terça-feira, 1 de dezembro de 2009


Leia nesta edição:

Editorial – Choque de realidade

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema “O desverdecer do Recife”.

Coluna Tecelã de emoções – Risomar Fasanaro, conto “O retorno”.

Coluna À flor da pele – Evelyne Furtado, crônica “Qualquer idade”.

Coluna Imitação da vida – Laís de Castro, poema “Tia Liginha”.

Coluna Porta Aberta – Luís Augusto Cassas, poema “Quilômetro zero”

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Choque de realidade

Caríssimos leitores, boa tarde.
Muitos escritores de hoje carecem de um choque de realidade. Precisam deixar seus confortáveis gabinetes de trabalho e sair para as ruas, praças e avenidas, onde a vida, de fato, acontece.
Têm que subir os morros, visitar favelas, mocambos e alagados e conhecer como parte considerável da população, e não apenas brasileira, mas mundial, vive neste início de século XXI, cantado e decantado, em verso e prosa, por pseudo-profetas futuristas, num passado não tão remoto assim, como uma era de maravilhas e que, no entanto, em linhas gerais não é, no aspecto social, nada, nada melhor do que seu antecessor. É bastante provável, até, que tenha se deteriorado ainda mais.
Sempre quando se toca nesse tema, o referente às carências de quase quatro bilhões de pessoas, ou seja, de dois terços da humanidade, logo vêm os “patrulheiros” do politicamente correto apontar seu dedo acusador, dizendo que quem tem essa ousadia está recorrendo à “apelação”. Estaria? Claro que não!
As melhores obras literárias de todos os tempos tiveram, como “pano de fundo”, a miséria. O que dizer, por exemplo, dessa obra-prima de Vítor Hugo, que é o romance “Os miseráveis”? Ou de “Notre Dame de Paris”, traduzida, entre nós, como “O corcunda de Notre Dame”? Ou dos contos de Máximo Gorki, retratando uma Rússia pós-revolucionária, miserável e sofrida, que batalhava por justiça social?
Aliás, um dos melhores contos que já li desse autor foi “A mãe”, em que ele retrata, de forma cruamente realista, as dificuldades de uma jovem adolescente, que vive num miserável cortiço, despreparada para a maternidade precoce, e que luta, como pode, para assegurar a sobrevivência do filho paralítico. Este é tão dependente dela, que traz os pés em carne viva, mordidos por ratos, os quais não tem força para espantar e impedir que lhe causem danos como este.
Há casos em que protagonistas se transformam em narradores. Em que personagens, sem abrirem mão de seus papéis, invadem nosso domínio e assumem a condição de escritores, para relatar, em toda a sua crueza, a miséria que lhes é corriqueira.
Carolina Maria de Jesus foi uma dessas pessoas. Dizem que seu livro, “Quarto de despejo”, publicado no início dos anos 60, é, até hoje, o maior best-seller brasileiro de todos os tempos, informação que não posso comprovar ou desmentir, por não contar com dados precisos a respeito.
Mas esse diário de uma catadora de papéis, semi-analfabeta, negra, pobre e favelada, vendeu milhões de exemplares, foi traduzido para diversas línguas, deu projeção nacional e internacional à autora e fez com que, temporariamente, tivesse uma vida melhor. Mas, cruelmente, ela foi devolvida, em pouco tempo, à sua hedionda realidade e findou por morrer na miséria, a mesma com a qual conviveu a vida toda. O que foi feito com o fantástico lucro gerado por seu livro? Ninguém sabe e ninguém viu.
Tenho em mãos um poema, que me foi enviado, em 2007, pela jornalista Diana Lima, escrito por Sílvio Luiz Monteiro de Oliveira, que compartilho com você, prezado leitor. E o que ele tem de diferente? Tem lá suas imperfeições técnicas, sem dúvida. Pode nem ser um primor de versificação (não pretendo entrar nesse mérito). Mas traz algo que nós, escritores, perseguimos incansavelmente e nem sempre conseguimos: o selo da autenticidade. Porquanto, foi escrito por um morador de rua, um dos milhões de “homeless” (forma chique de caracterizar os sem-teto), espalhados pelo mundo afora.
Notem o grau de informação e de consciência da realidade mundial dessa vítima do mais terrível dos “apartheids”, o social, que possivelmente nem esteja mais viva, talvez consumida por alguma doença simples, que costuma ceifar organismos judiados e enfraquecidos como o seu.

