quarta-feira, 1 de setembro de 2010




Leia nesta edição:

Editorial – Só o futebol ainda me deve

Coluna De corpo e alma – Mara Narciso, crônica “Slogans políticos 2010: ‘por um mundo novo’”.

Coluna Da terra do sol – Marco Albertim, conto “Rapadura”

Coluna Personalidade e atitude – Sayonara Lino, poema “Lugar nenhum”.

Coluna Porta Aberta – João Alexandre Sartorelli, poema “Ondas nos pélagos”.

Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, poema “A última pantera”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Só o futebol ainda me deve

C
aríssimos leitores, boa tarde.
Acompanhei a Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha, em minha casa, lugar onde consegui a façanha de criar um mundo a parte, restrito e particular, bem à minha feição. Se a Seleção Brasileira foi enorme decepção nesse período, não posso (felizmente) dizer o mesmo em relação à minha vida. Os últimos dez ou quinze anos, pelo menos, têm se constituído numa era de contínua felicidade, em que as satisfações se sucedem e se renovam.
Trago a público esse testemunho não no sentido de me vangloriar ou de querer ser mais do que os outros, pois tenho consciência dos meus defeitos e limitações. O objetivo é permitir que mais pessoas me conheçam, mesmo que superficialmente. Para atestar a veracidade destas revelações, conto com o testemunho de vários dos participantes deste espaço que, de uma forma ou de outra, convivem comigo, ou profissional ou socialmente e, portanto, me conhecem.
Reitero que notadamente estes dez primeiros anos do século XXI vêm sendo um período de intensas alegrias e surpreendentes sucessos que, prudentemente, busco não somente preservar, mas, se possível, multiplicar.
A época da disputa da Copa do Mundo de 2006 eu estava com 63 anos e meio (lembro, mais uma vez, que faço aniversário em janeiro). Para minha surpresa (e satisfação, claro), os tão temidos sintomas de envelhecimento que diziam que eu sentiria ao me tornar sessentão, naturais em qualquer pessoa, não se manifestaram. Não, pelo menos, ainda. O tempo, benignamente, tem me poupado.
Passei dos sessenta e sinto-me o mesmo de quando ainda tinha quarenta. Tenho o privilégio (ou a sorte?) de gozar de plena saúde física e mental. Atribuo isso ao fato de manter corpo e mente sempre ocupados e de não perder o interesse pela vida. Ademais, boa parte dos meus projetos foi concretizada com sucesso. Não toda ela, claro. A realização completa jamais irá ocorrer. Quero mais, e mais e mais, sempre mais. Não bens materiais, ressalto, mas experiências e conhecimentos, que são as grandes riquezas nas quais sempre apostei minhas fichas. Isso não quer dizer que eu seja mal-agradecido à vida. Ocorre que tenho a consciência de que a insatisfação (a normal e controlada) é a mola-mestra do progresso, a impulsionadora dos nossos planos e ações.
No início de 2006, logo no mês de janeiro, encerrei outro ciclo profissional na minha trajetória. Afastei-me da empresa em que então trabalhava, para dedicar maior tempo a atividades como produção de textos para sites, jornais e revistas, que demandavam horas e horas de pesquisa e redação. Nos quatro anos anteriores, tive o privilégio de emprestar meus conhecimentos e facilidade de escrever à “Arte Brasil Publicidade” (o Marcelo Sguassábia certamente a conhece), na função de redator publicitário.
Foi uma experiência profissional ímpar, das mais gratificantes, que me enriqueceu interiormente e que considerei como outro desafio superado com êxito. Ao exercer essa atividade, praticamente completei o ciclo da comunicação. Só não fui, mesmo, profissional de TV. No mais... No jornalismo, por exemplo, fui desde assessor de imprensa a editor-chefe de jornal, passando por todo o ciclo produtivo da mídia impressa, como revisor, repórter, comentarista, editorialista etc.etc.etc. Fui, também, radialista, profissão em que me iniciei bastante jovem, diria que adolescente. A publicidade, portanto, completou o elenco de profissões ligadas à comunicação que exerci.
Antes, de 1999 a 2001, já havia sido assessor parlamentar dos vereadores Romeu Santini – atual secretário de Relações Internacionais da Prefeitura Municipal de Campinas – e Terezinha de Carvalho. Quando pensava que já havia esgotado todas as experiências em funções ligadas à comunicação, eis que em março de 2006 surgiu a oportunidade de viver mais uma que ainda não tinha vivido: a de editor de um espaço nobre da internet voltado à literatura.
A convite da direção do Comunique-se, assumi a responsabilidade de coordenar, revisar e editar este Literário (que em março de 2011 completará cinco anos). Há quase dois anos, esta nossa revista literária eletrônica diária ganhou vida própria, desvinculada de qualquer empresa ou organização, e cada vez mais democrática e dinâmica.
No início de 2007, resolvi voltar ao mercado de trabalho formal. Não resisti ficar fora dele por mais de um ano, embora essa volta não se deva a questões financeiras. Ocorre que sou maluco por desafios e mais um deles se apresentou à minha frente. E eu não poderia recusá-lo. Não recusei.
Fui contratado pela Informática dos Municípios S.A., empresa de economia mista, para editar o Diário Oficial de Campinas, atividade que ainda exerço com entusiasmo e alegria. Mas, convenhamos, é outro baita desafio que encaro.
Em 2006, duas de minhas filhas já estavam casadas e a mais velha delas havia me dado um neto. Haviam restado em casa, além da esposa, os dois filhos mais novos. As despesas, por conseqüência, caíram bruscamente, enquanto que as receitas ou se mantiveram estáveis, ou se multiplicaram. Pela primeira vez na vida podia trabalhar exclusivamente por prazer, pelo orgulho de realizar uma obra consistente e boa, sem ter que pensar em remuneração (embora esta não fosse e não seja desprezível, confesso).
Como se vê, 2006 marcou a sequência de um dos períodos mais ricos e férteis da minha vida (que ainda prossegue e creio que se expandirá). Só não me era (e ainda não me é) satisfatória a minha grande paixão de infância: o futebol. Meu clube do coração, a Ponte Preta, segue batalhando em uma divisão inferior do Campeonato Brasileiro, tentando o acesso à Série A, de onde nunca deveria ter sido rebaixada. E a Seleção Brasileira conseguiu me decepcionar de novo, e em duas copas consecutivas.
Minha expectativa e grande esperança é que haja uma reversão e que as coisas sejam repostas em seus devidos lugares até o fim de 2010, com o acesso da Ponte Preta e nos próximos quatro anos, com a conquista do Mundial de 2014, pela Seleção, que o Brasil vai organizar 64 anos após o tristemente inesquecível Maracanazo.

