Leia nesta edição:
Editorial – A vida continua
Coluna Contrastes e confrontos – Urariano Mota, crônica, “Para que lado sopra o futuro?”.
Coluna Do real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire – crônica, “Esperança”.
Coluna Mares interiores – Solange Sólon Borges, poema “Tormenta”
Coluna No sopro do Minuano – Rodrigo Ramazzini, conto “O Corcel”.
Coluna Porta Aberta – Silvana Alves, poema “Acordar como estrela”.
Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A vida continua
Caros leitores, boa tarde.
Está bom, a festa acabou!!! Milhões de pessoas lotaram, na noite de ontem, os principais pontos de reunião das grandes metrópoles – como a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (que congregou cerca de dois milhões de brasileiros e turistas estrangeiros), a Avenida Paulista, em São Paulo (que reuniu outros estimados dois milhões), a Esplanada dos Ministérios em Brasília (com a presença de mais meio milhão), e assim por diante – para recepcionar, com euforia, 2010. Alguma novidade? Nenhuma!
Embora tanta gente haja saído às ruas para festejar – e isso em quase todas as partes do mundo – a despeito, repito, dessas multidões, quem pôde festejar, infelizmente, foi uma incipiente minoria de privilegiados. A maioria... Bem, não vou tocar nesse assunto, não pelo menos hoje.
Para uma parcela considerável dos “festeiros”, hoje é dia de ressaca. Muitos estão acordando agora, mal-humorados e azedos, com espírito absolutamente diferente do de ontem, com a boca amarga, cabeça parecendo que vai explodir, gosto de “guarda-chuva” na boca, azia e outras tantas manifestações desagradáveis, conseqüências dos excessos cometidos na véspera.
Para quem festejou o reveillon em casa, as coisas não são muito diferentes. Pior para as mulheres, aquelas que não podem se dar o luxo de ter empregadas, desesperadas com a balbúrdia bem no coração dos seus domínios.
É incrível a quantidade de sujeira, de copos quebrados, de bebidas derramadas nos sofás e tapetes e outras coisas mais que uma simples reunião familiar, posto que festiva, pode deixar! Principalmente quando os convivas exageram na bebida. E nessas ocasiões, raros são os comedidos.
E os marmanjos... bem, estes estão refestelados nas poltronas, babando, à frente da TV mas sem prestar atenção nela, azedos e incomunicáveis. Mexer com eles nesse dia de ressaca é uma temeridade. Êta situação cômoda!
A euforia da véspera dá lugar à calmaria, diria que à melancolia. Onde o foguetório que iluminou o céu, no mundo todo (já imaginaram a quantidade de gases, causadores do efeito-estufa, gerada por esses fogos?!), que encheu o Planeta de estrondos, para o desespero dos animais domésticos (meus nove gatos e meu fiel cãozinho Nick não entenderam nada e estão estressados até agora)? Onde os votos, juras e resoluções da passagem de ano? Bastaram parcas horas para que fossem esquecidos.
O tal espírito de cordialidade e solidariedade, que reinou (ou disseram que reinou) nos dias de festas, já foi para o espaço. Agora é o momento de se voltar à rotina. Quem sempre foi egoísta, egoísta continuará. Quem sempre foi alienado, permanecerá nessa mesmíssima condição. O violento seguirá praticando violência e encontrando (ou pelo menos tentando encontrar) justificativas para o seu mau-bofe. O corrupto continuará lançando mão do que não lhe pertence, subornando e se deixando subornar. E assim por diante. Afinal... a vida continua.
“E o que tudo isso tem a ver com literatura?”, perguntará, irritado, o leitor que curte sua ressaca e mal consegue disfarçar o mau-humor. Respondo: nada e, simultaneamente, tudo. Nada, pelo fato do escritor (o meu caso) não ser o guardião das vida de ninguém. Cada qual paga e recebe na medida do que faz e dá. Mas, paradoxalmente, tem tudo a ver.
Por que? Porque somos os cronistas por excelência do nosso tempo, testemunhas oculares confiáveis de como as pessoas se comportam e se relacionam. Ao mesmo tempo, somos os guardiões das tradições, que transmitimos, em nossos textos, de uma geração a outra. E somos, sobretudo, arautos do futuro, que desejamos, do fundo da alma, que seja melhor do que o presente. Mas não nos limitamos a desejar. Fazemos a nossa parte, atuando como uma espécie de “consciência” da sociedade (como o grilo falante do Pinocchio, por exemplo).
Embora lidemos com sonhos e fantasias, nossa verdadeira matéria-prima é a realidade, nua e crua, raramente sublime, dificilmente elogiável, e quase o tempo todo horrenda e cruel. Mesmo que sejamos antipáticos aos alienados, que não enxergam um só palmo diante do nariz, esse é o nosso papel, o nosso destino e a nossa missão que, certamente, haveremos de cumprir. Enfim... a vida continua...
Boa leitura.
O Editor.
Caros leitores, boa tarde.
Está bom, a festa acabou!!! Milhões de pessoas lotaram, na noite de ontem, os principais pontos de reunião das grandes metrópoles – como a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (que congregou cerca de dois milhões de brasileiros e turistas estrangeiros), a Avenida Paulista, em São Paulo (que reuniu outros estimados dois milhões), a Esplanada dos Ministérios em Brasília (com a presença de mais meio milhão), e assim por diante – para recepcionar, com euforia, 2010. Alguma novidade? Nenhuma!
Embora tanta gente haja saído às ruas para festejar – e isso em quase todas as partes do mundo – a despeito, repito, dessas multidões, quem pôde festejar, infelizmente, foi uma incipiente minoria de privilegiados. A maioria... Bem, não vou tocar nesse assunto, não pelo menos hoje.
