Leia nesta edição:
Editorial – À guisa de explicação
Coluna Da vida e outras mumunhas – Marcos Alves, crônica “Problema nosso”.
Coluna Da Terra do Sol – Marco Albertim, crônica “MCP – Universidade Popular”
Coluna Jornalista do Sertão – Seu Pedro, crônica “Sonhar no Sertão”.
Coluna Personalidade e atitude – Sayonara Lino, crônica “Miragem”.
Coluna Porta Aberta – Fernando Yanmar Narciso, crônica “Som na caixa!”.
Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

À guisa de explicação
Caros leitores, boa tarde.
Hoje eu não deveria estar escrevendo estas considerações e sequer editando o Literário. Ontem à tarde, ocorreu o falecimento de uma pessoa muito querida da minha família e não me sinto com a menor condição psicológica ou anímica para fazer o que quer que seja, muito menos para tratar de Literatura.
Todavia, considero este nosso espaço na internet muito mais do que mero blog (embora muitos o encarem, apenas, como isso). E é em respeito aos colunistas, colaboradores e frequentadores do Literário, e a você, sobretudo, paciente e compreensivo leitor que, com lágrimas nos olhos, não o deixo na mão. Aí está mais uma edição nossa.
Peço, de antemão, profundas escusas por eventuais erros ou cochilos. Afinal, ninguém é de ferro. E, claro, também não sou. Dei uma fugida, de alguns minutos, do velório, para colocar os textos de hoje no ar. Pelas circunstâncias mencionadas, esta será, com todas as falhas e enganos que eventualmente vim a cometer, uma edição marcante.
Mas... o que fazer? É a vida! É nesses momentos de angústia e dor que percebo a nossa pequenez e o tamanho da nossa tola vaidade. Somos pó e ao pó retornaremos, nada mais do que isso. Só não sabemos como e quando esse nosso desaparecimento irá ocorrer. É isso o que tenho a dizer! Somos pó... talvez das estrelas...
Boa leitura.
O Editor.
Caros leitores, boa tarde.
Hoje eu não deveria estar escrevendo estas considerações e sequer editando o Literário. Ontem à tarde, ocorreu o falecimento de uma pessoa muito querida da minha família e não me sinto com a menor condição psicológica ou anímica para fazer o que quer que seja, muito menos para tratar de Literatura.
Todavia, considero este nosso espaço na internet muito mais do que mero blog (embora muitos o encarem, apenas, como isso). E é em respeito aos colunistas, colaboradores e frequentadores do Literário, e a você, sobretudo, paciente e compreensivo leitor que, com lágrimas nos olhos, não o deixo na mão. Aí está mais uma edição nossa.
Peço, de antemão, profundas escusas por eventuais erros ou cochilos. Afinal, ninguém é de ferro. E, claro, também não sou. Dei uma fugida, de alguns minutos, do velório, para colocar os textos de hoje no ar. Pelas circunstâncias mencionadas, esta será, com todas as falhas e enganos que eventualmente vim a cometer, uma edição marcante.
Mas... o que fazer? É a vida! É nesses momentos de angústia e dor que percebo a nossa pequenez e o tamanho da nossa tola vaidade. Somos pó e ao pó retornaremos, nada mais do que isso. Só não sabemos como e quando esse nosso desaparecimento irá ocorrer. É isso o que tenho a dizer! Somos pó... talvez das estrelas...
Boa leitura.
O Editor.


Problema nosso
* Por Marcos Alves
Os governos, em todos os níveis no Brasil, têm sempre projetos para tentar afastar a juventude da criminalidade. Há uma infinidade deles, em praticamente todas as grandes cidades, e os mais comuns são os que utilizam o teatro, circo, artes plásticas e outras atividades lúdicas. Os resultados são esparsos, estão longe do que poderíamos chamar de solução.
Para piorar, há as distorções, ainda mais presentes nesse meio que já é, por si, carente de qualquer tipo de recurso. Habituamo-nos a vê-los nos cruzamentos bancando os malabaristas, engolidores de fogo e, quando não há o que apresentar, apenas pedindo esmola.
Não questiono esse tipo de iniciativa, até porque o problema do menor infrator no Brasil é dramático. Não passa um dia sem que eu veja um moleque maltrapilho e descalço circulando por aí. Alguns são simpáticos, conversam, brincam, correm entre os carros. Têm os olhinhos que brilham, olhos de criança.
Não vou bancar o hipócrita, também os evito quando quero. Passo rápido e evito olhar muito para não correr o risco de sentir pena, remorso ou raiva. E quando quero dou uns trocados, troco uma idéia, dou risada com as bobagens que eles, como qualquer criança, fazem.
Prefiro vê-los durante o dia. Quando cai a noite é mais triste, se amontoam debaixo das marquises, em lugares malcheirosos. Brigam entre si por causa de um cigarro ou pedaço qualquer de comida, resto de refrigerante e outras sobras que deixamos na rua.
A pior das sensações é quando eles encontram todas as janelas dos carros fechadas. Ninguém sequer olha na direção dos meninos. Os garotos parecem não se importar muito e no próximo sinal vermelho estão de novo a cumprir aquela humilhante rotina. Enfrentam o olhar enojado dos motoristas sem perder o pique.
Têm, também, os adolescentes de rua. Esses não causam nojo, dão medo. São temidos por causa da força física e também porque, em alguns casos, estão anestesiados. Não sentem p. nenhuma por essa gente que circula apressada pelo centro da cidade. E são perigosos mesmo: matam, roubam, traficam. São a parte mais visível da violência no Brasil.
São esses rapazes, de 16, 17, 20 anos de idade os responsáveis pelo trabalho sujo. Eles é que aparecem nas páginas policiais, ora como assassinos frios, ora como cadáveres. Estão jurados de morte, são procurados pela justiça. São eles os algozes da nossa sociedade que, mais do que nunca, hoje pede "Basta!"
Quem sabe quando exterminarmos esses jovens trogloditas fedidos que nos ameaçam na saída dos bares, na porta dos bancos, na fila do cinema, estaremos finalmente livres e felizes. Será? Parece ser essa a ótica de quem prega a antecipação da maioridade penal, pena de morte e outras mudanças na lei.
Fico aqui pensando, quando essas mudanças chegarem, o que vai acontecer com os deputados ladrões, juízes que vendem sentenças, delegados corruptos, policiais bêbados e outras aberrações desse país. Estamos ameaçados mesmo por esse exército de pivetes e pivetões, mas tão ou mais indigna e detestável é a palhaçada que há séculos fazem conosco, pagadores de impostos.