O genocídio do mundo

A humanidade está com planos
Em ações coordenadas por diretores
Muitos mortos! Em poucos anos!
O porquê?... Destas inspirações dos escritores?

As mortes de coletividades são reportagens
Noventa e duas mil pessoas! Tibet
Oitenta e oito mil pessoas! Índia
Cem mil pessoas! Iraque

A humanidade perde pessoas de renome
Flora e fauna e o patrimônio histórico
Da humanidade sendo destruídos
Mas! As mãos artesanais continuam

Esta é a visão para os escritores realistas
No realismo seus escritores observam
Esta conduta humana, qual é a inspiração:
Revolta, extremismo, omissão ou negligência

Com todos estes fenômenos, os escritores
Escrevem suas poesias com reflexão ou inspiração
Sua vida está em situação de risco
Sua poesia torna-se eletromagnética

Inspiração ou reflexão se tornam poesias
Quem lê? Sua emoção é a paixão
Irradiada ao seu semelhante
Esta paixão sentida, sem amor ou ódio.

Estou, pois, certo ou não estou? Boa parte dos nossos escritores precisa ou não, urgentemente, de um demorado “banho de realidade”? Claro que sim! Só assim talvez esses privilegiados “homens de letra” deixem de lado as tantas e tantas histórias de vampiros, lobisomens, chupa-cabras e outras abobrinhas mais e tratem, finalmente, do que está bem debaixo dos seus narizes, mas que teimam em não enxergar.

Boa leitura.

O Editor.



O desverdecer do Recife

* Por Talis Andrade

As crianças não possuem nenhuma árvore de predileção.
Os namorados não encontram a sombra dos verdes ramos
para esconderem o primeiro beijo.

Recife, que fizestes do teu verde,
o verde das paisagens de Franz Post?

As meninas subiam nas árvores.
Em plena luz do dia,
eu via o céu estrelado.
As meninas subiam nas árvores:
nos cajueiros e mangueiras.
Os cabelos assanhados
- amarrados na cintura
sujos aventais -,
as mães vinham correndo:
-Meninas, desçam daí!
Se vocês caírem
vão perder a virgindade.

Recife, que fizestes de tuas árvores sagradas?

(Do livro “Romance do Emparedado”, Editora Livro Rápido – Olinda/PE).


* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).




O retorno

* Por Risomar Fasanaro

Toda a terra era feita de silêncios. De silêncio e sombras, de árvores e pássaros, de pássaros e árvores. A vida era um longo deslizar de águas e folhas, de asas e flores, mas um dia o chão rompeu-se, rasgando sombras e quietudes agitando gitiranas e gafanhotos.

Assustadas, as árvores viram surgir das entranhas da terra um ser desconhecido. Da terra viram quando brotou um ser feito de carne que se mexia e subia até mostrar-se por inteiro, desvencilhar-se do pó que o cobria, e arrastar-se por entre a grama.

Aterrorizadas, permaneceram imóveis. Galhos e folhas tão crispados, que nem a mais forte ventania conseguiria mexer nenhuma de suas folhas. Mais tarde perceberam que o novo ser emitia um som. Não sabiam de que parte dele saía, mas o acharam belo.

Belo como o canto dos pássaros, os raros seres de outra espécie que elas conheciam.

Procuraram nele folhas, mas não havia. Mesmo assim uma velha jaqueira logo o adotou para si, como se ele fosse um dos galhos que dela tivesse brotado. Não era. Com tristeza percebeu que ele não tinha raízes como ela e todas as outras. Também não tinha asas como os pássaros, por isso arrastava-se por todos os lugares.

Seu tronco era liso e sedoso como o talo de um lírio, o que a levou a tomá-lo por um vegetal recém-nascido.

E a jaqueira o amou desde o primeiro instante. Amou-o como só as árvores sabem amar – sem lhe perguntar quem era, de onde viera, e pensando em lhe dar tudo: folhas, flores e frutos. E assim foi. Não só com ela. Ele possuiu todas as árvores e o tempo passou como passam os rios.

O ser sem raízes não deu flores nem frutos, mas cobriu-se com todas as cores, todas as flores, todas as penas, todos os galhos. E comeu todos os frutos que desejou. Penetrou nas florestas e descobriu mistérios do verde que só as árvores conhecem. Mergulhou na alma dos rios, ouviu segredos dos igarapés e aprendeu os segredos dos deuses das florestas.

