sábado, 2 de janeiro de 2010


Leia nesta edição:

Editorial – As vinhas da ira

Coluna Direto do Arquivo – Ruth Barros, crônica “Nem foca escapa da praga”.

Coluna Clássicos – Ernest Hemmingway, conto “Gato na chuva”.

Coluna Porta Aberta – Luís Augusto Cassas, poema, “Mar deprimido”

Coluna Porta Aberta – Yeda Prates Bernis, poema, “Espelho”

Coluna Porta Aberta – Suzana Vargas, poema, “Ortopédica”

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


As vinhas da ira

Caríssimo leitor, boa tarde.
Há livros que, mesmo sendo de ficção, causam muito mais impacto do que milhares de reportagens sobre determinado tema, principalmente se escritos com alma e verdade e por escritores que realmente conheçam o ofício. Refletem, em cada linha, muito melhor a realidade do que matérias bem-apuradas e bem-escritas (e já nem me refiro àquelas “mambembes”, sonolentas e chatas, que caracterizam parte da imprensa na atualidade).
E por que isso acontece? Bem, uma das razões é a própria efemeridade do noticiário (e não importa veiculado em qual mídia). Qualquer notícia, por mais impactante que seja, perde a atualidade, horas depois de divulgada, sucedida por outras tantas, fresquinhas, abordando fatos que acabaram de acontecer ou mesmo que ainda estejam em andamento.
Já o livro, quando bem-escrito, permanece vivo por anos, décadas, milênios até. Fica fora dos holofotes da atenção pública por algum tempo, é certo, mas se for bom e verdadeiro, sempre volta à baila e segue gerando efeitos virtualmente sem-fim.
Nenhum jornal da época de Victor Hugo, por exemplo, realçou com tamanho realismo como vivia uma horda de miseráveis em Paris (que não eram poucos, frise-se) do que os romances “Les miserables” e “Notre Dame de Paris”, este último traduzido, para nós, com o título de “O corcunda de Notre Dame”.
Poderia citar centenas de outros exemplos em que o escritor, embora valendo-se da ficção, refletiu com muito maior fidelidade a realidade do seu tempo do que o repórter. E, claro, produziu mais efeitos nos leitores.
Este preâmbulo vem a propósito do livro “As vinhas da ira”, de John Stenibeck, que se transformou – provavelmente à revelia do autor – num dos mais agudos libelos contra as injustiças sociais e contra a exploração do homem pelo homem. Há tanta coisa a dizer a propósito, que por mais objetivo que eu seja, precisarei de uns dois ou três editoriais para abordar o que quero lhes transmitir.
Preliminarmente, é mister que se esclareça que Steinbeck nunca foi político, no sentido de militância. Nunca foi arauto, por sua vez, de qualquer ideologia ou sistema, a despeito de ser acusado de “comunista” por fanáticos imbecis (como se isso fosse algum crime), que o chegaram a colocar na lista dos “malditos”, na triste época do macartismo nos Estados Unidos.
Foi, sobretudo, um escritor. E meticuloso e observador. E que, principalmente, se expressava com rigorosa sinceridade, sem se preocupar com estilo ou pirotecnia verbal e nem se iria melindrar alguém, e quem. Daí ter alcançado tantos corações e mentes, quer em seu país, quer, e principalmente, mundo afora.
“As vinhas da ira”, que o autor achava que não seria um romance “comercial”, ou seja, de fácil aceitação pelo público – tanto que recomendou à editora que o lançou que rodasse baixa tiragem – superou todas as mais otimistas expectativas.
Vendeu milhões de exemplares nos Estados Unidos, antes mesmo de ser transformado em filme que lotou salas de cinema país e mundo afora. Foi traduzido para mais de 60 idiomas e vendido por toda a parte. E em todos os lugares em que chegou, causou o mesmíssimo impacto, a mesma repercussão.
Passadas oito décadas do lançamento, ainda continua sendo republicado por toda a parte e vendendo muito, embora há tempos seu autor não esteja mais vivo para saborear o sucesso. Aliás, em vida, o livro causou-lhe, isso sim, inúmeros dissabores e desgostos.
Tanto que, depois de “As vinhas da ira”, Steinbeck não escreveu mais nada. Desanimou da literatura. Decepcionou-se, sobretudo, com a falta de entendimento dos imbecis preconceituosos, dos fanáticos, dos alienados e dos tantos que se valem do poder do dinheiro (cujas fortunas são incapazes de justificar, boa parte das quais obtida por meios ilícitos e/ou fraudulentos) para explorar, humilhar e destruir semelhantes.
A qualidade literária do romance (apesar da ferocidade do ataque de muitos idiotas, travestidos de críticos) é incontestável. Tanto que, sem que Steinbeck fizesse a mínima força para isso e, ao contrário, até à sua revelia e para a sua surpresa, conquistou os dois maiores prêmios de Literatura que existem: o Pulitzer e o Nobel.
Por enquanto, antes das considerações que farei a propósito, nos próximos dias, recomendo-lhe, atento e fiel leitor, que, caso não tenha lido “As vinhas da ira” ainda, que o leia. Se já leu, faça uma releitura. Dessa forma, ficará mais fácil de entender as considerações que farei na sequência acerca dessa obra monumental, um dos grandes marcos da literatura mundial de todos os tempos.