Claro que há os pivetões que se tornam mega-criminosos. São os chefões do trafico, tipo Fernandinho Beira-Mar e outros menos famosos. Alguns quase viram celebridades, como foi o caso do Marcinho VP. São casos distintos, onde o melhor é agir com rigor e inteligência. Estão acima do problema da desigualdade social do Brasil, porque existem também, guardadas as proporções e peculiaridades, nas sociedades mais ricas do planeta.
O nosso problema é diferente. Somos obrigados a aturar policiais mal-preparados e mal-remunerados que trabalham no limite do estresse. Não temos serviço de saúde nem escola gratuita de qualidade razoável – salvo raríssimas (e bota raríssimas) exceções. Somos uma sociedade atrasada, que não trata o próprio esgoto e mal tem previdência social. Alguém aí está tranqüilo com a chegada da aposentadoria? Temos alguns dos piores indicadores sociais do mundo. Se alguém deve ser responsabilizado, não pode ser quem não freqüentou escola, não tem emprego e todo dia é tratado feito cachorro. Cachorro de pobre, diga-se de passagem.
Para ilustrar, uma breve historinha que saiu nos jornais:
Sobrevivente de Vigário Geral é preso por tráfico (05/05/2005)
RIO - Vítor Santos Carlos tinha apenas 9 anos quando viu a sua casa ser invadida por homens armados e encapuzados. Naquela madrugada fria, de 30 de agosto de 1993, 21 pessoas foram assassinadas em Vigário Geral. Oito delas faziam parte da família do menino que, ao lado de outras quatro crianças, foi poupado na chacina. Onze anos se passaram e o sonho de ser mecânico ficou pelo caminho. Ao longo desse período, Vítor conviveu com o medo, freqüentou divãs e chegou a servir ao Exército. De nada adiantou. Sem dinheiro, entrou para o mundo do crime e, anteontem, foi preso.
Vítor foi preso no Complexo da Maré, com 97 trouxinhas de maconha e 63 sacolés de cocaína. Na 21ª DP (Bonsucesso), onde prestou depoimento, contou ter deixado a casa da tia, na Baixa do Sapateiro, em março de 2004, para vender drogas.
- Eu estava sem dinheiro e precisava sustentar minha mulher e minha filha. Ali cheguei a ganhar R$ 100 por dia - diz.
Não quero justificar nada. Lugar de bandido é na cadeia. Mas defendo a idéia de que, antes de adotar medidas radicais de combate ao crime, é preciso pensar seriamente em um modelo mais amplo, que contemple outras necessidades e urgências intimamente ligadas à opção dos jovens pelo crime.
Não adiantam os discursos, ainda mais se feitos no Congresso Nacional. Não adiantam as passeatas, nem as faixas ou as cruzes na praia. A criminalidade, a corrupção, o mau uso do dinheiro público no Brasil precisam ser resolvidos com o aval e a participação de todos os brasileiros. Inclusive dos que comem hoje e não sabem se vão ter como se alimentar no dia seguinte.
*Jornalista, www.marcos-alves.blogspot.com
* Por Marcos Alves
Os governos, em todos os níveis no Brasil, têm sempre projetos para tentar afastar a juventude da criminalidade. Há uma infinidade deles, em praticamente todas as grandes cidades, e os mais comuns são os que utilizam o teatro, circo, artes plásticas e outras atividades lúdicas. Os resultados são esparsos, estão longe do que poderíamos chamar de solução.
Para piorar, há as distorções, ainda mais presentes nesse meio que já é, por si, carente de qualquer tipo de recurso. Habituamo-nos a vê-los nos cruzamentos bancando os malabaristas, engolidores de fogo e, quando não há o que apresentar, apenas pedindo esmola.
Não questiono esse tipo de iniciativa, até porque o problema do menor infrator no Brasil é dramático. Não passa um dia sem que eu veja um moleque maltrapilho e descalço circulando por aí. Alguns são simpáticos, conversam, brincam, correm entre os carros. Têm os olhinhos que brilham, olhos de criança.
Não vou bancar o hipócrita, também os evito quando quero. Passo rápido e evito olhar muito para não correr o risco de sentir pena, remorso ou raiva. E quando quero dou uns trocados, troco uma idéia, dou risada com as bobagens que eles, como qualquer criança, fazem.
Prefiro vê-los durante o dia. Quando cai a noite é mais triste, se amontoam debaixo das marquises, em lugares malcheirosos. Brigam entre si por causa de um cigarro ou pedaço qualquer de comida, resto de refrigerante e outras sobras que deixamos na rua.
A pior das sensações é quando eles encontram todas as janelas dos carros fechadas. Ninguém sequer olha na direção dos meninos. Os garotos parecem não se importar muito e no próximo sinal vermelho estão de novo a cumprir aquela humilhante rotina. Enfrentam o olhar enojado dos motoristas sem perder o pique.
Têm, também, os adolescentes de rua. Esses não causam nojo, dão medo. São temidos por causa da força física e também porque, em alguns casos, estão anestesiados. Não sentem p. nenhuma por essa gente que circula apressada pelo centro da cidade. E são perigosos mesmo: matam, roubam, traficam. São a parte mais visível da violência no Brasil.
São esses rapazes, de 16, 17, 20 anos de idade os responsáveis pelo trabalho sujo. Eles é que aparecem nas páginas policiais, ora como assassinos frios, ora como cadáveres. Estão jurados de morte, são procurados pela justiça. São eles os algozes da nossa sociedade que, mais do que nunca, hoje pede "Basta!"
Quem sabe quando exterminarmos esses jovens trogloditas fedidos que nos ameaçam na saída dos bares, na porta dos bancos, na fila do cinema, estaremos finalmente livres e felizes. Será? Parece ser essa a ótica de quem prega a antecipação da maioridade penal, pena de morte e outras mudanças na lei.
Fico aqui pensando, quando essas mudanças chegarem, o que vai acontecer com os deputados ladrões, juízes que vendem sentenças, delegados corruptos, policiais bêbados e outras aberrações desse país. Estamos ameaçados mesmo por esse exército de pivetes e pivetões, mas tão ou mais indigna e detestável é a palhaçada que há séculos fazem conosco, pagadores de impostos.
Claro que há os pivetões que se tornam mega-criminosos. São os chefões do trafico, tipo Fernandinho Beira-Mar e outros menos famosos. Alguns quase viram celebridades, como foi o caso do Marcinho VP. São casos distintos, onde o melhor é agir com rigor e inteligência. Estão acima do problema da desigualdade social do Brasil, porque existem também, guardadas as proporções e peculiaridades, nas sociedades mais ricas do planeta.