Para uma parcela considerável dos “festeiros”, hoje é dia de ressaca. Muitos estão acordando agora, mal-humorados e azedos, com espírito absolutamente diferente do de ontem, com a boca amarga, cabeça parecendo que vai explodir, gosto de “guarda-chuva” na boca, azia e outras tantas manifestações desagradáveis, conseqüências dos excessos cometidos na véspera.
Para quem festejou o reveillon em casa, as coisas não são muito diferentes. Pior para as mulheres, aquelas que não podem se dar o luxo de ter empregadas, desesperadas com a balbúrdia bem no coração dos seus domínios.
É incrível a quantidade de sujeira, de copos quebrados, de bebidas derramadas nos sofás e tapetes e outras coisas mais que uma simples reunião familiar, posto que festiva, pode deixar! Principalmente quando os convivas exageram na bebida. E nessas ocasiões, raros são os comedidos.
E os marmanjos... bem, estes estão refestelados nas poltronas, babando, à frente da TV mas sem prestar atenção nela, azedos e incomunicáveis. Mexer com eles nesse dia de ressaca é uma temeridade. Êta situação cômoda!
A euforia da véspera dá lugar à calmaria, diria que à melancolia. Onde o foguetório que iluminou o céu, no mundo todo (já imaginaram a quantidade de gases, causadores do efeito-estufa, gerada por esses fogos?!), que encheu o Planeta de estrondos, para o desespero dos animais domésticos (meus nove gatos e meu fiel cãozinho Nick não entenderam nada e estão estressados até agora)? Onde os votos, juras e resoluções da passagem de ano? Bastaram parcas horas para que fossem esquecidos.
O tal espírito de cordialidade e solidariedade, que reinou (ou disseram que reinou) nos dias de festas, já foi para o espaço. Agora é o momento de se voltar à rotina. Quem sempre foi egoísta, egoísta continuará. Quem sempre foi alienado, permanecerá nessa mesmíssima condição. O violento seguirá praticando violência e encontrando (ou pelo menos tentando encontrar) justificativas para o seu mau-bofe. O corrupto continuará lançando mão do que não lhe pertence, subornando e se deixando subornar. E assim por diante. Afinal... a vida continua.
“E o que tudo isso tem a ver com literatura?”, perguntará, irritado, o leitor que curte sua ressaca e mal consegue disfarçar o mau-humor. Respondo: nada e, simultaneamente, tudo. Nada, pelo fato do escritor (o meu caso) não ser o guardião das vida de ninguém. Cada qual paga e recebe na medida do que faz e dá. Mas, paradoxalmente, tem tudo a ver.
Por que? Porque somos os cronistas por excelência do nosso tempo, testemunhas oculares confiáveis de como as pessoas se comportam e se relacionam. Ao mesmo tempo, somos os guardiões das tradições, que transmitimos, em nossos textos, de uma geração a outra. E somos, sobretudo, arautos do futuro, que desejamos, do fundo da alma, que seja melhor do que o presente. Mas não nos limitamos a desejar. Fazemos a nossa parte, atuando como uma espécie de “consciência” da sociedade (como o grilo falante do Pinocchio, por exemplo).
Embora lidemos com sonhos e fantasias, nossa verdadeira matéria-prima é a realidade, nua e crua, raramente sublime, dificilmente elogiável, e quase o tempo todo horrenda e cruel. Mesmo que sejamos antipáticos aos alienados, que não enxergam um só palmo diante do nariz, esse é o nosso papel, o nosso destino e a nossa missão que, certamente, haveremos de cumprir. Enfim... a vida continua...
Boa leitura.
O Editor.

Para que lado sopra o futuro?
* Por Urariano Mota
Era bom uma rosa-dos-ventos que nos socorresse agora. Perguntar “para que lado sopra o futuro?” não é fazer uma pergunta vã, abstrata. Ela quer apenas dizer, apenas (entendam a nossa inquietação), qual será mesmo o nosso destino em anos que ainda não vivemos? Ou mesmo: como serão inscritos os nossos futuros dias nos dias de toda a gente?
Houve um tempo em que o socialismo era o destino infalível, uma poderosa força da natureza, o destino último e de redenção de todos os povos. Tão forte era esse destino, e tão determinado e inescapável o seu realizar, que alguns de nós chegamos a pensar que o capitalismo cairia de podre. Outros, mais artísticos, julgávamos que a nova humanidade viria como uma metamorfose natural, da crisálida morta para a borboleta rubra. Esse futuro passou. Houve um tempo em que o futuro era a paz idílica, sentimental, onde todas as feras passeariam ao lado de mansas ovelhas, em concórdia. Esse futuro é passado. Houve um tempo em que o amor era a resposta certa e fraterna a todas vilezas do homem. Mais que uma resposta, o amor era a solução, a insígnia, a bandeira contra todos os canalhas humanos, muito humanos, demasiadamente humanos. Esse futuro é pretérito. Houve um tempo em que a simples visão da flor, da orquídea, da cornucópia de pétalas nos jardins, deixava prenhe o peito de um sentimento bom, de alegria, de felicidade, a ponto de suavizar o semblante, de amolecer os músculos, de fazer úmidos os olhos. Esse futuro é perfeito passado. Houve um tempo em que a fé e a crença nas palavras, no seu poder de fogo, na sarça que ardia como nos dez mandamentos, sintetizados neste impositivo supremo, homem, fala a verdade, só a verdade, nada mais que a verdade, homem, fala, que o céu será teu, o céu e toda a riqueza do mundo, fala. Nesse tempo a palavra e a poesia eram Deus acima de todas as coisas. Corpo e alma onipotentes, supremo do supremo do supremo. (Esse futuro é mais que perfeito passado.) O futuro de coisas extraordinárias, imarcescíveis, murchou. O maravilhoso rascunho, bosquejo de possibilidades elevadas ao sonho, é pretérito. Então, que futuro nos resta? Que impossíveis paraísos são possíveis? Pior, que prováveis infernos o vento sopra?