Por enquanto, boa leitura (do livro de John Steinbeck e do menu que lhe preparei nesta edição).

O Editor.



Nem foca escapa da praga

*Por Ruth Barros

A enchente que inundou Praga há alguns meses e seus monumentos históricos e lindos teve ainda um outro efeito colateral – as focas da cidade aproveitaram que o zoológico também fez água para botar o pé, ou melhor, as nadadeiras na estrada. Detalhe importantíssimo: só fugiram as fêmeas. O macho ficou quietinho no zoológico destruído, provavelmente sentado no sofá esperando a final do campeonato. “Só saio quando a televisão boiar”, deve ter pensado o “foco”.

Essa pequena fábula real moderna, relatada pelas agências internacionais de notícias, fez com que Anabel encarnasse um Esopo rápido e transmutasse a vida da foca para a vida como ela é. Prova que a acomodação não é privilégio do macho brasileiro – o macho tcheco, pelo menos o da foca, também sofre do mesmo mal.

Em fase de conquista, nossos focas brasileiros são imbatíveis. Fazem gracinhas, mostram-se adoravelmente amestrados, usam bem o focinho, dão um show. Com raras e honrosas exceções, o espetáculo tende a acabar quando eles se acham donos e senhores do material. Para que se incomodar, se a foca fêmea, já totalmente dominada, se mostra cordial e amiga, sempre pronta a assegurar o fornecimento de pipoca quentinha e cerveja gelada nos fins de semana na frente da TV?

Para continuar nessa de mundo animal, vou contar o caso de uma moça que, depois de 14 anos de namoro e muitas brigas, a maioria causada pela falta de interesse do foco em se arrancar do sofá, foi chantageada com uma cachorra. O bofe arrumou Minnie, a cachorrinha, a mais perfeita desculpa para que ele não saísse de casa nos fins de semana – ela ficava deprimida sozinha.

A obstinada amiga ainda fez um esforço de reportagem para manter um clima no eterno sofá: - Se eu quisesse viajar, era obrigada a ficar pesquisando hotéis que aceitassem cachorros. Com restaurantes e bares era a mesma coisa. Acabei cansando -, conta ela. Para salgar a terra arrasada, o atual parceiro de Minnie - sim, minha amiga se arrancou em busca de um namorado mais divertido e jogou o antigo não aos cães, mas à cachorra - mandou uma dessas bobagens de Internet a ela, listando as vantagens de ter uma cachorra em vez de mulher em casa. “Quanto mais tarde você chega, mais excitada ela fica em te ver”, dizia entre outras pérolas o elegante torpedo.

