar. O pai de Alfredo não tinha costume de almoçar em casa; vez ou outra mudava de idéia. Os dois torciam para o velho se manter fiel ao hábito. Na cozinha, o relógio de parede badalou o meio-dia. Sentiram fome, apreensão. O portão da frente rangeu. O velho entrou. Os dois pegaram as volantes e puseram numa sacola. Pularam o muro para o quintal vizinho. Não havia ninguém no terraço, onde teriam que passar para ganhar a rua. Foram surpreendidos pelo dono, um velho troncudo, zeloso de sua posse.
- O que é isso? Vocês estão invadindo minha casa!
Alfredo conhecia-o, e nunca trocara palavra com ele.
- Desculpe, meu senhor. Só fizemos isso para evitar um constrangimento. Há uma visita em minha casa que nós queremos evitar. Desculpe.
- Era o que faltava...!
A panfletagem, em bairro operário, seria um apêndice das assembléias intuídas por Ingrid. Redigira o texto, fiel à confiança que os imaginários camaradas tinham nela. As volantes, em maços de cinco, dez, seriam postas sob a porta de cada residência numa rua larga, sem calçamento, cortada por um canal, na Macaxeira. O texto era assinado vagamente por Ação Popular.
Horácio teria que trabalhar na manhã seguinte. Foi dispensado; com alívio, porque também se pouparia da tagarelice de Ingrid. Alfredo e Ingrid, Miguel e Alice teriam que se fingir de namorados; braços dados ou sobre os ombros. O primeiro casal seguiu a Rosa e Silva; o segundo, a avenida Norte, a partir de Casa Amarela. Cada um em sua artéria parou num boteco vazio. As mulheres se abstiveram, mas os homens entornaram cachaça pura, para o caso de abordagem da polícia, e serem confundidos como boêmios da noite.
- Pura! Sem nada! Quero um tira-gosto - queixou-se Miguel, queixou-se e comeu um bolinho de bacalhau com cheiro de mofo.
Alfredo bebeu sem se queixar. Fez do copo o instrumento de imolação por poder tocar em Ingrid, e não celebrar a posse. Ela, soberana, submissa a Alfredo, saudosa do parelho, confidente de duendes.
Encontraram-se no lugar combinado. Cada casal percorreu um lado da rua. Não demorou a distribuição dos papéis. Ingrid ficou com remorsos por não terem trazido mais cinco mil. O lugar estava deserto. As ruas, com buracos, fendas, dificultavam o tráfego de camburões. Às duas, foram para a rodovia à beira da mata; pegaram o primeiro bacurau. Com as sacolas vazias, desenvoltura, mantiveram a aparência de casais. Saltaram na Riachuelo, vazia para acolher o prazer de cada um. Ingrid, ligeira, livrou-se do braço de Alfredo; livrou-se, pulou feito um saltimbanco.
A panfletagem chamara a atenção da polícia. O bairro encheu-se de meganhas, olheiros. Ingrid comemorou a seu modo, com o parelho, em lugar incerto, longe da morrinha do Capibaribe. Seu olfato e as cicatrizes tinham alergia à lama do rio.
Decidiram, todos, sumir de circulação até que os tiras relaxassem a vigilância. Alice recolheu-se em casa, com o marido desconhecido, sem dar pistas da moradia. Horácio, Alfredo e Miguel deram jeito de não se recolher, porquanto solteiros. Reuniam-se às segundas, dia morto, no fim da Regeneração, Água Fria. À noite, o velho João servia-lhes um caldo grosso de feijão, com camarão, azeitona, azeite e um molho grosso, de pimenta, que chamava de barro da Transamazônica. Caldo regado a cachaça. Velho histrião, João, vendeiro hábil, stalinista enrustido. Tinha versão própria para o fim de Trotsky. Quando o bar esvaziava, dizia aos três:
- Stálin perdeu a paciência com Trotsky. Foi provocado muitas vezes. Provocação pessoal! Chamar Stálin de vacilador! O marechal de aço! No começo, foi paciente. 'Pare com isso, Trotsky... Pare com isso, Trotsky.' Stálin perdeu a paciência, e decidiu pela execução do provocador.
- Com um machado, seu João? Mercader usou um machado! - interveio Horácio.
- Stálin era um revolucionário prático. Não tinha preocupação com estética!