Os jovens mais sensíveis, os jovens mais sensíveis e angustiados, perguntam-nos: o senhor acha que ainda é possível um golpe de Estado no Brasil? E na América Latina? – Não sei, não sabemos, é o que nos vem. Quem sabe é o vento, dá vontade de responder. Mas só o dizer “não sei” para eles é motivo de espanto. Entendemos a razão. Os jovens confundem cabelos brancos com sabedoria. Talvez nem saibam que os idiotas também amadurecem, nas cãs. Talvez nem percebam que esse pesadelo do golpe nos acompanha todas as noites, como um ente amado de sinal invertido. Pois o que são os pesadelos senão um estimado irmão contra nós? Um inimigo íntimo, indissolúvel? Um jogo de dados onde está inscrito “foste derrotado”, um resultado que buscamos? Esse devir pesado é como um súbito telefonema de uma sobrinha, que de repente nos comunica, “tio, na noite passada sonhei que o senhor acabara de falecer”. E que por isso ligou para ouvir a voz do ex-morto ao telefone, que lhe diz: “até as 9 e 35 desta manhã o seu sonho não é verdade”.
Na altura destas linhas o futuro vem sendo feito, e o pesadelo não veio, não virá, esperamos que pelo menos até o fim do presente. Quem sabe? As possibilidades por vezes se transformam por obra de um estúpido e absurdo acaso, o próprio sopro aleatório do diabo. Quem está imune? Mas não é do raro possível que tratamos. Quando nos perguntamos para que lado sopra o futuro, queremos consultar as cartas, o baralho, a sua predição, em um sistema de racionalidade. Antes que digam que tal pretensão é loucura rematada, esclarecemos, queremos saber a tendência do tempo em curso, queremos investigar o mar subterrâneo que vem crescendo. Rematada loucura mais uma vez, dirão. E dizem mais, os incrédulos: nenhum homem é serpente, que adivinha terremoto com antecedência de 5 dias. Pois lhes respondo, para melhor fortalecimento do diagnóstico da loucura: o homem é mais fino e arguto que as serpentes. A partir mesmo do veneno. Mirem por quê.
A depender do que se deseja no mundo, o futuro é bem conhecido. Por exemplo, um político pragmático, com mandato, não se pergunta bem para que lado sopra o futuro. Ele se diz, gozemos o presente. Agora, carpe diem, porque o amanhã é hoje. Muito melhor dizendo, o futuro será aquilo que ele conseguir arrancar do poder neste momento, em todos os momentos. Ou, em linguagem mais concreta, o futuro é a construção de um patrimônio, agora, agora, agora... Esses pragmáticos do imediato são os mais limitados, e, justiça lhes seja feita, são do gênero vulgar, mesquinho, que se universaliza e está presente, passado e futuro em muitas profissões, homens e atividades. Eles fazem uma horda de predadores. Por onde passam as árvores não deitam mais frutos.
Porém há os mais sensíveis, mais sensíveis que as melhores serpentes. Estes se perguntam qual a tendência, para que melhor se preparem e venham a subir na crista da onda. O futuro para estes – observem a medida do ofídio – varia no intervalo de 4 a 8 anos. Para onde vai o mar, que onda, ala e ola se anuncia ou se forma sob a superfície no horizonte? Que ideias e bandeiras estarão em voga nesse futuro? Eles se perguntam, perscrutam o tempo, e a resposta nem sempre é certa, porque o movimento que se apresenta aos olhos nem sempre mostra o subterrâneo, que virá com força adiante. Então vem a lição. Recordam-se do cardeal Richelieu, que mandou dobrar os sinos ao fim de uma revolta, sem saber a que vitoriosos saudava? Como um aperfeiçoamento de Richelieu, as serpentes que sondam os próximos anos não podem ainda fazer dobrar os sinos. A revolta ainda nem se deu. Mas adotam um comportamento sensato, que jamais falha: eles não radicalizam posições políticas, e melhor, bem melhor, jamais serão sectários. Porque eles sabem que os muito radicais, em qualquer movimento, serão os primeiros destinados ao sacrifício. Radicais lideram, de imediato, mas deles jamais será o dom de governar, que por vezes se confunde com o dom de contemporizar, dialogar com contrários, administrar conflitos. E por isso na zona de bruma prosseguem, a caminhar entre as formas indefinidas, até o dia em que serão uma forma definida, ao fim e enfim.
No entanto nós, maioria sem o talento dos perquiridores no poder, na câmara, no senado, nos próximos quatro, oito anos, desejamos da realidade algo diverso e de menor peso. Bem que gostaríamos de saber se nesse futuro remoto teremos atingido a imortalidade. Perdão. Desejos secretos, absurdos, impossíveis e insensatos não se escrevem. Mencionam-se assim, de passagem. Então sejamos um pouco mais modestos. Assim, queremos apenas saber como o nosso destino será inscrito no destino de toda a humanidade nos próximos 30, 20, 10, 8, 2 anos, vá lá, nos próximos 30 dias, vá, nas vizinhas 48 horas, está bem, nos próximas 24, e basta, porque de pouco desejar a pouco desejar, nesse passo e progressão nem chegaremos a terminar esta frase. Já que a concluímos, podemos adicionar: se o futuro que se quis se faz no presente, se o futuro imediato se faz ao fim deste presente fugaz, então o mais longe, que bem desejamos, não será feito sem a intervenção da nossa vontade. Vontade ativa, que vai além do perguntar à rosa-dos-ventos para que lado o futuro sopra.
