Flauta
sem boca à procura de música
* Por
Marco Vasques
ecoa
na voz violada a lâmina da guilhotina
e
o silêncio do cadafalso extrai as provisões da língua
a
palavra escoa da boca como flauta sem música
pois
a última nota jaz na corda que estrangula o pescoço
na
casa em que nasci tudo se doa sem cerimônia
da
carne em nevralgia ao beijo na mão do carrasco
morde
o verbo e trinca a sorte no próprio corpo
para
não entregar o sacerdócio do útero a outra casa
para
não comer o farnel das dores em outra mesa
sobretudo
para não morder a escuridão antes do tempo
e
erguer um sanatório na tessitura da pele
agarra
com os dentes a música durante o sono
porque
a telegrafia dos sons dorme no antigo
retrato
familiar onde o mutismo irônico da face
revela
o mutuário parentesco em moratória
e
no sorriso ancestral mais uma música perdida
porque
o silêncio pronuncia a afania da fraternidade
na
minha cama o desejo messiânico sufoca
a
passagem do dia e o reinado dos lençóis
na
isquemia absoluta de qualquer hedonismo
reduz
a imagem da valsa dos corpos
à
paralisia do timbre de uma voz que não ouço
de
um corpo congelado que não reencontro
de
um sorriso sujo desenhado no algodão que toca a carne
de
uma ilusão pregada nos olhos que não vejo
de
um braço amputado que se debate numa tela de
Modigliani
[e
que nunca foi pintado
na
minha carne o desejo messiânico sufoca
a
passagem dos anos e no vitral primitivo das horas
ecoa
na voz violada a lâmina da guilhotina
e
o silêncio do cadafalso extrai as provisões da língua
a
palavra escoa da boca como flauta sem música
pois
a última nota jaz na corda que estrangula o pescoço
e
tudo que nos resta ao final do dia são os olhares acusativos
daquelas
antigas fotografias amarelecidas num álbum
qualquer
e
o silêncio da numerologia estampada nos túmulos
a
soarem nos nossos ouvidos
flauta
sem boca à procura de música.
*
Poeta
e crítico de poesia. Bacharel e licenciado em Filosofia pela
Universidade Federal de Santa Catarina. Faz mestrado em Filosofia da
Linguagem. Autor de Elegias
Urbanas (Poemas,
2005, Bem-te-vi, Rio de Janeiro), Diálogos
com a literatura brasileira – volume I (entrevistas,
2004, EdUFSC/Movimento, SC/RS), Diálogos
com a literatura brasileira – volume II (entrevistas,
2007, EdUFSC/Movimento, SC/RS) e Harmonias
do Inferno (contos,
2005, edição do autor). Tem no preloFlauta
sem Boca (poemas)
e trabalha no Diálogos
com a literatura brasileira - volume III. Nasceu
em Estância Velha, 1975, vive em Florianópolis, mas é de Imbituba,
onde passou a infância.
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