- Não está provado que foi Stálin o mandante da morte de Trotsky - ponderou Miguel. - Está provado que tinha interesse no sumiço do provocador Trotsky.
- Bem dito, rapaz. Mercader era doido, ainda é. Mora em Cuba. Não atrapalha nem ajuda a revolução no Caribe. A história não julgou Mercader, julgou Stálin porque enfrentou a besta nazista.
Feito ave de rapina, o velho João dava o bote e recuava para tirar proveito da impressão deixada. Sentencioso, perempto, mesmo não tendo com quem conversar, nutria-se feliz com as convicções. Os três, sós, voltavam a assuntar a faina secreta. Horácio especulou sobre o segredo do tempero de seu João.
- Ainda canto a cozinheira de seu João. Como mexe na panela... É uma maga, uma feiticeira por quem me deixaria envenenar porque já estou encantado. Não tenho casa para onde levá-la.
- Ela desconfia de seus propósitos? - quis saber Alfredo.
- Desconfia. Do mesmo modo que Ingrid desconfia dos seus. As mulheres do povo têm mais células olfativas que as filhas da burguesia, mesmo a pequena-burguesia rebelada como nós.
- Cante-a de uma vez. As mulheres do povo impacientam-se com mais freqüência quando se trata de sexo.
- Estou esperando...
- ... que amadureçam as condições para a revolução popular - Miguel pilheriou.
- Que ela ponha um camarão a mais no meu caldo. Mordisco o camarão para comê-la depois. Lá mesmo, no sótão onde moro.
- Não tem medo de se pôr sob a tutela de Ingrid, e vacila em fazer a corte a uma cozinheira do povo. Estude Mao - Sobre as contradições no seio do povo - sugeriu sério, chistoso, Miguel.
- Tomasa, o seu nome é Tomasa. Quero dançar a habanera com ela, uma salsa. Depois me esconder em suas coxas.
- O que mais lhe preocupa, Horácio? A revolução ou o futuro que reserva a sua luxúria? - quis saber Alfredo.
- Preocupo-me com a estética do amor. Tenho tempo para pensar nisto. Todos temos que pensar nisto. Você pensa e nega com a lente dos óculos. Ingrid pensa... ou não?
- Ela se preocupa com a estética da revolução. É uma mulher sensual... e age como se não tivesse útero. Não consigo vê-la dominada por um macho viril, urrando com a penetração. Parece um autômato... e olha para todo operário como se fosse um pênis místico!
- O que estará fazendo nossa tutora, agora? - especulou Horácio.
- Fornicando, certamente - interrompeu Miguel - Sem a afetação que rouba de Rosa Luxemburgo.
- Está dizendo que nossa tutora é uma impostora?
- Não. Tenho confiança nela. Mas acho que esconde alguma fraqueza. Mostra-se e ao mesmo tempo se esconde. É o nosso fantasma da ópera. Ela poderia assumir-se de vez e seria uma mulher integral.
- Uma revolucionária sincera.
Ingrid, com o olfato e as cicatrizes distantes deles e do rio infecto, imprecava, doce, contra a flacidez do pênis do parelho, nos intervalos dos coitos. Tinha o costume de montar. Só depois do gozo, permitia ser montada. Deixava-se penetrar com violência, por prazer, por vindita social. Sob o parelho, recuperava a energia, em seguida montava-o. Um mês no desvario. À noite, descansando, tramava meio de voltar a São Paulo, ocultar-se com ele em bairro de raça variada; na Mooca, indistinta entre a multidão ruidosa.
No reencontro, Raquel recebeu-os com os rapapés de costume. Ingrid quis saber se algo incomum ocorrera depois que saíram.
- Só uma vez na padaria. Me perguntaram quem eram os moços com sacolas nas costas que tinham saído de minha casa para pegar o ônibus na rodovia. Eu disse que eram estudantes evangélicos, fazendo retiro.
- Menos mal. Ainda assim, ruim. Chamamos a atenção.