Nós já estamos na humanidade. Iremos para onde ela for. Para nossa desgraça ou felicidade, nem tão rápido, nem tão prematuro. Quem sabe, talvez com aquele sentimento que ainda se perturba com o perfume do jasmim.
* Jornalista e escritor
* Por Urariano Mota
Era bom uma rosa-dos-ventos que nos socorresse agora. Perguntar “para que lado sopra o futuro?” não é fazer uma pergunta vã, abstrata. Ela quer apenas dizer, apenas (entendam a nossa inquietação), qual será mesmo o nosso destino em anos que ainda não vivemos? Ou mesmo: como serão inscritos os nossos futuros dias nos dias de toda a gente?
Houve um tempo em que o socialismo era o destino infalível, uma poderosa força da natureza, o destino último e de redenção de todos os povos. Tão forte era esse destino, e tão determinado e inescapável o seu realizar, que alguns de nós chegamos a pensar que o capitalismo cairia de podre. Outros, mais artísticos, julgávamos que a nova humanidade viria como uma metamorfose natural, da crisálida morta para a borboleta rubra. Esse futuro passou. Houve um tempo em que o futuro era a paz idílica, sentimental, onde todas as feras passeariam ao lado de mansas ovelhas, em concórdia. Esse futuro é passado. Houve um tempo em que o amor era a resposta certa e fraterna a todas vilezas do homem. Mais que uma resposta, o amor era a solução, a insígnia, a bandeira contra todos os canalhas humanos, muito humanos, demasiadamente humanos. Esse futuro é pretérito. Houve um tempo em que a simples visão da flor, da orquídea, da cornucópia de pétalas nos jardins, deixava prenhe o peito de um sentimento bom, de alegria, de felicidade, a ponto de suavizar o semblante, de amolecer os músculos, de fazer úmidos os olhos. Esse futuro é perfeito passado. Houve um tempo em que a fé e a crença nas palavras, no seu poder de fogo, na sarça que ardia como nos dez mandamentos, sintetizados neste impositivo supremo, homem, fala a verdade, só a verdade, nada mais que a verdade, homem, fala, que o céu será teu, o céu e toda a riqueza do mundo, fala. Nesse tempo a palavra e a poesia eram Deus acima de todas as coisas. Corpo e alma onipotentes, supremo do supremo do supremo. (Esse futuro é mais que perfeito passado.) O futuro de coisas extraordinárias, imarcescíveis, murchou. O maravilhoso rascunho, bosquejo de possibilidades elevadas ao sonho, é pretérito. Então, que futuro nos resta? Que impossíveis paraísos são possíveis? Pior, que prováveis infernos o vento sopra?
Os jovens mais sensíveis, os jovens mais sensíveis e angustiados, perguntam-nos: o senhor acha que ainda é possível um golpe de Estado no Brasil? E na América Latina? – Não sei, não sabemos, é o que nos vem. Quem sabe é o vento, dá vontade de responder. Mas só o dizer “não sei” para eles é motivo de espanto. Entendemos a razão. Os jovens confundem cabelos brancos com sabedoria. Talvez nem saibam que os idiotas também amadurecem, nas cãs. Talvez nem percebam que esse pesadelo do golpe nos acompanha todas as noites, como um ente amado de sinal invertido. Pois o que são os pesadelos senão um estimado irmão contra nós? Um inimigo íntimo, indissolúvel? Um jogo de dados onde está inscrito “foste derrotado”, um resultado que buscamos? Esse devir pesado é como um súbito telefonema de uma sobrinha, que de repente nos comunica, “tio, na noite passada sonhei que o senhor acabara de falecer”. E que por isso ligou para ouvir a voz do ex-morto ao telefone, que lhe diz: “até as 9 e 35 desta manhã o seu sonho não é verdade”.
Na altura destas linhas o futuro vem sendo feito, e o pesadelo não veio, não virá, esperamos que pelo menos até o fim do presente. Quem sabe? As possibilidades por vezes se transformam por obra de um estúpido e absurdo acaso, o próprio sopro aleatório do diabo. Quem está imune? Mas não é do raro possível que tratamos. Quando nos perguntamos para que lado sopra o futuro, queremos consultar as cartas, o baralho, a sua predição, em um sistema de racionalidade. Antes que digam que tal pretensão é loucura rematada, esclarecemos, queremos saber a tendência do tempo em curso, queremos investigar o mar subterrâneo que vem crescendo. Rematada loucura mais uma vez, dirão. E dizem mais, os incrédulos: nenhum homem é serpente, que adivinha terremoto com antecedência de 5 dias. Pois lhes respondo, para melhor fortalecimento do diagnóstico da loucura: o homem é mais fino e arguto que as serpentes. A partir mesmo do veneno. Mirem por quê.
A depender do que se deseja no mundo, o futuro é bem conhecido. Por exemplo, um político pragmático, com mandato, não se pergunta bem para que lado sopra o futuro. Ele se diz, gozemos o presente. Agora, carpe diem, porque o amanhã é hoje. Muito melhor dizendo, o futuro será aquilo que ele conseguir arrancar do poder neste momento, em todos os momentos. Ou, em linguagem mais concreta, o futuro é a construção de um patrimônio, agora, agora, agora... Esses pragmáticos do imediato são os mais limitados, e, justiça lhes seja feita, são do gênero vulgar, mesquinho, que se universaliza e está presente, passado e futuro em muitas profissões, homens e atividades. Eles fazem uma horda de predadores. Por onde passam as árvores não deitam mais frutos.