O nosso problema é diferente. Somos obrigados a aturar policiais mal-preparados e mal-remunerados que trabalham no limite do estresse. Não temos serviço de saúde nem escola gratuita de qualidade razoável – salvo raríssimas (e bota raríssimas) exceções. Somos uma sociedade atrasada, que não trata o próprio esgoto e mal tem previdência social. Alguém aí está tranqüilo com a chegada da aposentadoria? Temos alguns dos piores indicadores sociais do mundo. Se alguém deve ser responsabilizado, não pode ser quem não freqüentou escola, não tem emprego e todo dia é tratado feito cachorro. Cachorro de pobre, diga-se de passagem.
Para ilustrar, uma breve historinha que saiu nos jornais:
Sobrevivente de Vigário Geral é preso por tráfico (05/05/2005)
RIO - Vítor Santos Carlos tinha apenas 9 anos quando viu a sua casa ser invadida por homens armados e encapuzados. Naquela madrugada fria, de 30 de agosto de 1993, 21 pessoas foram assassinadas em Vigário Geral. Oito delas faziam parte da família do menino que, ao lado de outras quatro crianças, foi poupado na chacina. Onze anos se passaram e o sonho de ser mecânico ficou pelo caminho. Ao longo desse período, Vítor conviveu com o medo, freqüentou divãs e chegou a servir ao Exército. De nada adiantou. Sem dinheiro, entrou para o mundo do crime e, anteontem, foi preso.
Vítor foi preso no Complexo da Maré, com 97 trouxinhas de maconha e 63 sacolés de cocaína. Na 21ª DP (Bonsucesso), onde prestou depoimento, contou ter deixado a casa da tia, na Baixa do Sapateiro, em março de 2004, para vender drogas.
- Eu estava sem dinheiro e precisava sustentar minha mulher e minha filha. Ali cheguei a ganhar R$ 100 por dia - diz.
Não quero justificar nada. Lugar de bandido é na cadeia. Mas defendo a idéia de que, antes de adotar medidas radicais de combate ao crime, é preciso pensar seriamente em um modelo mais amplo, que contemple outras necessidades e urgências intimamente ligadas à opção dos jovens pelo crime.
Não adiantam os discursos, ainda mais se feitos no Congresso Nacional. Não adiantam as passeatas, nem as faixas ou as cruzes na praia. A criminalidade, a corrupção, o mau uso do dinheiro público no Brasil precisam ser resolvidos com o aval e a participação de todos os brasileiros. Inclusive dos que comem hoje e não sabem se vão ter como se alimentar no dia seguinte.
*Jornalista, www.marcos-alves.blogspot.com

MCP – Universidade Popular
* Por Marco Albertim
Não é com censuras à esquerda que Letícia Remeh mira os 43 anos que separam o fechamento do MCP, das experiências ainda incipientes, hoje, na área de educação, que os governos de esquerda ensaiam. Governos, diga-se, incluindo o de Luiz Inácio. Seu livro Movimento de Cultura Popular – impactos na sociedade pernambucana – já o diz na estampa, não se trata de catar excessos ideológicos que teriam açulado a oligarquia canavieira, selado o impulso golpista desta com militares avessos a camponeses letrados. MCP é uma sigla que ressoa bulício nos dias de Lei Rouanet, Funcultura e outros fundos, estatais ou não, com propósitos de fomento a empreendimentos culturais. Bulício de lembranças, pingos do sonho da revolução simultânea ao conhecimento. Impactos houve? Meia dúzia de intelectuais... Universitários voluntários. A estampa do livro da pedagoga Letícia Remeh é tão lapidar quanto sua disposição no garimpo de depoimentos, todos orais, na reconstituição do que foi o MCP. “(...)impacto” – pouca gente se dá conta de que o MCP não foi somente um experimento de alfabetização popular intramuros.
Nos moldes de uma universidade popular, inspirou-se na experiência do grupo francês Peuple et Culture. Levando cultura e absorvendo cultura, praticou a “circularidade cultural”. É possível deduzir da leitura que o Movimento teve um ícone; Paulo Freire era contrário ao uso de cartilhas de alfabetização, irritou-se com paixão, convencido de que seu método não era invasivo, porque o analfabeto, “com o universo próprio de palavras”, se alfabetiza compreendendo por que até então ninguém se interessara para que ele aprendesse a ler e escrever. Freire não deixou cartilha, deixou “o método”. Inda que pedagoga freiriana, a autora não omite o episódio em que o educador, convidado para ensinar em Angicos, RN, foi, alfabetizou 300 pessoas, mesmo sendo pago pela Aliança para o Progresso, financiando a campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler. “Não tenho medo de dinheiro americano contanto que respeitem o meu trabalho. Eu trabalho com qualquer dinheiro” -, assim reagiu Freire aos comentários. O mago da educação alfabetizava em 40 horas de aula.
Abelardo da Hora, fundador do Movimento, declarou à autora que arquitetou cinco Praças de Cultura no Recife. Na da Torre, em seis dias de funcionamento, 400 livros foram emprestados; em 19 dias, 809 livros. As sinhazinhas dos engenhos, também morando nos sobrados do bairro, por certo empinaram o nariz. O garimpo de Letícia descobriu que o orçamento da prefeitura de Arraes não tinha dotação para pagar a professores. A despesa foi coberta por firmas do comércio local, com a ajuda do Lions Clube do Recife. O Lions aprovara os estatutos do MCP. As firmas foram cadastradas como sociocolaboradoras. Arraes encontrara 50% da população entre 7 e 14 anos sem estudar, por falta de escolas. As unidades, abertas em casas, associações; numa Liga de Dominó cedida para sala de aula, o diretor disse: “Cada escola que se abre, dona, é uma prisão que se fecha...”
A criação da Universidade Popular já estava na mira do prefeito Arraes. Germano Coelho, primeiro presidente do MCP, encarregara-se de maturar o propósito. O embrião da universidade já frutificara na Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte com a criação dos Centros de Cultura Popular. O teatrólogo Augusto Boal viera a Recife espiar os teatros do Sítio da Trindade e o de rua. Também o CPC da UNE aqui se inspirara. Ora... o I Festival de Teatro do Recife, promovido pelo Movimento, reunira 15 mil pessoas em 20 dias. Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho montaram a peça A Bomba da Paz, contra a união entre cristãos e comunistas; Hermilo se penitenciaria depois.
O ecletismo no MCP não evitou tensões internas. No depoimento do padre Almeri Bezerra, está assim dito: “E havia, naturalmente, algumas tensões inevitáveis, porque era uma área onde o Partido Comunista tinha muito interesse (...), apesar de já haver um começo de ecumenismo (...)”
O MCP nasceu na casa de Abelardo da Hora, no seu Ateliê Coletivo, por onde passaram Armando Samico, Delano, Clara Charifker. No governo de Pelópidas Silveira, tivera apoio; no de Arraes, institucionalizou-se. Carlos Duarte, do Partido Comunista do Brasil, então presidente da Câmara de Vereadores, fez aprovar lei obrigando a todo prédio ter em sua fachada, obra de artista plástico, painel com esculturas ou pinturas. O propósito era dar trabalho e renda aos artesãos novos.