Boa leitura.

O Editor.



Slogans políticos 2010: “Por um mundo novo”

* Por Mara Narciso

Todos sabem o que são slogans, ou pelo menos os conhecem e os repetem sem perceber. É palavra ou frase usada com frequência, em geral associada à propaganda comercial ou política, diz o Dicionário Aurélio. O slogan bom entranha no cérebro do receptor e se cola sem possibilidade de resistência. Para ser lembrada, a frase não precisa ser criativa ou inteligente. A lavagem cerebral travestida de impregnação dos sentidos é confirmada à medida que se repete o refrão do jingle político.

Numa caminhada pelo centro, em pouco tempo pode-se acumular muitas dessas frases que se pretendem audaciosas, e que têm por objetivo tirar o candidato do limbo do anonimato, jogando-o na ribalta, no grupo dos políticos discutidos, disputadores das cabeças das pesquisas de opinião.

Algumas frases do contexto eleitoral soam pretensiosas, arrogantes, prepotentes, vindas de pessoa que finge poder resolver os mais complexos problemas da nossa sociedade. O que acham de “Coragem e atitude para Minas avançar”? Aliás, para ser político, é imprescindível que haja montes de coragem. Numa democracia parece-me exagero. Outra frase diz assim: “Coragem para mudar”. Se for para pior é preciso ter muita coragem.

A “mudança” é outra figurinha dos dizeres políticos. Mesmo os candidatos continuístas não se esquecem de prometer mudanças. Indica que o ser humano não fica parado, nem num lugar, nem numa situação. É preciso mudar.

Confiar em quem vai ser votado é indispensável: “Dê seu voto de confiança”; “Meu trabalho você conhece”; “Neste eu confio”; “Credibilidade e confiança”; “Esse tem o meu voto”. E ainda, vigor e convicção no cultor de si mesmo: “Amizade e trabalho”; “É com este que eu vou”; “Eu também voto”; “ O meu voto vale”, enquanto o desfile de egos continua.

A ilusão é um sentimento difícil de explicar. É possível que muitos tenham esse sentimento em diferentes intensidades. O candidato que entra numa campanha política precisa ter por princípios: estar certo de que vai vencer; ser convicto de que é o melhor de todos; não perder tempo com humildade, a falsa e a verdadeira, como a frase desse slogan: “Humildade e competência”, ou seja, duas mentiras num só slogan.