Alice chamou-os a um canto. Na lateral da casa, em declive, tinha-se acesso a uma clareira. Sentaram-se. Ela perguntou se não seria o caso de sair dali, ou mesmo suspender a reunião. Contou que fora seguida no Prado por um estranho, seguida em três quarteirões; no quarto, uma Kombi estacionou de seu lado. Dois homens desceram para pegá-la. O motorista não tivera o cuidado de desligar o motor, e deixara a porta aberta. Ela entrou no portão de uma casa, esbarrou com uma mulher no quintal. Faltou-lhe idéias para forjar desculpa. Confessou que era estudante contra a ditadura, e estava sendo molestada por dois polícias. A mulher disse para ela seguir pelo portão de trás, com acesso à avenida Caxangá. Na calçada, pegou um ônibus, safou-se. A mulher teria dito que em sua casa ninguém bateria em estudante.
- Tem certeza que não foi seguida até aqui?
- Tenho. Mas no caso a certeza nunca é absoluta.
Ingrid, assuntando no que fazer:
- Não podemos sair daqui em grupo. Seria muito arriscado. Também não vamos abrir a reunião agora. Vamos relaxar. Parabéns, Alice. Você teve iniciativa na frente do inimigo. Não se intimidou.
À noite não sentaram no terraço. A luz permaneceu acesa para não fugir do costume. Na sala, sob a claridade de três candeeiros, sentaram-se num canapé velho, espreguiçadeiras, bancos sem encosto de trás. Ingrid, atenta à dócil viuvez de Raquel, ria, ria como nunca tinham visto.
- Não pensa em casar outra vez, Raquel?
- Não gosto de lavar cueca de velho.
- E um namorado?
- Esse não lava a cueca, mas é mais prático.
- Você não vai a festas?
- Vou aqui, no São João. Não danço quadrilha. Me divirto na fogueira, faço promessas. Já quiseram me casar com o comissário. Deus me livre! Me obrigaria a passar graxa em seu sapato.
Ingrid não perdeu a rédea da conversa. Bocejou sono. Raquel disse que arrumaria a cama. Ela não deixou, correu para o quarto. Depois, quando voltou da latrina, deu boa-noite aos outros, estimando cuidados. Alice deitou-se no quarto vizinho, só. Horácio, Alfredo e Miguel, no último, junto à cozinha. Relaxada por não ser viúva, Ingrid dormiu. Havia tempo para nova confabulação com os duendes.
Do lado de fora, grilos, corujas, morcegos. O sopro do vento entrando nos telhados, feito sinfonia, embebia a casa de perfumes pluviais. Dormiram, dormiram rendidos ao culto devoto dos ribeirinhos, inda que não cressem na guarda do padroeiro. Raquel, antes de deitar, balbuciou oração. Ingrid deu-lhe boa-noite, boa-noite para encobrir a crença incréia. Prostração. Fechou os olhos com as pernas dissolutamente abertas, íntima de duendes. No hospital, o queimor das pernas não permitira visita dos duendes. Agora, com cicatrizes duras, oleentas, uma leve coceira nos pés ajudou-a a se levantar. Abriu a porta do quarto, dos fundos, do banheiro, sem ruído; tão silenciosas quanto seus pés no chão frio. Não acendeu nenhuma luz; só a do quintal, acesa. Não sentou para mijar, ficou de frente para a latrina, olhando a caixa de descarga. Os cabelos, soltos, cobriam os lados do rosto, a frente arqueada.
Alfredo, inadvertido, advertido por um duende, levantou-se para mijar. Não estranhou a porta de trás semi-aberta, imputando culpa a Horácio, Miguel... ou a Ingrid lucubrando sublevações. Caminhou olhando para baixo. Pôs o primeiro pé no banheiro, ergueu o rosto, viu Ingrid de costas, nua, parada, gesticulando vagamente as duas mãos. Deu meia-volta, ele; e estranhou-a não ter visto ou sentido sua presença. Voltou-se. Ela vinha andando em seu rumo, olhos fechados, cabeça baixa, movendo os beiços. Sonâmbula! Cruzou a pequena distância entre a porta do banheiro e a dos fundos da casa. A penumbra não escondeu o tufo maciço de cabelos no ventre. Hirto, lábios pedintes, acompanhou-a com a vista até que ela entrasse no quarto. Mijou ali mesmo, Alfredo, e correu para despejar o resto da urina na latrina.