Conforme a autora ouviu de Germano Coelho, o projeto de lei criando a Universidade Popular tramitou na Câmara Municipal. A experiência durou de 60 a 64. O casarão do Sítio da Trindade foi o primeiro a ficar sob a mira de um tanque de guerra, da “falange” que o hino do MCP entrevira:
Mas, se um dia, as falanges do mal
Contra nós suas armas mover,
Por maior que se faça em perfídia
Não nos pode um covarde vencer.
Somos raios na lua e na paz,
Homens de aço de luzes na mão-
Ao marchar a cultura levamos,
Popular e sublime à Nação
O hino foi musicado pelo maestro Nelson Ferreira. Letícia Rameh mostrou-se historiadora paciente, valorizando grãos de uma rocha que pode se recompor; nos moldes de hoje, com outros atores mas com os ouvidos no bulício de há 43 anos...
* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
* Por Marco Albertim
Não é com censuras à esquerda que Letícia Remeh mira os 43 anos que separam o fechamento do MCP, das experiências ainda incipientes, hoje, na área de educação, que os governos de esquerda ensaiam. Governos, diga-se, incluindo o de Luiz Inácio. Seu livro Movimento de Cultura Popular – impactos na sociedade pernambucana – já o diz na estampa, não se trata de catar excessos ideológicos que teriam açulado a oligarquia canavieira, selado o impulso golpista desta com militares avessos a camponeses letrados. MCP é uma sigla que ressoa bulício nos dias de Lei Rouanet, Funcultura e outros fundos, estatais ou não, com propósitos de fomento a empreendimentos culturais. Bulício de lembranças, pingos do sonho da revolução simultânea ao conhecimento. Impactos houve? Meia dúzia de intelectuais... Universitários voluntários. A estampa do livro da pedagoga Letícia Remeh é tão lapidar quanto sua disposição no garimpo de depoimentos, todos orais, na reconstituição do que foi o MCP. “(...)impacto” – pouca gente se dá conta de que o MCP não foi somente um experimento de alfabetização popular intramuros.
Nos moldes de uma universidade popular, inspirou-se na experiência do grupo francês Peuple et Culture. Levando cultura e absorvendo cultura, praticou a “circularidade cultural”. É possível deduzir da leitura que o Movimento teve um ícone; Paulo Freire era contrário ao uso de cartilhas de alfabetização, irritou-se com paixão, convencido de que seu método não era invasivo, porque o analfabeto, “com o universo próprio de palavras”, se alfabetiza compreendendo por que até então ninguém se interessara para que ele aprendesse a ler e escrever. Freire não deixou cartilha, deixou “o método”. Inda que pedagoga freiriana, a autora não omite o episódio em que o educador, convidado para ensinar em Angicos, RN, foi, alfabetizou 300 pessoas, mesmo sendo pago pela Aliança para o Progresso, financiando a campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler. “Não tenho medo de dinheiro americano contanto que respeitem o meu trabalho. Eu trabalho com qualquer dinheiro” -, assim reagiu Freire aos comentários. O mago da educação alfabetizava em 40 horas de aula.
Abelardo da Hora, fundador do Movimento, declarou à autora que arquitetou cinco Praças de Cultura no Recife. Na da Torre, em seis dias de funcionamento, 400 livros foram emprestados; em 19 dias, 809 livros. As sinhazinhas dos engenhos, também morando nos sobrados do bairro, por certo empinaram o nariz. O garimpo de Letícia descobriu que o orçamento da prefeitura de Arraes não tinha dotação para pagar a professores. A despesa foi coberta por firmas do comércio local, com a ajuda do Lions Clube do Recife. O Lions aprovara os estatutos do MCP. As firmas foram cadastradas como sociocolaboradoras. Arraes encontrara 50% da população entre 7 e 14 anos sem estudar, por falta de escolas. As unidades, abertas em casas, associações; numa Liga de Dominó cedida para sala de aula, o diretor disse: “Cada escola que se abre, dona, é uma prisão que se fecha...”
A criação da Universidade Popular já estava na mira do prefeito Arraes. Germano Coelho, primeiro presidente do MCP, encarregara-se de maturar o propósito. O embrião da universidade já frutificara na Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte com a criação dos Centros de Cultura Popular. O teatrólogo Augusto Boal viera a Recife espiar os teatros do Sítio da Trindade e o de rua. Também o CPC da UNE aqui se inspirara. Ora... o I Festival de Teatro do Recife, promovido pelo Movimento, reunira 15 mil pessoas em 20 dias. Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho montaram a peça A Bomba da Paz, contra a união entre cristãos e comunistas; Hermilo se penitenciaria depois.
O ecletismo no MCP não evitou tensões internas. No depoimento do padre Almeri Bezerra, está assim dito: “E havia, naturalmente, algumas tensões inevitáveis, porque era uma área onde o Partido Comunista tinha muito interesse (...), apesar de já haver um começo de ecumenismo (...)”
O MCP nasceu na casa de Abelardo da Hora, no seu Ateliê Coletivo, por onde passaram Armando Samico, Delano, Clara Charifker. No governo de Pelópidas Silveira, tivera apoio; no de Arraes, institucionalizou-se. Carlos Duarte, do Partido Comunista do Brasil, então presidente da Câmara de Vereadores, fez aprovar lei obrigando a todo prédio ter em sua fachada, obra de artista plástico, painel com esculturas ou pinturas. O propósito era dar trabalho e renda aos artesãos novos.
Conforme a autora ouviu de Germano Coelho, o projeto de lei criando a Universidade Popular tramitou na Câmara Municipal. A experiência durou de 60 a 64. O casarão do Sítio da Trindade foi o primeiro a ficar sob a mira de um tanque de guerra, da “falange” que o hino do MCP entrevira:
Mas, se um dia, as falanges do mal
Contra nós suas armas mover,
Por maior que se faça em perfídia
Não nos pode um covarde vencer.
Somos raios na lua e na paz,
Homens de aço de luzes na mão-
Ao marchar a cultura levamos,
Popular e sublime à Nação
O hino foi musicado pelo maestro Nelson Ferreira. Letícia Rameh mostrou-se historiadora paciente, valorizando grãos de uma rocha que pode se recompor; nos moldes de hoje, com outros atores mas com os ouvidos no bulício de há 43 anos...
* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.