Porém há os mais sensíveis, mais sensíveis que as melhores serpentes. Estes se perguntam qual a tendência, para que melhor se preparem e venham a subir na crista da onda. O futuro para estes – observem a medida do ofídio – varia no intervalo de 4 a 8 anos. Para onde vai o mar, que onda, ala e ola se anuncia ou se forma sob a superfície no horizonte? Que ideias e bandeiras estarão em voga nesse futuro? Eles se perguntam, perscrutam o tempo, e a resposta nem sempre é certa, porque o movimento que se apresenta aos olhos nem sempre mostra o subterrâneo, que virá com força adiante. Então vem a lição. Recordam-se do cardeal Richelieu, que mandou dobrar os sinos ao fim de uma revolta, sem saber a que vitoriosos saudava? Como um aperfeiçoamento de Richelieu, as serpentes que sondam os próximos anos não podem ainda fazer dobrar os sinos. A revolta ainda nem se deu. Mas adotam um comportamento sensato, que jamais falha: eles não radicalizam posições políticas, e melhor, bem melhor, jamais serão sectários. Porque eles sabem que os muito radicais, em qualquer movimento, serão os primeiros destinados ao sacrifício. Radicais lideram, de imediato, mas deles jamais será o dom de governar, que por vezes se confunde com o dom de contemporizar, dialogar com contrários, administrar conflitos. E por isso na zona de bruma prosseguem, a caminhar entre as formas indefinidas, até o dia em que serão uma forma definida, ao fim e enfim.
No entanto nós, maioria sem o talento dos perquiridores no poder, na câmara, no senado, nos próximos quatro, oito anos, desejamos da realidade algo diverso e de menor peso. Bem que gostaríamos de saber se nesse futuro remoto teremos atingido a imortalidade. Perdão. Desejos secretos, absurdos, impossíveis e insensatos não se escrevem. Mencionam-se assim, de passagem. Então sejamos um pouco mais modestos. Assim, queremos apenas saber como o nosso destino será inscrito no destino de toda a humanidade nos próximos 30, 20, 10, 8, 2 anos, vá lá, nos próximos 30 dias, vá, nas vizinhas 48 horas, está bem, nos próximas 24, e basta, porque de pouco desejar a pouco desejar, nesse passo e progressão nem chegaremos a terminar esta frase. Já que a concluímos, podemos adicionar: se o futuro que se quis se faz no presente, se o futuro imediato se faz ao fim deste presente fugaz, então o mais longe, que bem desejamos, não será feito sem a intervenção da nossa vontade. Vontade ativa, que vai além do perguntar à rosa-dos-ventos para que lado o futuro sopra.
Nós já estamos na humanidade. Iremos para onde ela for. Para nossa desgraça ou felicidade, nem tão rápido, nem tão prematuro. Quem sabe, talvez com aquele sentimento que ainda se perturba com o perfume do jasmim.
* Jornalista e escritor


Esperança
* Por Eduardo Oliveira Freire
Eu pensava que sempre quando o ser humano era posto contra a parede ele revelava o verdadeiro temperamento. Nos casos de desastres ambientais, ou nas guerras, imaginava que o instinto de sobrevivência rompia com as regras socais, tornando o homem numa besta capaz de fazer atrocidades para sobreviver ou manter sua hegemonia.
Porém, percebi que tinha me enganado. Existem tantas pessoas que ajudam desconhecidos em situação de alto risco, como uma enchente. Transeuntes se unem para salvar um desconhecido preso no carro e quase morrendo afogado.
O afeto vem muito antes do mundo humano. Os animais podem trucidar os rivais de território, mas possuem estima em relação aos companheiros. A solidariedade vem do primitivo também e não só o impulso violento de hegemonia.
Por isso, por que só pensar que o mundo está fadado à destruição? Há esperança sim, que se origina, principalmente, no lado bom que cada ser vivo tem dentro de si.
* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor.
* Por Eduardo Oliveira Freire
Eu pensava que sempre quando o ser humano era posto contra a parede ele revelava o verdadeiro temperamento. Nos casos de desastres ambientais, ou nas guerras, imaginava que o instinto de sobrevivência rompia com as regras socais, tornando o homem numa besta capaz de fazer atrocidades para sobreviver ou manter sua hegemonia.
Porém, percebi que tinha me enganado. Existem tantas pessoas que ajudam desconhecidos em situação de alto risco, como uma enchente. Transeuntes se unem para salvar um desconhecido preso no carro e quase morrendo afogado.
O afeto vem muito antes do mundo humano. Os animais podem trucidar os rivais de território, mas possuem estima em relação aos companheiros. A solidariedade vem do primitivo também e não só o impulso violento de hegemonia.
Por isso, por que só pensar que o mundo está fadado à destruição? Há esperança sim, que se origina, principalmente, no lado bom que cada ser vivo tem dentro de si.
* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor.


Tormenta
* Por Solange Sólon Borges
Ninguém crê que tudo se incendeia habilmente, depois de sermos batidos pelo temporal. Há a necessária compensação de forças entre os amores – luxúria, urgências, cobiça e fé – corpos desnudos com seus desejos encarcerados para que as muralhas cedam, afinal.
E eles querem partir, eles querem partir dos corpos celestes mas não podem: há o homem e há a fera.
Chegam os ferreiros batendo estacas sobre o peito: miasmas inundam os dias. O coração se reveste em pátina. O amor é premente e peço as sementes: eles comem os figos. Encontro vestígios de magma em minha pele bárbara.