Por onde andava absorvia o melhor de todas as espécies, mas nada oferecia em troca. Devorador insaciável, por onde passava espalhava o medo e a destruição. E novos seres daquela espécie foram surgindo. Milhares deles arrastando-se pelo chão e logo depois caminhando pelas florestas, enganando pássaros, rios e peixes com seu canto. Enfeitiçando as matas com seu talhe esbelto, seu modo elegante de se movimentar por entre as árvores e de mergulhar nos rios.

A sombra das árvores já não conseguia ocultá-los; tomavam conta de todas as campinas, de todos os bosques. Já não havia frutos suficientes para alimentá-los, pois se a principio tiravam apenas o necessário, logo começaram a cortar galhos e troncos, a jogar frutos uns nos outros quando se desentendiam, ou apenas pelo prazer de jogar.

Pilhas e pilhas de troncos apodreciam sob a chuva, sem que isso os incomodasse.

As árvores já não floriam. Os poucos galhos secos e cinzentos se crispavam de revolta. Já não havia por que florir, por que enverdecer. Nos rios inundados de mercúrio, os peixes desapareceram. A floresta encolheu-se em seu cinza e desviveu luas e luas de incerteza e inquietudes.

Um dia um cipreste, distraidamente, tomou entre seus galhos a mão de um daqueles seres. Prendeu-a até esmagá-la e achou-a deliciosa. Comeu dedinho por dedinho, enquanto o sangue escorria por entre suas as folhas, encharcando-as. O ser gritava e se debatia, tentando livrar-se da árvore, mas não conseguiu.

Ao verem a expressão de felicidade do cipreste, as outras árvores a imitaram, e a euforia tomou conta da floresta, sob os gritos e protestos dos seres sem raízes.

Em poucos meses já nada mais restava, além da lembrança daqueles olhos azuis à hora do sol posto, saboreando seus frutos.

Nada mais havia daquele toque antes suave, depois grosseiro, das mãos que tiravam suas flores, seus frutos, que traziam máquinas poderosas que dizimavam suas irmãs. A floresta se calou. Nem mesmo o canto dos pássaros havia. Apenas o ruído estridente dos grilos e cigarras.

Agrotóxicos encharcaram a terra e nunca mais possibilitaram o nascimento de novos seres daquela espécie. Apenas silêncio e sombras, pássaros e árvores. Árvores e pássaros, e a vida se fazia em um longo deslizar de águas e folhas, de asas e flores.

* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.





Qualquer Idade

* Por Evelyne Furtado

Luiza adormeceu na casa dos trinta e nos sonhos tinha vinte e poucos. Então acordou na obrigatoriedade de se comportar como uma mulher de sessenta e tantos naquela manhã, em que lhe tiraram com apenas uma frase, o excesso de gravidade dispensável a uma mulher em qualquer idade.

Na semana seguinte sentiu como se dezesseis tivesse, embora se esforçasse para pensar com a mente de quarenta.

Nessa contradição lembrava Sinhá Rita, personagem de um conto de Machado de Assis, que trazia uma idade na certidão de nascimento e outra no olhar.

Agora Luíza tem todas as idades durante um só dia. Na frente do espelho alterna na avaliação: uma hora se vê como sempre foi; em outra estranha as novas linhas a lhe marcar o rosto.

No seu íntimo a incoerência se repete : em um momento age com esperança adolescente, para em seguida, com certo cansaço, recolher seus desacertos.
Assim Luíza segue sem fazer contas, mas com muita vontade de chegar aos noventa, vivendo muitos momentos felizes.

* Poetisa e cronista de Natal/RN



Tia Liginha

* Por Laís deCastro

U
ma casa derradeira
Que foi o primeiro abrigo
Subindo aquela ladeira
Ninho de pássaro antigo
Sobe um lamento distante
Um latido, um cão amigo,
Desce o sorriso constante
A quem é sempre querido
Um aplauso, em despedida,
O soluço, sufocante,
E ponto final na vida.


* Jornalista desde os 21 anos, quando estreou na tradicional revista Realidade, trabalhou 18 anos na Editora Abril, vários anos na Carta Editorial e outros mais na Azul. Ganhou 3 prêmios Abril, um concurso de contos infantis no Estado do Paraná e é autora do livro de histórias para adultos: “Um Velho Almirante e outros contos”, publicado pelo selo ARX (Siciliano). Atualmente dedica-se apenas à Literatura.



Quilômetro zero

* Por Luís Augusto Cassas


Estou absolutamente sereno.
Já nem sei se adquiri a transcendência
do sofrimento ou o vício da dor.

* Poeta de São Luís/MA