Sonhar no Sertão
* Por Seu Pedro
Sem conhecer forno de microondas, o que é Internet e nem a utilidade de um terminal rodoviário, Do Carmo arrumou a mala de couro bruto, com algumas peças de roupa, certidão de seu nascimento e de óbito de sua mãe solteira. Era sua carta de alforria, aos dezenove anos, que completou no dia anterior. Nunca havia saído daquela pequena localidade de Lagoa dos Aflitos, a não ser para levar à venda, na feira, batatas-doces, mamões verdes e maxixes, que fazia de ganha-pão. “Pão sem manteiga”, costuma dizer. E foi na feira que ela ouviu falar da vida melhor que o sertanejo acha que vai achar nas cidades grandes. “Na terra da garoa, na cidade maravilhosa, ou onde há bons empregos e ricas patroas”, sonhava ela.
Foi assim que depois de pegar uma carona no transporte dos verdureiros e de ter percorrido quase cem quilômetros, mal-sentada em cima de um caixote, na carroceria aberta, sentindo cheiro do gás de cozinha, que movimenta as velhas caminhonetes no Sertão afora, Do Carmo estava, enfim, em frente a um ônibus com ar-condicionado, onde soletrou seu destino. Ia para uma grande cidade! Convidada a embarcar, parou, rapidamente no segundo degrau que levava ao interior do veículo, encantada com o ambiente de viagem. Nem reparou que tantos outros passageiros homens encantavam-se, também, com seu corpo moreno, que nem parecia maltratado, adornado com um leve e quase transparente vestido de chita, que a deixava tão inocente, quanto na verdade era.
O ônibus em movimento, os sacolejos no asfalto esburacado, a água mineral do copinho gotejando em seu colo, a janela de cortina aberta e lá fora o movimento que prendia os olhares da jovem. Duas lágrimas deles caem ao cortar a região em que foi criada. Quando menina, montava no lombo do jegue, e na época da safra, chupava umbus até se fartar. Seu universo de criança se resumia à escola de classe mista. A merenda escolar era a principal refeição do dia. A boneca de pano, que ganhou da madrinha, conservada com ela, seguia viagem, espremida na bagagem. Do Carmo cochilou, sonhando em ser feliz. Se é que já não havia sido!
Ao seu lado um jovem, pouco mais velho, também migrando, tentava tocar com as pontas de seus dedos a mão esquerda de Do Carmo, pendida para o seu lado, esquecida pela profundeza do cochilo. Ela acorda com o carinho, sorri, e pergunta se ele também ia ao encontro da felicidade. Januário, moreno, olhos verdes, nunca teria sido feliz em Mocambo, localidade de característica idêntica e vizinha a Lagoa dos Aflitos? Por que tão próximos tiveram que se conhecer em caminho de duas aventuras? Nem ao menos tinham destino certo na grande cidade. Januário explicou que, ao chegar à cidade de destino, compraria um jornal de anúncios de emprego, o que haviam lhe ensinado, e ali estaria seu destino. Pretendia ser jardineiro, acostumado que estava a lidar com a flora sertaneja.
Primeira parada. Almoço juntos. E já de mãos dadas, Januário e Do Carmo dividem o valor de uma refeição, saboreada aos sorrisos e aos sonhos. Imaginavam que um dia aquilo poderia estar acontecendo em um ambiente de lar. Ela pediu que procurasse com atenção nos classificados, ao chegar ao destino do ônibus, algum patrão que necessitasse de uma boa faxineira. Caprichosa ela era. E de um jardineiro também. Era o amor evoluindo a cada quilometro rodado! Cai a noite e os ombros substituem os travesseiros. E amor sertanejo, em sua linguagem própria, vai se revelando, em palavras ditas em tom baixo e abafado pela cortina e janela, agora fechadas. O ônibus já não era tão confortável como no início da viagem.
Ansiosa, já amando e sonhando com sua primeira noite de mulher completa, perguntou ao seu companheiro, já não apenas de viagem, mas de sonhos, também, quando isto aconteceria. Januário, também aflito por este desfecho, contudo, sabia que o pouco dinheiro que tinha, e o que ela também trazia, junto, era pouco para uma noite de lua-de-mel, mesmo que em um hotel de “entra e sai” na periferia de uma rodoviária. Tinham pé no chão e estavam conscientes de que haviam de economizar, até que estivessem empregados e com os primeiros salários em mãos. Fizeram um pacto: teriam pelo menos trinta dias de imaginação, de contorções e gemidos em seus leitos solitários, até a consumação.
Aproxima-se a cidade dos sonhos, a última parada, o lanche de café pingado e os últimos biscoitinhos fritos que Do Carmo trouxera, feitos no seu último uso do fogão a lenha. Pensava em quem ocuparia a sua casa de adobe, agora abandonada a mais de mil quilômetros, construída em terras de terceiros, na terra seca do Sertão, e que pouco valia vender, mais prático era abandonar. Os poucos móveis que tinha havia dado a uma vizinha, a única que sabia para onde ia. Os últimos quilômetros da chegada lhes pareciam mais demorados, e o verde das paisagens, agora trocado pelo colorido das casas, e de longe os grandes prédios, começavam a ser avistados. Os olhares se voltam para a dianteira do ônibus e a expectativa acelera os corações.
- Por que o ônibus parou? – perguntam, entre eles, os passageiros assustados, mais ainda ao perceberem homens encapuzados com um revólver mirado para o motorista. Veio a ordem de “mãos ao alto” e o aviso de assalto. Desmaios, saque. Januário e Do Carmo, abraçados, sentiam-se dependentes um do outro e juraram, então, amor para sempre. Dizem que os anjos lhes trouxeram as alianças.
Bandidos em fuga, ônibus ardendo em chamas, uns pulavam as janelas e outros esperavam passivamente a cremação. Os dois abraçados subiram aos céus envoltos em fumaça. E os sonhos foram trocados pela bruta realidade urbana. Pelos dias, meses e anos seguintes, ninguém do Sertão, nem de Mocambo e nem de Lagoa dos Aflitos, procurou saber onde estavam Januário ou Do Carmo. Seus nomes entraram para o rol dos que morrem clandestinos na guerra fria dos “governos” das metrópoles. Seus poucos familiares esperam que um dia ressuscitem e voltem para a felicidade que desprezaram!
* Seu Pedro é o jornalista Pedro Diedrichs, editor do jornal Vanguarda, de Guanambi, Bahia.
* Por Seu Pedro
Sem conhecer forno de microondas, o que é Internet e nem a utilidade de um terminal rodoviário, Do Carmo arrumou a mala de couro bruto, com algumas peças de roupa, certidão de seu nascimento e de óbito de sua mãe solteira. Era sua carta de alforria, aos dezenove anos, que completou no dia anterior. Nunca havia saído daquela pequena localidade de Lagoa dos Aflitos, a não ser para levar à venda, na feira, batatas-doces, mamões verdes e maxixes, que fazia de ganha-pão. “Pão sem manteiga”, costuma dizer. E foi na feira que ela ouviu falar da vida melhor que o sertanejo acha que vai achar nas cidades grandes. “Na terra da garoa, na cidade maravilhosa, ou onde há bons empregos e ricas patroas”, sonhava ela.