São os pormenores da tormenta: sua face se dissolve na lembrança e peço uma foto como se pedisse qualquer rosto ou mesmo a alma. A ausência ressuscita Pã em meio ao pânico.
Mostrou-me o tango de suas pernas bailando entre as minhas no momento da submersão.
Tenho cios crônicos. Ata-me onde encontrar a fera e imagine a minha total fragilidade em seu retorno.
* Jornalista, dedica-se a diversos gêneros literários. Entre outras atividades, atua em alguns programas “O prefácio”, sobre livros e literatura. Um deles é o programa Comunique-se, levado ao ar pela TV interativa ALL TV (2003/2004). Apresentou, também, “Paisagem Feminina”, pela Rádio Gazeta AM (1999), além de crônicas diárias na Rádio Bandeirantes e na Rádio Gazeta — emissoras das quais foi redatora, repórter, locutora e editora.
* Por Solange Sólon Borges
Ninguém crê que tudo se incendeia habilmente, depois de sermos batidos pelo temporal. Há a necessária compensação de forças entre os amores – luxúria, urgências, cobiça e fé – corpos desnudos com seus desejos encarcerados para que as muralhas cedam, afinal.
E eles querem partir, eles querem partir dos corpos celestes mas não podem: há o homem e há a fera.
Chegam os ferreiros batendo estacas sobre o peito: miasmas inundam os dias. O coração se reveste em pátina. O amor é premente e peço as sementes: eles comem os figos. Encontro vestígios de magma em minha pele bárbara.
São os pormenores da tormenta: sua face se dissolve na lembrança e peço uma foto como se pedisse qualquer rosto ou mesmo a alma. A ausência ressuscita Pã em meio ao pânico.
Mostrou-me o tango de suas pernas bailando entre as minhas no momento da submersão.
Tenho cios crônicos. Ata-me onde encontrar a fera e imagine a minha total fragilidade em seu retorno.
* Jornalista, dedica-se a diversos gêneros literários. Entre outras atividades, atua em alguns programas “O prefácio”, sobre livros e literatura. Um deles é o programa Comunique-se, levado ao ar pela TV interativa ALL TV (2003/2004). Apresentou, também, “Paisagem Feminina”, pela Rádio Gazeta AM (1999), além de crônicas diárias na Rádio Bandeirantes e na Rádio Gazeta — emissoras das quais foi redatora, repórter, locutora e editora.


O Corcel
* Por Rodrigo Ramazzini
Quando a esposa lhe avisou que iria a um passeio com outras mães da comunidade, e questionou se ele poderia deixá-la às 15h, na sede cultural para pegar o ônibus, o Bigode, tranqüilo, como era de sua personalidade, acenou afirmativamente com a cabeça e, decidido, respondeu:
– Tá! Vou aproveitar então, já que é no caminho, para assistir ao jogo do meu time no Bar do Teco, e depois vou olhar a “pelada” do pessoal do trabalho lá no Clube Esportivo.
O Bigode era um cara família. Aliás, os amigos viviam dizendo que ele tinha cara de “paizão”. Efetivamente, tinha dois filhos. Chamava-se, batizadamente, de Jorge Augusto, mas ninguém o conhecia pelo nome. O apelido viera do tempo de adolescente, assim como, o discreto bigode que dera a sua origem. Era casado com a Magda há vinte e três anos. Sua rotina resumia-se ao trabalho, à família e a suas duas paixões, o futebol e o seu carro. Se é que podemos chamar aquele Corcel II, ano 81, de carro. Era uma lata velha que, segundo o Bigode, seria reformado quando ele se aposentasse. O Corcel, de cor branca e ferrugem, fora carinhosamente cognominado de “Zorro”.
No horário desejado pela esposa, o Bigode, pontual como sempre, apesar do estado do “Zorro”, a largou em frente à sede cultural, e rumou para o Bar do Teco. Como já estava virando rotina, assistiu novamente o seu time decepcionar. Dessa vez, perdeu a partida por 3 a 2. Saiu do Bar do Teco, ingressou no Corcel, e pensou “duas vezes” se iria mesmo ou não ao Clube olhar a “pelada” do pessoal do trabalho. Sabia que lá, os amigos torcedores do time rival o gozariam o tempo inteiro. Como semelhante situação não seria a primeira, e nem a última vez que ocorreria, resolveu ir.
Assistiu a “pelada”, comeu um churrasco, tomou algumas cervejas e quando o relógio marcou 22h30, ele decidiu ir embora, apesar da insistência do pessoal para que ficasse um pouco mais.
Voltava para casa tranqüilamente no Corcel, pois o Clube Esportivo não ficava muito longe da sua casa, quando o “Zorro” deu duas “engasgadas”, soltou uma fumaça preta pelo cano de descarga e apagou. Por sorte, Bigode ainda conseguiu estacioná-lo em um lugar “seguro”. Antes de descer do carro, ainda tentou por duas vezes ligá-lo novamente, mas sem sucesso. Saindo do Corcel, foi quando realmente percebeu onde estava estacionado. Parara em frente a um Centro Noturno de Lazer Masculino, ou melhor, um cabaré mesmo. Era um cabaré desses de beira de estrada, com lâmpadas laranjas e azuis em sua frente, “anunciando” o Centro Noturno. Bigode olhou para o estabelecimento e um homem alto e forte espiava-o na porta. Clamou um – Meu Deus! E foi abrir o enferrujado capô do Corcel.