Experiência de vida e/ou idade também não livram ninguém de cair no conto do foca amestrado que acaba no sofá. Depois de quase 50 anos de casamento, viúva e dona de razoável pensão, a tia de uma amiga reencontrou a alegria de viver em bailes da terceira idade. Até uma dor eterna no joelho sumiu, levada pelo ritmo da música. Nessa balada ela encontrou um senhor distinto, pé de valsa, que começou a fazer-lhe a corte. Entre pegar na mão respeitosamente e irem morar juntos – na casa dela, é claro – passaram-se rapidíssimos quatro meses.

A família comentou, não achou de bom tom nem a pressa nem a falta de papel passado, mas a vingança do falecido não tardou a vir do além. Com casa, comida e roupa lavada, o novo marido começou a ter enorme preguiça em freqüentar os bailes das noites de sábado, cortados sumariamente da agenda do casal. Aos domingos, lépido e fagueiro depois de uma noite aboletado na frente da televisão, vai encontrar amigos antigos, enquanto ela fica em casa preparando o almoço – ele acha caro e desconfortável encarar fila de restaurante. Ela não consegue simplesmente livrar-se dele, até para não dar o braço a torcer para a família. E a dor do joelho voltou com tudo.

Anabel Serranegra quer encarnar La Fontaine para recontar a fábula do marido-cigarra, aquele que canta incansavelmente enquanto a mulher viaja com as crianças de férias.

Nota: Anabel tem uma coluna chamada O Diário da Perua. Metida a escritora e jornalista - não, ela não é modelo e atriz - tem uma cabeça que funciona como mix do pensamento vivo de Danuza Leão com o Casseta e Planeta. A auto-intitulada perua tem mais 30 e menos de 40 anos - assim como a idala Danuza, ela se recusa ferozmente a revelar a verdadeira idade. Quem sabe em um futuro livro de memórias? Tudo de bom. Anabel tem o mundo como limite - sexo, homens, filhos, televisão, política, celebridades, consumo, viagens, nada escapa à curiosidade dela. Como também gosta muito de se mostrar e mostrar sua coluna, resolveu assumir o convite que foi feito à sua criadora, a jornalista e escritora Ruth Barros, para escrever no Comunique-se.

* Maria Ruth de Moraes e Barros, formada em Jornalismo pela UFMG, começou carreira em Paris, em 1983, como correspondente do Estado de Minas, enquanto estudava Literatura Francesa. De volta ao Brasil trabalhou em São Paulo na Folha, no Estado, TV Globo, TV Bandeirantes e Jornal da Tarde. Foi assessora de imprensa do Teatro Municipal e autora da coluna Diário da Perua, publicada pelo Estado de Minas e pela revista Flash, com o pseudônimo de Anabel Serranegra.