Afortunado... Deitou sem acreditar na matéria de seu corpo, crendo-se fauno no sítio de Raquel, capturado ao devaneio de Ingrid. Vira-a transfigurada, fauna de fato, à procura de gnomos. Não dormiu para não desfazer a fábula. Tinha o costume de ir ao banheiro sem uso dos óculos, em casa. Familiar às gentilezas de Raquel, fizera-se useiro do banheiro, sem precisão dos óculos. Os sentidos e os duendes petrecharam-no. Ingrid surgira à noite para jamais sair do transe dele.
De manhã, ela foi com Raquel comprar o pão. Quis maquiar-se. Foi advertida de que ali, àquela hora, ninguém usava pinturas no rosto. Convinha conciliar-se com os costumes, inda que contrariando recomendação da turba do sonho. Queriam-na incendiária, para espoucar milicos.
Alfredo acomodou-se à espreguiçadeira para não andar às tontas na casa... ou fora, entre troncos, arbustos, bichos. Nunca se sentira tão protegido com os óculos, fingindo conjuras. Horácio, com papel e lápis, sentara-se na clareira, sob um jenipapeiro; fazia emendas para enxertar no romance. Miguel não gostava de sair do quarto, antes de o grupo juntar-se; provocador, apreciava atear fogo à controvérsia depois do começo. Alice era de pouca opinião, esperava que Ingrid terminasse de falar, para arrastar com esforço o léxico pobre. Enquanto Alfredo esteve na espreguiçadeira, ela foi ao banheiro; asseou-se sob jorros de um caneco abastecido em tina cheia d'água. O ruído, miúdo, ouvia-se da sala. Alfredo reavivou o transe da nudez mística de Ingrid. O lugar, agora, estava ocupado pelo corpo desmilinguido de Alice.
Ele jurou poetizar a aparição de Ingrid nua. Estava certo de que o recurso à prosa, purgaria-o do transe.
Nos dois dias, não assuntaram amenidades por causa da vigilância de Ingrid. Ela entediava-se quando a tensão do conluio se desfazia. Decidiram voltar à Macaxeira, agora para expor em outra volante, o desgaste sofrido pelo governo com o voto nulo. Não marcaram data, para efeito de segurança. Encontrar-se-íam outra vez. Ela redigiu o texto, discutiram-no. Não mencionava imprecisas armas, e sim brigadas populares de autodefesa.
- Não temos nenhuma arma! - objetou Horácio.
- Não. Mas estamos exercitando a perspectiva do confronto armado!
Doença infantil! Outra vez Horácio teve engulhos.
Os panfletos foram distribuídos na mesma rua, pouco antes de o sol nascer.
Outra reunião. Ela considerou, fria, ter cumprido as atribuições que lhe couberam. Queria viajar, as mesmas obrigações noutra cidade. Não disse, e todos suspeitaram de sua aversão à morrinha do Capibaribe.
Esperou dois meses até que mandassem alguém para substituí-la. Viajaria sem dizer para onde; ela e o parelho, conjurando nos sentimentos.
Antes de partir, teria encontros individuais em artéria deserta. Voltar à casa de Raquel tornara-se temerário. O propósito era ouvir o julgamento que fariam de seu desempenho. Ouvir e recomendar o que deviam fazer dali para a frente, conforme o perfil de cada um.
Despediu-se de Alfredo na capela do cemitério de Santo Amaro, à tarde. Saiu pela porta frontal, rumo ao portão do cemitério. Deveria manter-se sentado, até que ela sumisse sob o gradil de setas de ferro. Sentou-se, levantou-se, viu a silhueta de Ingrid se amesquinhar entre as palmeiras. Custou a acreditar que seria a última chance de apreciar seu passo estugado. Não se conteve, gritou:
- Ingrid!
Nunca gritara o nome dela, nem que as normas de segurança permitissem. O grito evadiu-se no vento. Ela ouviu, ouviu e não olhou para trás. Custodiada por camaradas intangíveis, atravessou a rua para perorar a operários com a cumplicidade presente do parelho.
Alfredo cumpriu a promessa de fazer poesia à noite que lhe presenteara o corpo sem roupa da tutora. Escreveu sua dor com a mesma crueza com que ela imprecava contra o desleixo, o liberalismo. Mostrou-a, desbrioso, a Horácio, na frente de Tomasa refém de sua estética.
Alfredo ouviu, num canto, a habanera que Horácio dançou com Tomasa.