Dentre os seus conhecimentos de mecânica de automóveis, averiguou todos os itens que poderiam ser a causa daquele “apagão”. Não encontrou o defeito. Resolveu, então, ligar e por sorte havia levado o telefone celular, pedindo socorro para o pessoal do trabalho que ainda permanecia no clube. Quando falou que estava em frente ao Cabaré Prazer Total, ouviu-se “ao fundo” da ligação uma efusiva vibração.
Enquanto aguardava a chegada dos “socorristas”, algumas “profissionais” do cabaré saíram para a rua e começaram a conversar com o Bigode. A turma do pessoal do trabalho não demorou a chegar. Vieram em três carros, todos com cinco ocupantes. Com isso, a “muvuca” em frente ao cabaré estava montada.
Resolveram, após algumas análises, empurrar o Corcel, para ver se ele pegava no “tranco”. Quando começaram a empurrar o “Zorro”, eis que passa o ônibus com a esposa do Bigode, voltando do tal passeio com as outras mães da comunidade.
Foi aquela gritaria dentro do ônibus. O motorista não teve escolha: parou. Todas as mulheres, lideradas pela esposa do Bigode, desceram. Foi aquela confusão!
Ele não teve tempo de se defender. Quando iniciou a fala, “amor, eu posso explicar...”, o Bigode tomou uma “bolsada” no ombro, e os xingamentos começaram. Ser chamado de “cachorro” foi o mais leve que ouviu. Escutou tudo quieto. Tentou argumentar duas ou três vezes, mas a esposa não deixou. E assistido pelo pessoal da “pelada”, as mulheres da comunidade e pelas “profissionais”, ouviu a esposa, enfaticamente, pedir, “quero o divórcio!”, virar as costas e caminhar em direção ao ônibus.
O Morcego, velho amigo do Bigode, tentando ajudar, “saltou”, e parando-a, assumiu a culpa, dizendo que a idéia por eles estarem naquele local fora dele. Que o Bigode não tinha nada a ver com isso, que ele nem queria ir, fora por insistência. Foi pior. Assim, apenas confirmou que a ida do Bigode ao cabaré era opção.
O corpo inteiro do Bigode tremia. Nervoso, não acreditava no que estava acontecendo. Os amigos tentavam consolá-lo. Terminado o “show”, a esposa e as outras mulheres da comunidade embarcaram novamente no ônibus. Foi quando que, sendo solidária, uma das “profissionais” trouxe um copo de água com açúcar para o Bigode, no intuito de acalmá-lo. Passou-lhe a mão no rosto e lhe entregou o copo. A esposa do Bigode, vendo a cena, e com o ônibus já começando a entrar em movimento, enciumada, gritou:
– Não acredito. Pára!
E esquecendo-se das cenas anteriores, proferiu:
– O que aquela vagabunda está pensando. Do Bigode só eu cuido!
O ônibus parou e a confusão recomeçou.
* Jornalista e cronista
* Por Rodrigo Ramazzini
Quando a esposa lhe avisou que iria a um passeio com outras mães da comunidade, e questionou se ele poderia deixá-la às 15h, na sede cultural para pegar o ônibus, o Bigode, tranqüilo, como era de sua personalidade, acenou afirmativamente com a cabeça e, decidido, respondeu:
– Tá! Vou aproveitar então, já que é no caminho, para assistir ao jogo do meu time no Bar do Teco, e depois vou olhar a “pelada” do pessoal do trabalho lá no Clube Esportivo.
O Bigode era um cara família. Aliás, os amigos viviam dizendo que ele tinha cara de “paizão”. Efetivamente, tinha dois filhos. Chamava-se, batizadamente, de Jorge Augusto, mas ninguém o conhecia pelo nome. O apelido viera do tempo de adolescente, assim como, o discreto bigode que dera a sua origem. Era casado com a Magda há vinte e três anos. Sua rotina resumia-se ao trabalho, à família e a suas duas paixões, o futebol e o seu carro. Se é que podemos chamar aquele Corcel II, ano 81, de carro. Era uma lata velha que, segundo o Bigode, seria reformado quando ele se aposentasse. O Corcel, de cor branca e ferrugem, fora carinhosamente cognominado de “Zorro”.
No horário desejado pela esposa, o Bigode, pontual como sempre, apesar do estado do “Zorro”, a largou em frente à sede cultural, e rumou para o Bar do Teco. Como já estava virando rotina, assistiu novamente o seu time decepcionar. Dessa vez, perdeu a partida por 3 a 2. Saiu do Bar do Teco, ingressou no Corcel, e pensou “duas vezes” se iria mesmo ou não ao Clube olhar a “pelada” do pessoal do trabalho. Sabia que lá, os amigos torcedores do time rival o gozariam o tempo inteiro. Como semelhante situação não seria a primeira, e nem a última vez que ocorreria, resolveu ir.
Assistiu a “pelada”, comeu um churrasco, tomou algumas cervejas e quando o relógio marcou 22h30, ele decidiu ir embora, apesar da insistência do pessoal para que ficasse um pouco mais.
Voltava para casa tranqüilamente no Corcel, pois o Clube Esportivo não ficava muito longe da sua casa, quando o “Zorro” deu duas “engasgadas”, soltou uma fumaça preta pelo cano de descarga e apagou. Por sorte, Bigode ainda conseguiu estacioná-lo em um lugar “seguro”. Antes de descer do carro, ainda tentou por duas vezes ligá-lo novamente, mas sem sucesso. Saindo do Corcel, foi quando realmente percebeu onde estava estacionado. Parara em frente a um Centro Noturno de Lazer Masculino, ou melhor, um cabaré mesmo. Era um cabaré desses de beira de estrada, com lâmpadas laranjas e azuis em sua frente, “anunciando” o Centro Noturno. Bigode olhou para o estabelecimento e um homem alto e forte espiava-o na porta. Clamou um – Meu Deus! E foi abrir o enferrujado capô do Corcel.