Foi assim que depois de pegar uma carona no transporte dos verdureiros e de ter percorrido quase cem quilômetros, mal-sentada em cima de um caixote, na carroceria aberta, sentindo cheiro do gás de cozinha, que movimenta as velhas caminhonetes no Sertão afora, Do Carmo estava, enfim, em frente a um ônibus com ar-condicionado, onde soletrou seu destino. Ia para uma grande cidade! Convidada a embarcar, parou, rapidamente no segundo degrau que levava ao interior do veículo, encantada com o ambiente de viagem. Nem reparou que tantos outros passageiros homens encantavam-se, também, com seu corpo moreno, que nem parecia maltratado, adornado com um leve e quase transparente vestido de chita, que a deixava tão inocente, quanto na verdade era.
O ônibus em movimento, os sacolejos no asfalto esburacado, a água mineral do copinho gotejando em seu colo, a janela de cortina aberta e lá fora o movimento que prendia os olhares da jovem. Duas lágrimas deles caem ao cortar a região em que foi criada. Quando menina, montava no lombo do jegue, e na época da safra, chupava umbus até se fartar. Seu universo de criança se resumia à escola de classe mista. A merenda escolar era a principal refeição do dia. A boneca de pano, que ganhou da madrinha, conservada com ela, seguia viagem, espremida na bagagem. Do Carmo cochilou, sonhando em ser feliz. Se é que já não havia sido!
Ao seu lado um jovem, pouco mais velho, também migrando, tentava tocar com as pontas de seus dedos a mão esquerda de Do Carmo, pendida para o seu lado, esquecida pela profundeza do cochilo. Ela acorda com o carinho, sorri, e pergunta se ele também ia ao encontro da felicidade. Januário, moreno, olhos verdes, nunca teria sido feliz em Mocambo, localidade de característica idêntica e vizinha a Lagoa dos Aflitos? Por que tão próximos tiveram que se conhecer em caminho de duas aventuras? Nem ao menos tinham destino certo na grande cidade. Januário explicou que, ao chegar à cidade de destino, compraria um jornal de anúncios de emprego, o que haviam lhe ensinado, e ali estaria seu destino. Pretendia ser jardineiro, acostumado que estava a lidar com a flora sertaneja.
Primeira parada. Almoço juntos. E já de mãos dadas, Januário e Do Carmo dividem o valor de uma refeição, saboreada aos sorrisos e aos sonhos. Imaginavam que um dia aquilo poderia estar acontecendo em um ambiente de lar. Ela pediu que procurasse com atenção nos classificados, ao chegar ao destino do ônibus, algum patrão que necessitasse de uma boa faxineira. Caprichosa ela era. E de um jardineiro também. Era o amor evoluindo a cada quilometro rodado! Cai a noite e os ombros substituem os travesseiros. E amor sertanejo, em sua linguagem própria, vai se revelando, em palavras ditas em tom baixo e abafado pela cortina e janela, agora fechadas. O ônibus já não era tão confortável como no início da viagem.
Ansiosa, já amando e sonhando com sua primeira noite de mulher completa, perguntou ao seu companheiro, já não apenas de viagem, mas de sonhos, também, quando isto aconteceria. Januário, também aflito por este desfecho, contudo, sabia que o pouco dinheiro que tinha, e o que ela também trazia, junto, era pouco para uma noite de lua-de-mel, mesmo que em um hotel de “entra e sai” na periferia de uma rodoviária. Tinham pé no chão e estavam conscientes de que haviam de economizar, até que estivessem empregados e com os primeiros salários em mãos. Fizeram um pacto: teriam pelo menos trinta dias de imaginação, de contorções e gemidos em seus leitos solitários, até a consumação.
Aproxima-se a cidade dos sonhos, a última parada, o lanche de café pingado e os últimos biscoitinhos fritos que Do Carmo trouxera, feitos no seu último uso do fogão a lenha. Pensava em quem ocuparia a sua casa de adobe, agora abandonada a mais de mil quilômetros, construída em terras de terceiros, na terra seca do Sertão, e que pouco valia vender, mais prático era abandonar. Os poucos móveis que tinha havia dado a uma vizinha, a única que sabia para onde ia. Os últimos quilômetros da chegada lhes pareciam mais demorados, e o verde das paisagens, agora trocado pelo colorido das casas, e de longe os grandes prédios, começavam a ser avistados. Os olhares se voltam para a dianteira do ônibus e a expectativa acelera os corações.
- Por que o ônibus parou? – perguntam, entre eles, os passageiros assustados, mais ainda ao perceberem homens encapuzados com um revólver mirado para o motorista. Veio a ordem de “mãos ao alto” e o aviso de assalto. Desmaios, saque. Januário e Do Carmo, abraçados, sentiam-se dependentes um do outro e juraram, então, amor para sempre. Dizem que os anjos lhes trouxeram as alianças.
Bandidos em fuga, ônibus ardendo em chamas, uns pulavam as janelas e outros esperavam passivamente a cremação. Os dois abraçados subiram aos céus envoltos em fumaça. E os sonhos foram trocados pela bruta realidade urbana. Pelos dias, meses e anos seguintes, ninguém do Sertão, nem de Mocambo e nem de Lagoa dos Aflitos, procurou saber onde estavam Januário ou Do Carmo. Seus nomes entraram para o rol dos que morrem clandestinos na guerra fria dos “governos” das metrópoles. Seus poucos familiares esperam que um dia ressuscitem e voltem para a felicidade que desprezaram!
* Seu Pedro é o jornalista Pedro Diedrichs, editor do jornal Vanguarda, de Guanambi, Bahia.


Miragem
* Por Sayonara Lino
Encontrei uma amiga que vejo muito pouco e paramos para papear. Na pauta, relacionamento afetivo. Ela questionava o desaparecimento súbito de um namorado recente. Bem recente, duas ou três semanas, ela não sabia ao certo. A história é conhecida: o cara fica de ligar no fim de semana e desaparece. Você formula pelo menos trinta hipóteses, remói, quanto mais deseja não pensar a respeito, mais pensa.
Está com outra, eu escrevi “pobrema” sem querer outro dia no e-mail, vai ver ele teve uma desilusão ortográfico amorosa. Será que me achou muito magra ou caída, nova demais, inculta, imatura, um suor inconveniente incomodou seu olfato? A lista é longa.