Para alguns soam como discursos arcaicos, mas em todas as eleições essas falas estão de volta em níveis mais ou menos raivosos, pois mencionam lutas e guerras em tempo de paz: “Rumo ao socialismo”; “Salário trabalho e terra”.

Poucos políticos confessariam, mesmo aos correligionários, que não acreditam na vitória. Até quando os oponentes invadem seu território, anulando o poder do seu trabalho, ou ainda, quando sentem que a verba escasseou, não se atrevem a pensar, e nem ao menos dizer que a batalha está perdida.
E o bairrismo exacerbado: “Minas no caminho certo”; “Somos Minas Gerais”; Minas a favor do Brasil”. O candidato que fosse contra o Brasil seria tão mal visto quanto alguém que confessasse ser contra a Seleção Brasileira de Futebol.

A repetição tem por fim executar a lavagem cerebral. Entre os cinco itens mais badalados estão segurança, moradia, educação, emprego e saúde, que é a campeã. Não é para menos que dezenas de slogans a tenham em sua frase: “Saúde em primeiro lugar”; “Bom para a saúde”; “Compromisso com a saúde”; “Pra saúde seguir em frente”. Mas o que quer dizer isso? Nunca vi saúde seguindo para trás. Deve ser um novo conceito. Outros largam a saúde e vão pela vida: “Compromisso pela vida”. O bem e o mal também flutuam entre as frases: “Fazendo o bem”; “Saber fazer bem”. Não creio que algum publicitário experiente ou aprendiz ousaria contradizer esses dizeres do senso-comum.

“Tudo pela educação”, concretizando-se a intenção, toda a estrutura eleitoral se modificaria. Voto não obrigatório leva mais gente letrada às urnas ou o contrário? Há as pesquisas e confio nelas, mas, sabendo de décadas, que a tendência inicial das urnas não costuma mudar, ainda assim é bom contar os votos antes de estourar os rojões.

Dentre as pretensões deslavadas, para não dizer puro esnobismo está a frase: “Esse faz a diferença”. Caso ganhe, fará a diferença sim, mas para si próprio. Entre os 135 milhões de eleitores, considerar-se único é ser megalomaníaco. Mas, imaginemos um candidato a Presidente da República sincero, que queira de fato ser presidente, mas não se considera grande coisa, acreditando que muitos outros estão ao seu nível ou acima dele. Como seriam os discursos dessa campanha?

Após militar na política por 25 anos, convicta das questões ideológicas, fazendo currículo de candidatos, discursos, cartilhas, textos, slogans, símbolos, letras de jingle, pescando votos em todos os bairros, desfraldando bandeiras, vestindo camisetas, fazendo arrastões, e usando argumentações conforme a platéia, o trabalho foi suspenso há cinco anos. Por fim e gratuitamente ofereço duas conclusões: para cada dez votos prometidos sob juramento, contabilize um. E embora os políticos gozem de péssima fama entre os brasileiros afirmo: mais falsos do que os políticos, só mesmo os eleitores. Afirmo e dou fé.

*Médica, jornalista e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”.



Rapadura

* Por Marco Albertim

Biu foi preso com uma rapadura e uma jaca mole. Conseguiu manter a rapadura no bolso, mas a jaca pequena escapou de uma das mãos; no chão, foi pisada por um dos polícias, por ele próprio e por gente curiosa. Por um nada, duas pingas que bebera num boteco de madeira; quando foi pagar, mostrou uma nota de vinte reais. A dona, uma velha com seis dentes, quatro em baixo e dois na gengiva superior sustendo o cachimbo, quis ficar com o dinheiro.
- Dou o troco depois.
- Depois eu passo aqui pra pagar.

A velha chamou a polícia, contou a seu modo o caso. Os polícias, dois, também useiros dos copos do boteco, deram ouvidos à velha; prenderam o estranho Biu. No meio da feira, no oitão da Igreja da Misericórdia, onde Biu levara Maria, sua mulher, para balbuciar rezas. Ela e o filho de oito anos, Coquinha, a quem daria a rapadura e a jaca. Sexta-feira aziaga, véspera do sábado gordo. As pingas que ele bebera, tão legítimas quanto o direito de celebrar uma festa pagã.