Gato na chuva

Por Ernest Hemmingway

Apenas dois americanos estavam hospedados no hotel. Eles não conheciam nenhuma das pessoas com quem tinham cruzado pelas escadas, no movimento de "entra e sai" do quarto. Estavam hospedados no segundo andar, em um apartamento que ficava de frente para o mar e também de frente para a praça e o monumento de guerra. Havia enormes palmeiras e bancos verdes na praça. Quando o tempo estava bom sempre tinha um pintor com seu cavalete por lá. Os artistas gostavam das formas das palmeiras e das cores brilhantes dos hotéis, de frente para os jardins e para o mar. Italianos vinham de longe para ver o monumento de guerra. Era feito de bronze e reluzia na chuva. Estava chovendo. Gotas de chuva caiam das palmeiras. A água formava poças nos caminhos de cascalho. O mar quebrava em uma extensa linha, na chuva, e deslizava rumo à praia para retornar e quebrar novamente em uma longa linha, repetindo o mesmo movimento. Os carros já tinham deixado a praça, passando pelo monumento de guerra. Do outro lado, um garçom olhava a praça vazia, da porta de uma lanchonete. A mulher americana, de pé, próxima à janela, observava o movimento. Fora do hotel, bem debaixo da janela deles, uma gata estava encolhida debaixo de uma das mesas verdes encharcadas. A gata se enroscava para não molhar.
– Eu vou descer e pegar aquela gatinha - disse a mulher americana.
- Deixa que eu cuido disso - o marido falou da cama.
- Não, pode deixar que eu vou. Pobre gatinha, tentando se proteger da chuva debaixo da mesa. O marido continuou sua leitura, apoiado em dois travesseiros nos pés da cama.
- Não vá se molhar - disse ele. A mulher desceu as escadas e o dono do hotel se levantou para cumprimentá-la quando ela passou por seu escritório. Ele era velho e muito alto.
- Il piove - a mulher falou. Ela gostava do dono do hotel.
- Si, si, Signora, brutto tempo. O tempo está muito ruim.
Ele ficou de pé atrás de sua mesa, no fundo da sala escura. A mulher gostava dele. Apreciava o jeito extremamente sério com que ele recebia qualquer reclamação. Admirava sua dignidade. Gostava do jeito como ele a tratava. Gostava de como ele se sentia honrado em cuidar do hotel. Gostava de seu rosto velho e marcado pelo tempo, e de suas mãos grandes. Enquanto pensava nele, ela abriu a porta e olhou para fora. A chuva estava mais forte. Um homem com uma capa de chuva estava atravessando a praça em direção ao café. A gata deveria estar por perto, à direita. Talvez pudesse ir por debaixo dos telhados. Ainda estava na porta quando um guarda-chuva se abriu atrás dela. Era a camareira do quarto deles.
- A senhora não deve se molhar - ela sorriu, falando italiano. Obviamente tinha sido mandada pelo dono do hotel. A americana andou pelo caminho de cascalho, com a camareira segurando o guarda-chuva para que ela não se molhasse, até que chegou debaixo da janela de seu quarto. A mesa estava lá, com um verde brilhante após ter sido lavada pela chuva, mas o gato tinha sumido. De repente, ela se sentiu desapontada. A camareira olhou para a hóspede.
- Ha perduto qualque cosa, Signora? - O gato - disse a mulher americana.
- Um gato? - Si, il gatto. - Um gato? - a camareira riu.
- Um gato na chuva?
- Sim - ela disse.
- Debaixo da mesa. Eu queria tanto que ela fosse minha. Queria ter uma gatinha.
Quando ela falou em inglês o rosto da camareira se contraiu.
- Venha signora - ela disse.
- Devemos voltar para dentro. A senhora vai acabar se molhando.
- Está bem - disse a garota americana. Elas voltaram pelo caminho de cascalho e entraram pela porta. A camareira ainda ficou do lado de fora para fechar o guarda-chuva. Quando a garota americana passou pelo escritório, o padrone fez um gesto de cortesia, de sua mesa. A garota sentiu como se houvesse algo bem pequeno e apertado dentro de si. O padrone fez com que ela se sentisse insignificante e ao mesmo tempo muito importante. Subiu as escadas. Abriu a porta do quarto. George estava lendo, na cama.
- Conseguiu pegar o gato? - ele perguntou, abaixando o livro.
- Não, sumiu.
- Para onde será que ele foi? - ele perguntou, tirando os olhos do livro. Ela sentou na cama. - Eu queria tanto aquela gatinha. Nem sei porque queria tanto. Queria aquela pobre gatinha. Deve ser horrível ser uma gatinha indefesa nessa chuva. George estava lendo de novo. Ela caminhou e sentou-se na frente do espelho da penteadeira, olhando para si mesma, com um espelho na mão. Estudou seu perfil, primeiro de um lado, depois do outro. Então estudou a parte de trás de sua cabeça e sua nuca.
- Você não acha uma boa idéia deixar meu cabelo crescer? - perguntou, olhando novamente seu perfil. George olhou e viu sua nuca, raspada como a de um garoto.
- Gosto dele como está.
- Estou tão cansada deste cabelo - ela disse. Estou tão cansada de parecer um rapaz. George mudou de posição na cama. Ainda não tinha desviado os olhos dela desde que havia começado a falar.
- Você está bem bonitinha - ele falou. Ela colocou o espelho na penteadeira e foi para a janela e olhou para o lado de fora. Estava escurecendo.
- Quero puxar meu cabelo para trás, bem preso e liso, e fazer um coque bem grande para que eu o sinta. E quero uma gatinha para sentar no meu colo e fazer ronrom quando eu fizer carinho nela.
- É - George disse da cama.
- E eu quero comer em uma mesa com meus próprios talheres e quero velas. E quero que seja primavera, quero escovar meu cabelo na frente de um espelho e quero uma gatinha e roupas novas.
- Ora, cale a boca e vá ler alguma coisa - disse George. Ele estava lendo de novo. Sua esposa estava olhando pela janela. Agora o céu estava bastante escuro e a chuva continuava caindo nas palmeiras.
- De qualquer modo, eu quero um gato - ela disse.
- Eu quero um gato. Quero um gato agora. Se não posso ter cabelos compridos nem uma distração, posso ter um gato sim. George não estava ouvindo. Estava lendo seu livro. Sua mulher olhou pela janela e viu que a luz da praça estava acesa. Alguém bateu na porta.
- Avanti - George disse. Ele levantou os olhos do livro. A camareira estava de pé na porta. Ela segurava um grande gato malhado, apertado fortemente contra seu corpo.
- Com licença - ela disse.
- O padrone mandou trazer isso para a Signora.