Se fosse para desenvolver uma tese de doutorado você não teria tantas idéias, aposto. Na segunda parte, depois que resolve pensar em um culpado que não seja nem uma terceira pessoa, nem você, surgem as neuras em relação a causas externas: atropelamento, sequestro, abdução, crise existencial, crise de identidade, cheque especial, dívidas com o cartão de crédito, problema com o filho, com a mãe, com a ex, com o chefe, com a polícia, com o joanete.
Não existe uma resposta objetiva, tudo pode acontecer. Tem homem que está com sinusite mesmo, desmaiou, foi para o hospital, outros estão amargurados, sem vontade de ver a própria face no espelho, menos ainda de sair para um encontro romântico. É claro que isso existe. E é obvio que existem também, aqueles que deixam as gurias no famoso banho-maria, e os que simplesmente não tem coragem para dizer que não estão a fim e ponto final.
Sou a favor da sinceridade, quando não estou interessada aviso com delicadeza, não enrolo. Ainda acho os homens mais complicados, e sei que eles pensam o mesmo das mulheres. Independente de gênero, em pleno séc. XXI, onde a comunicação é uma aliada, mandar um recado é muito simples e nos poupa de ficar apaixonadas por uma miragem.
* Jornalista, com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora e atualmente finaliza nova especialização em Televisão, Cinema e Mídias Digitais, pela mesma instituição. Colunista do portal www.ubaweb.com/revista.
* Por Sayonara Lino
Encontrei uma amiga que vejo muito pouco e paramos para papear. Na pauta, relacionamento afetivo. Ela questionava o desaparecimento súbito de um namorado recente. Bem recente, duas ou três semanas, ela não sabia ao certo. A história é conhecida: o cara fica de ligar no fim de semana e desaparece. Você formula pelo menos trinta hipóteses, remói, quanto mais deseja não pensar a respeito, mais pensa.
Está com outra, eu escrevi “pobrema” sem querer outro dia no e-mail, vai ver ele teve uma desilusão ortográfico amorosa. Será que me achou muito magra ou caída, nova demais, inculta, imatura, um suor inconveniente incomodou seu olfato? A lista é longa.
Se fosse para desenvolver uma tese de doutorado você não teria tantas idéias, aposto. Na segunda parte, depois que resolve pensar em um culpado que não seja nem uma terceira pessoa, nem você, surgem as neuras em relação a causas externas: atropelamento, sequestro, abdução, crise existencial, crise de identidade, cheque especial, dívidas com o cartão de crédito, problema com o filho, com a mãe, com a ex, com o chefe, com a polícia, com o joanete.
Não existe uma resposta objetiva, tudo pode acontecer. Tem homem que está com sinusite mesmo, desmaiou, foi para o hospital, outros estão amargurados, sem vontade de ver a própria face no espelho, menos ainda de sair para um encontro romântico. É claro que isso existe. E é obvio que existem também, aqueles que deixam as gurias no famoso banho-maria, e os que simplesmente não tem coragem para dizer que não estão a fim e ponto final.
Sou a favor da sinceridade, quando não estou interessada aviso com delicadeza, não enrolo. Ainda acho os homens mais complicados, e sei que eles pensam o mesmo das mulheres. Independente de gênero, em pleno séc. XXI, onde a comunicação é uma aliada, mandar um recado é muito simples e nos poupa de ficar apaixonadas por uma miragem.
* Jornalista, com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora e atualmente finaliza nova especialização em Televisão, Cinema e Mídias Digitais, pela mesma instituição. Colunista do portal www.ubaweb.com/revista.


Som na caixa!
* Por Fernando Yanmar Narciso
A música é um reflexo do povo. Horas difíceis sempre foram combustíveis para os grandes gênios da música, que com sua poesia e seu ritmo trazem esperança e alegria às pessoas. Bom, pelo menos costumava ser assim. Nas últimas duas décadas a única palavra de ordem no mundo da música tem sido: Diversão. Se a música dá vontade de sair pulando, não precisa fazer mais nada.
Considero-me uma pessoa eclética quanto à música. Cresci rodeado pela MPB, rock brasileiro, heavy metal e pelos Beatles. Assim como muitas outras pessoas, eu não me conformo com o rumo que a música mundial tomou com a era digital. Outro dia, enquanto eu e meu pai trabalhávamos no AUTOCAD na casa dele, o vizinho da casa de baixo estava tocando Axé Music no último furo. Um festival ininterrupto de imbecilidades. Ia dos clichês básicos do gênero como “me ama, meu amor”, “mexe, mainha” e “empina a bundinha” a sandices absolutas como uma tal de “Dança do Pica- Pau”. Melhor que rir dessas asneiras, só rir dos comentários do meu pai sobre elas. Na verdade, rimos pra não chorar. É inevitável sentir pena dessa geração 2K, que nasceu e se desenvolveu afogada até o pescoço nessa “música”. Vejo todo dia na MTV mulheres que parecem feitas de plástico, favelados americanos posando de bonzões com todo aquele ouro no pescoço, nos dedos e até nos dentes e ídolos aborrecentes estendendo a bandeira do “puritanismo”. Em meio a esse bando de babacas exibicionistas, onde fica a música? E depois ainda vem o músico reclamar dos downloads e da pirataria... O caso é que as pessoas já perceberam como eu já havia dito anteriormente, que música e filmes atuais viraram besteiras tão grandes que ninguém mais quer saber de pagar um centavo por eles. Escrever música hoje se resume a praticamente só uma coisa: Falar de amor. Só isso. Escrever música moderna sem colocar as palavras “amor”, “amar” e “amo” é quase como ir ao Vaticano e não torcer pra ver o Papa tomar um “tropicão”. Até os roqueiros modernos que tocam nas rádios, que supostamente deveriam ser o símbolo do inconformismo e da rebeldia juvenil, só escrevem músicas melosas e insípidas sobre amores desfeitos e beijos. CPM 22 e NxZero não me deixam mentir.
O caso é que, nesses tempos modernos, a palavra “gênio” ganhou uma conotação totalmente diferente. Lugar de gênio e filósofo passou a ser nos laboratórios e nas aulas de filosofia. Qual é a primeira coisa que vem à mente quando aquele seu colega começa a se exibir em sala de aula, e a se achar mais sabido que o professor? Exato, mandar calar a boca e sentar. Os grandes contestadores viraram “reclamões”, e ninguém gosta de ficar perto de quem só reclama de tudo. Diogo Mainardi aprendeu essa do jeito mais difícil... Os grandes nomes da MPB não souberam como evoluir junto com o novo público. Continuam compondo quase do mesmo jeito como compunham na época do amor livre, das torturas e deportações. Basicamente só tocam para o público da velha guarda, e pra adolescentes intelectualóides que gostam de posar de muito cultos.