Deitado na tarimba, à noite, recusara-se a ver o resto do dia com o rosto nas grades de ferro da janela. Os presos, uns cumprindo pena, outros esperando sentença, não tinham mais pejo de mostrar os rostos no janelão de frente. Olhando para a rua, criam-se figurantes do ir e vir de feirantes, matutos com chapéu de feltro na cabeça, mulheres encobertas em vestidos chinfrins, moleques seminus, a pele cinzenta dos banhos na água barrenta do rio Goyaninha. Biu viera de um sítio longe, coisa de duas léguas de Goyaninha. Conhecia as ruas, e menos que os outros, sorvia o cheiro do canavial da usina, tão comum ao olfato apurado dos presos antigos. Encolhido junto à parede, não sentia remorsos; inquiria-se, inquiria o mundo por sabê-lo tão grande e não haver lugar para ele, Maria e Coquinha. Sina de sitiante... O sítio, ocupava-o de favor a outra família, de Seu Canuto, no cultivo de inhame, macaxeira e uns poucos leirões de feijão. Seu Canuto mudara para Camocim de São Félix, onde um filho recolhera ao seminário. Queria ser padre, o filho. Seu Canuto amealhara, mas gastara para comprar o enxoval do seminarista.

Coquinha tem pai, mãe... E uma rapadura àquela altura celebrada nos sonhos, na rede de punhos amarrados nos caibros do telhado. A cachaça nenhum efeito fizera nos urdumes de Biu. A fria tarimba, a morrinha dos presos desasseados, as paredes de um lado e de outro, emboloradas, enfiaram-no num poço escuro. Aqui e ali, o zumbido de um preso no enredo de se supor nas ruas. Creu-se, Biu, no direito de não se supor nas ruas, visto não ser dali. Coquinha tem sede antes de se deitar, não terá o naco da rapadura para entreter os dentes, o paladar desinquieto.

O sábado gordo deu conta de um bulício nervoso nas ruas da feira. Os presos se revezando no desfrute da desordem ali, distante.
- Não gosta de carnaval? – quis saber de Biu um preso.

Ele comera um pedaço da rapadura, cevara os músculos, inda que com o juízo mortificado. Levantou-se. No primeiro lance dos olhos, viu o advogado do sindicato comprando mangas com a esposa. Chamou-o; o inusual psiu foi ouvido, visto. O advogado subiu os degraus da calçada.
- O que foi que você fez para estar preso!?

Tão vernáculo quanto o pregão da venda do inhame, Biziu resumiu as últimas vinte e quatro horas de sua vida.
- Não posso! – disse o comissário ao advogado. – Só quando o delegado chegar.

O advogado mostrou-lhe o jornal do dia, com a foto do governador bebendo numa festa.
- Ele pode, num é dotô...?
- Quando o delegado chega?
- Quarta-feira de cinzas.

O advogado saiu, entrou no carro. Em meia hora, estava de volta com a mulher e o filho de Biu.
- Esta família não pode ficar sem este homem.
Maria e Coquinha, na porta da carceragem, não tinham perplexidade nos olhos.

Mas Coquinha:
-Pai! A rapadula?

* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.



Lugar nenhum


* Por Sayonara Lino

Caminho contra o tempo
Me agarro ao que ainda tenho
Procuro silenciar
Tento não olhar para trás
Ruídos me consomem
Apurei o olhar e quase não ouço
Converso muito e falo pouco
Concordo externamente
Sou, estou
Posso, mas não quero
Vejo, mas não noto
Minha mente está longe
Pertenço a lugar nenhum

* Jornalista, com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora e atualmente finaliza nova especialização em Televisão, Cinema e Mídias Digitais, pela mesma instituição. Colunista do portal www.ubaweb.com/revista



Ondas nos pélagos

* Por João Alexandre Sartorelli


Ondas nos pélagos
Ou esse é menos
Que um antigo costume.

Uma bula que leio
Enquanto entro em detalhes.
Salão de tango em subúrbio,
Donas de casa nos bares.


* Analista de Sistemas por profissão e poeta por vocação

A última pantera

* Por Clóvis Campêlo

És a última pantera
a me assustar a memória,
o fim de longa história,
a derradeira quimera.

Temo o teu olhar escuro,
tuas garras afiadas,
e imagino-te sentada
a me esperar no futuro.

A ti não peço clemência,
sei que nada adiantaria,
quando vir a sonolência.

Peço-te apenas, no dia
da tua interveniência,
que seja breve a agonia.

• Poeta, jornalista e radialista do Recife/PE