*
Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.






Hora marcada

* Por Sayonara Lino

Olhou para os lados e percebeu que finalmente era livre. Ninguém para telefonar e dar explicações, não tinha filhos, a família vivia distante. Caminhou lentamente e desfrutou cada momento. Desejava conhecer a cidade, observar seus habitantes, os costumes, o ritmo.
Não sentiu medo nem ansiedade. Talvez um certo estranhamento, mas nada que a fizesse querer retomar a antiga vida, da qual guardava boas lembranças. Tudo o que precisava era respirar novos ares, criar uma outra rotina, desprender-se.
Andou o dia todo sem sentir cansaço, sem pressa. Contemplou e riu, sentiu-se bem e feliz de uma outra forma. Uma nova mulher começava ali. Sem laços, sem rédeas, sem hora marcada.

• Jornalista, fotógrafa e colunista do Literário






Pelicano

* Por Adélia Prado


Um dia vi um navio de perto.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho
Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi - como vi o navio - um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
- a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.

(Poesia Reunida, p.359)


* Adélia Prado é uma das principais poetisas brasileiras da atualidade, autora de vários livros de sucesso. .


Cinquentinha

* Por Marleuza Machado

Foi como fazer o pouso suave com um balão, no momento preciso, no local determinado. E a viagem foi lenta, repleta de expectativas, recheada de experiências, leve, por eu ter me desfeito - em pleno ar - do peso de sentimentos inúteis que ameaçavam a estabilidade do voo.

Viajei, ora só, ora com amadas e agradáveis companhias. Deslumbrei-me com belas paisagens, sobrevivi a enormes tempestades, planei em itinerários líricos! Chorei, sorri, amei... Enfim, pousei. Como não podia deixar de ser, aterrisei madura e tranquila na marca dos cinquenta.

E sendo natural da condição humana permanecer em contínuo movimento, esse pouso nada mais é que o cumprimento de uma data, no calendário que um senhor, chamado tempo, criou. Não significa, no meu conceito, momento de repouso, pausa para contemplação da vida, ou instante de lamentar se a "carreirinha" de cápsulas matinais aumentou. Sinto meu balão repleto de gás! O infinito me espera e nele, busco desafiar todos os limites que o tal senhor também costuma impor.

• Poetisa e jornalista