Referência:HEMINGWAY, Ernest. Cat in the rain. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 1988, p. 5-15




Mar deprimido

* Por Luiz Augusto Cassas

m
ar de São Luis, constrangido,
que banhas as costas do Atlântico
e as costas e seios das pacíficas,
quem te roubou o azul do paraíso:
os vendedores de cloro das piscinas
ou o céu desbotado do olhar das meninas?

mar de São Luis, humilhado,
saqueado por metralhas e conquistadores
em navios que vazam óleo desde o início,
quem roubou o azul do teu sorriso:
os poetas que te deixaram abandonado
ou os petroleiros que te sujaram o vestido?

mar de São Luís, sucateado,
sobra de outros mares, poluído.
o cinzento de tuas águas
é tua bandeira de mágoas?
é o teu vestido e anágua?

choras por Antonio: o de Cleópatra?
choras por outro: o de Ana Amélia.
mar de São Luís, enrubescido,
derramas lágrimas de crocodilo,
deságuas sujas águas em praias e portos.
enches os tonéis, os lenços, os esgotos.

mar de São Luis, emaranhado
em maranhas de mar amargurados,
quem seqüestrou o teu azul-coral
deixou-te em troca o excesso de sal.
entanto, o verde que antevejo nessa manhã,
só o vislumbro detrás de óculos rayban.

a não ser que eu ponha cloro,
nas lágrimas que, em ti, choro.

* Poeta de São Luís/MA

Espelho

* Por Yeda Prates Bernis


Lençol claríssimo,
estendo a alma
sobre um lago.

Peixes me navegam
nuvens me perpassam
sóis me lucilam.

Encharcada de prata,
sou regaço de pérolas
e berço de quietude.

(Do livro À Beira do Outono, Editora Prahis, 1994).

* Poetisa

Ortopédica

* Por Suzana Vargas

Nada como não ter pés
para valorizar sapatos.

Já sei que não é novo:
o provérbio é mais ou menos
chinês,
e mais ou menos
meu
Descobri caminhando

* Poetisa gaúcha, radicada no Rio de Janeiro, autora de literatura infantil e ensaísta. Tem 16 livros publicados, entre os quais “Sombras chinesas” , “Caderno de Outono” (indicado ao Prêmio Jabuti) e “O amor é vermelho”.