E nem venham me dizer que não existem mais motivos hoje em dia pra mobilizar as pessoas. Ditadura em si já não existe-pelo menos até o governo conseguir eleger seu próximo candidato-mas ainda há censura, e muita. Basta nos lembrarmos da tentativa ridícula de criar uma lei abafando a liberdade de expressão nos blogs durante o período de eleição. Vão perguntar para Gabriel o Pensador se não existe mais censura. Quem não se lembra de quando ele foi preso e seu disco de “To feliz, matei o presidente” foi confiscado pelo governo? É claro que ele enfiou a mão sem luva dentro do vespeiro, mas não precisavam ter chegado a tanto.
Pensem nas torturas de policiais, nos tiroteios nas favelas, no narcotráfico, na falta de saneamento básico, na bandalheira desenfreada em Brasília, na falta de humanidade e empatia dos nossos políticos, que só querem saber da nossa grana, na violência que já chegou às cidades pequenas, na falta de respeito, na poluição... É material a dar com pau!
Com o governo Lula, houve um crescimento sem precedentes do culto à incultura. Passou a ser motivo de orgulho se dizer pobre e analfabeto, como ele era antes de usar Armani e tomar escocês no Palácio da Alvorada. O país tornou-se um espelho de seu presidente. Se ele gosta de forró mela-cueca, todo mundo gosta. Se ele gosta de “apocalypso”, nós também gostamos. Se ele gosta de funk de sacanagem, nós idem. Era mais fácil nos revoltarmos com a situação do país quando havia filósofos, sociólogos e advogados supostamente mais inteligentes que o povo no poder.
* Fernando Yanmar Narciso, 25 anos, formado em Design, filho de Mara Narciso, escritor do blog “O Blog do Yanmar”, http://fernandoyanmar.wordpress.com
* Por Fernando Yanmar Narciso
A música é um reflexo do povo. Horas difíceis sempre foram combustíveis para os grandes gênios da música, que com sua poesia e seu ritmo trazem esperança e alegria às pessoas. Bom, pelo menos costumava ser assim. Nas últimas duas décadas a única palavra de ordem no mundo da música tem sido: Diversão. Se a música dá vontade de sair pulando, não precisa fazer mais nada.
Considero-me uma pessoa eclética quanto à música. Cresci rodeado pela MPB, rock brasileiro, heavy metal e pelos Beatles. Assim como muitas outras pessoas, eu não me conformo com o rumo que a música mundial tomou com a era digital. Outro dia, enquanto eu e meu pai trabalhávamos no AUTOCAD na casa dele, o vizinho da casa de baixo estava tocando Axé Music no último furo. Um festival ininterrupto de imbecilidades. Ia dos clichês básicos do gênero como “me ama, meu amor”, “mexe, mainha” e “empina a bundinha” a sandices absolutas como uma tal de “Dança do Pica- Pau”. Melhor que rir dessas asneiras, só rir dos comentários do meu pai sobre elas. Na verdade, rimos pra não chorar. É inevitável sentir pena dessa geração 2K, que nasceu e se desenvolveu afogada até o pescoço nessa “música”. Vejo todo dia na MTV mulheres que parecem feitas de plástico, favelados americanos posando de bonzões com todo aquele ouro no pescoço, nos dedos e até nos dentes e ídolos aborrecentes estendendo a bandeira do “puritanismo”. Em meio a esse bando de babacas exibicionistas, onde fica a música? E depois ainda vem o músico reclamar dos downloads e da pirataria... O caso é que as pessoas já perceberam como eu já havia dito anteriormente, que música e filmes atuais viraram besteiras tão grandes que ninguém mais quer saber de pagar um centavo por eles. Escrever música hoje se resume a praticamente só uma coisa: Falar de amor. Só isso. Escrever música moderna sem colocar as palavras “amor”, “amar” e “amo” é quase como ir ao Vaticano e não torcer pra ver o Papa tomar um “tropicão”. Até os roqueiros modernos que tocam nas rádios, que supostamente deveriam ser o símbolo do inconformismo e da rebeldia juvenil, só escrevem músicas melosas e insípidas sobre amores desfeitos e beijos. CPM 22 e NxZero não me deixam mentir.
O caso é que, nesses tempos modernos, a palavra “gênio” ganhou uma conotação totalmente diferente. Lugar de gênio e filósofo passou a ser nos laboratórios e nas aulas de filosofia. Qual é a primeira coisa que vem à mente quando aquele seu colega começa a se exibir em sala de aula, e a se achar mais sabido que o professor? Exato, mandar calar a boca e sentar. Os grandes contestadores viraram “reclamões”, e ninguém gosta de ficar perto de quem só reclama de tudo. Diogo Mainardi aprendeu essa do jeito mais difícil... Os grandes nomes da MPB não souberam como evoluir junto com o novo público. Continuam compondo quase do mesmo jeito como compunham na época do amor livre, das torturas e deportações. Basicamente só tocam para o público da velha guarda, e pra adolescentes intelectualóides que gostam de posar de muito cultos.
E nem venham me dizer que não existem mais motivos hoje em dia pra mobilizar as pessoas. Ditadura em si já não existe-pelo menos até o governo conseguir eleger seu próximo candidato-mas ainda há censura, e muita. Basta nos lembrarmos da tentativa ridícula de criar uma lei abafando a liberdade de expressão nos blogs durante o período de eleição. Vão perguntar para Gabriel o Pensador se não existe mais censura. Quem não se lembra de quando ele foi preso e seu disco de “To feliz, matei o presidente” foi confiscado pelo governo? É claro que ele enfiou a mão sem luva dentro do vespeiro, mas não precisavam ter chegado a tanto.
Pensem nas torturas de policiais, nos tiroteios nas favelas, no narcotráfico, na falta de saneamento básico, na bandalheira desenfreada em Brasília, na falta de humanidade e empatia dos nossos políticos, que só querem saber da nossa grana, na violência que já chegou às cidades pequenas, na falta de respeito, na poluição... É material a dar com pau!
Com o governo Lula, houve um crescimento sem precedentes do culto à incultura. Passou a ser motivo de orgulho se dizer pobre e analfabeto, como ele era antes de usar Armani e tomar escocês no Palácio da Alvorada. O país tornou-se um espelho de seu presidente. Se ele gosta de forró mela-cueca, todo mundo gosta. Se ele gosta de “apocalypso”, nós também gostamos. Se ele gosta de funk de sacanagem, nós idem. Era mais fácil nos revoltarmos com a situação do país quando havia filósofos, sociólogos e advogados supostamente mais inteligentes que o povo no poder.
* Fernando Yanmar Narciso, 25 anos, formado em Design, filho de Mara Narciso, escritor do blog “O Blog do Yanmar”, http://fernandoyanmar.wordpress.com
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