Dentre os seus conhecimentos de mecânica de automóveis, averiguou todos os itens que poderiam ser a causa daquele “apagão”. Não encontrou o defeito. Resolveu, então, ligar e por sorte havia levado o telefone celular, pedindo socorro para o pessoal do trabalho que ainda permanecia no clube. Quando falou que estava em frente ao Cabaré Prazer Total, ouviu-se “ao fundo” da ligação uma efusiva vibração.
Enquanto aguardava a chegada dos “socorristas”, algumas “profissionais” do cabaré saíram para a rua e começaram a conversar com o Bigode. A turma do pessoal do trabalho não demorou a chegar. Vieram em três carros, todos com cinco ocupantes. Com isso, a “muvuca” em frente ao cabaré estava montada.
Resolveram, após algumas análises, empurrar o Corcel, para ver se ele pegava no “tranco”. Quando começaram a empurrar o “Zorro”, eis que passa o ônibus com a esposa do Bigode, voltando do tal passeio com as outras mães da comunidade.
Foi aquela gritaria dentro do ônibus. O motorista não teve escolha: parou. Todas as mulheres, lideradas pela esposa do Bigode, desceram. Foi aquela confusão!
Ele não teve tempo de se defender. Quando iniciou a fala, “amor, eu posso explicar...”, o Bigode tomou uma “bolsada” no ombro, e os xingamentos começaram. Ser chamado de “cachorro” foi o mais leve que ouviu. Escutou tudo quieto. Tentou argumentar duas ou três vezes, mas a esposa não deixou. E assistido pelo pessoal da “pelada”, as mulheres da comunidade e pelas “profissionais”, ouviu a esposa, enfaticamente, pedir, “quero o divórcio!”, virar as costas e caminhar em direção ao ônibus.
O Morcego, velho amigo do Bigode, tentando ajudar, “saltou”, e parando-a, assumiu a culpa, dizendo que a idéia por eles estarem naquele local fora dele. Que o Bigode não tinha nada a ver com isso, que ele nem queria ir, fora por insistência. Foi pior. Assim, apenas confirmou que a ida do Bigode ao cabaré era opção.
O corpo inteiro do Bigode tremia. Nervoso, não acreditava no que estava acontecendo. Os amigos tentavam consolá-lo. Terminado o “show”, a esposa e as outras mulheres da comunidade embarcaram novamente no ônibus. Foi quando que, sendo solidária, uma das “profissionais” trouxe um copo de água com açúcar para o Bigode, no intuito de acalmá-lo. Passou-lhe a mão no rosto e lhe entregou o copo. A esposa do Bigode, vendo a cena, e com o ônibus já começando a entrar em movimento, enciumada, gritou:
– Não acredito. Pára!
E esquecendo-se das cenas anteriores, proferiu:
– O que aquela vagabunda está pensando. Do Bigode só eu cuido!
O ônibus parou e a confusão recomeçou.
* Jornalista e cronista


Acordar como estrela
* Por Silvana Alves
Se o problema era a ausência da lágrima,
hoje já não é mais.
Fazia muito tempo que isso não acontecia... muito tempo mesmo.
Nem sabia mais o que era essa coisa de sentir a lágrima escorrendo pela face,
sem saber o motivo,
apenas sentido-a escorrer.
Parecia um oceano,
medo, tremor, dúvidas...
Não sei bem os motivos,
apenas senti que algo
pode acontecer,
uma mudança repentina...
como daquelas que acontecem
e simplesmente deixam-me fora de órbita.
Tive a necessidade de dizer eu te amo, de abraçar e ser abraçada.. e fiz isso...
Nesse mundo enorme, onde mais pessoas me conhecem do que eu as conheço,
senti a falta e a presença apenas de uma.. meu irmão que amo!
depois de chorar, chorar e chorar muito..
adormeci
e acordei
para continuar brilhando feito estrela,
traçando metas,
tornando sonhos em realidade,
e vivendo... intensamente.
.. Bem, na verdade criando mais sonhos para tornarem realidade em 2010..
Nada como chorar muito
tendo como companheira a Fiona
e acordar.... feliz da vida!
* Jornalista formada pela FATEA (Faculdade Integrada Teresa D´Ávila). Duas palavras falam por mim: vida e poesia.
* Por Silvana Alves
Se o problema era a ausência da lágrima,
hoje já não é mais.
Fazia muito tempo que isso não acontecia... muito tempo mesmo.
Nem sabia mais o que era essa coisa de sentir a lágrima escorrendo pela face,
sem saber o motivo,
apenas sentido-a escorrer.
Parecia um oceano,
medo, tremor, dúvidas...
Não sei bem os motivos,
apenas senti que algo
pode acontecer,
uma mudança repentina...
como daquelas que acontecem
e simplesmente deixam-me fora de órbita.
Tive a necessidade de dizer eu te amo, de abraçar e ser abraçada.. e fiz isso...
Nesse mundo enorme, onde mais pessoas me conhecem do que eu as conheço,
senti a falta e a presença apenas de uma.. meu irmão que amo!
depois de chorar, chorar e chorar muito..
adormeci
e acordei
para continuar brilhando feito estrela,
traçando metas,
tornando sonhos em realidade,
e vivendo... intensamente.
.. Bem, na verdade criando mais sonhos para tornarem realidade em 2010..
Nada como chorar muito
tendo como companheira a Fiona
e acordar.... feliz da vida!
* Jornalista formada pela FATEA (Faculdade Integrada Teresa D´Ávila). Duas palavras falam por mim: vida e poesia.
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