Quanta
paixão existe na alma revolucionária
* Por
Urariano Mota
PAIXÃO
SEGUNDO URARIANO
Memélia
Moreira
Pátio
de São Pedro, Recife, que concentra uma das mais majestosas
representações da Arquitetura Colonial brasileira e onde os
revolucionários acreditavam estar a salvo do inimigo.
Nos
terríveis anos da ditadura mantive correspondência com alguns dos
mais notórios presos políticos do Presídio Tiradentes, em São
Paulo. Todos eles gloriosos militantes da Ala Vermelha do PCdoB.
Tanto com meu irmão, de quem guardo muitas cartas com o abominável
selo do DOPS, liberando a correspondência, quanto com Hélio Cabral
de Souza e Alípio Raimundo Viana Freire. Com meu irmão, conversas
familiares, rumos do país e, principalmente, conselhos para que eu
não me desviasse na profissão de jornalista. Foi meu irmão,
Antonio de Neiva Moreira Neto, quem me fez fincar pé na causa
indígena. Ele dizia que todas as trincheiras contra a ditadura eram
valiosas. Com Hélio Cabral falávamos da guerra do Vietnam, com a
certeza absoluta de que a História daria vitória aos guerrilheiros
E de música. Foi ele quem desenvolveu em mim o gosto pela música do
mais profundo Goiás.
Com
Alípio, conversávamos sobre os mais diversos assuntos. Cinema,
Pintura, Guerra do Vietnam (nós dois construímos um mapa na parte
debaixo do estrado de nossas camas. Eu, em Brasília, e ele no
presídio, avançávamos "nossas tropas" e sabíamos que
faltava pouco para ocuparmos o Vale do Mekong. Já havíamos vencido
a guerra politicamente, mas nós dois sabíamos que as pequenas e
importantes vitórias militares eram necessárias.
Mas
as mais longas cartas entre nós dois aconteciam quando o assunto era
Literatura. E um dia, conversando sobre Gustave Flaubert (que estou
relendo pela terceira vez), Alípio escreveu, "On mange bien
chez Flaubert".
Sim,
Alípio, on a bien mangé avec Flaubert. Et surtout avec Proust et
ces "madeleines", toujours à la recherche du temps perdu.
E
agora, Alípio, meu querido baiano, passados quase 50 anos daqueles
tempos horríveis, estou diante de um livro onde ao contrário de
Flaubert, on ne mange pas de tout. On crève de faim. A fome se
distribui nas 320 páginas do original. Estou te falando de "A
Mais Longa Duração da Juventude", de Urariano Mota, colega
nosso, jornalista mas, sobretudo, um escritor, um filósofo, uma
pessoa sábia que em uma página te faz viver passado-presente-futuro
como se não houvesse hiatos.
A
fome daqueles jovens, personagens reais da longa duração de nossa
juventude, não se limitava a franguinhos assados ou polpudos filés
deixados na mesa de um bar. Eles tinham fome revolucionária. De
transformar o mundo, de eliminar as injustiças sociais, de evitar
que nossa sociedade caísse no abismo da barbárie. E essa fome
revolucionária lhes inibia ao ponto de lhes deixar com fome de
paixões. Elas eram interditas, clandestinas, quase criminosas,
porque na moral revolucionária vigente, deixar que a paixão
explodisse significava "desvio ideológico".
Era
o tempo dos amores interrompidos, proibidos, dos beijos roubados
porque a moral ideológico-sexual era rígida. E eu me pergunto, como
se pode fazer uma revolução em que o amor, a paixão deve ser
jogada para um segundo plano, uma revolução que nos massacrava
permitindo apenas a tortura dos amores platônicos?
E
enquanto nossos mais belos sentimentos amorosos eram aniquilados pela
moral revolucionária, "eles" acreditavam que vivíamos em
total promiscuidade. E nós, perseguidos pelo inimigo externo, não
vencíamos os dragões ideológicos. Éramos, ou tentávamos ser
"puros". Aqueles meninos, loucos de paixão, sufocavam uma
exigência da natureza animal que é assegurar a manutenção da
espécie. E preservavam a virgindade das namoradas. De todas as
formas possíveis. Estratégias para saciar o desejo sem que isso
implicasse na perda do hímen, essa película responsável por
carnificinas em muitas culturas.
A
tradução das estratégias vem de forma resumida e elegante num
diálogo que fariam os jovens de hoje gargalhar.
O
narrador e o personagem Luiz do Carmo circularam pelos bordéis à
procura de prostitutas. Cheios de culpa pelo comportamento que
entendiam como "exploração" da mulher.
"Que
depressão miserável, mesquinha, caiu sobre nós. Enquanto
caminhávamos sobre os paralelepípedos da Vigário Tenório, eu lhe
perguntei, sem poder olhá-lo:
–
Você não pegou nenhuma?
E
ele, a contragosto:
-
Não, é contra os meus princípios.
.....................................................
-
Como você faz? Não sente necessidade?
–
Eu tenho namorada
..................................
–
E você faz sexo com ela?
.........................................
-
Sim...Não.
-
Sim ou Não?
-
É sim...sim, sim. Mas não é um sexo completo.
-
Hum...Mas completo até onde?
...................................................
....-
Eu respeito a virgindade dela, entende? Eu respeito"
O
diálogo é uma evidência explícita do quanto minha geração que
fazia resistência se negou. O quanto controlou emoções que são
essência da natureza humana e que deveriam fluir com a mesma
naturalidade com a qual o sangue navega em nossas veias.
Perdemos?
Hoje, quando vejo minha terra esfarrapada, acredito que sim.
Perdemos. Mas penso sempre no meu mestre maior, no mestre Darcy
Rbeiro com quem tive o privilégio de conviver todas as
quartas-feiras à noite, num grupo que ele selecionou para pensar o
Brasil. Bebíamos whisky e discutíamos nossa terra, esse amor sem
retorno. E, ao pensar em Darcy, relembro uma de suas mais poderosas
frases. Elas são o mapa de uma vitória. A vitória de nós, os
derrotados pela História.
"Fracassei
em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças
brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o
Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas
os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de
quem me venceu".
Darcy,
meu amigo, esse resumo da tua vida em sete frases é o que me ilumina
quando vejo os caminhos apresentando momentos sombrios.
Bom,
para analisar "A Mais Longa Duração da Juventude" livro
de Urariano Mota, esse jornalista, escritor e filósofo pernambucano
a quem não conheço e com quem converso muito (obrigada Mark
Zuckerberge, ou, "Tio Zucka", como diz Renata Lins, pessoa
a quem muito admiro) dividi a escrita de Urariano em dois eixos. Caso
contrário eu me perderia em sofrências pelas cenas que agrediram
nossa geração e pelo amor à luta que se espalha em todas as
páginas. São mais de 300. Li duas vezes as mais de 300 páginas. A
segunda leitura doeu ainda mais porque eu já sabia qual cena se
seguiria. E sabia também o quanto ela me daria punhaladas.
O
livro é um suceder de paixões. Paixão na sua essência do
apaixonar-se. Paixão que se desdobra no sentido mais amplo, o do
amor. O amor das imensidões. Amor ao povo, e aos infinitos brasis
com os quais convivemos mesmo que nos pareça invisível. Da paixão,
vou ao segundo eixo. O da fome. Fome pela transformação de uma
sociedade injusta; fome da comida que era pouca e assim mesmo
dividida e, principalmente, a fome de viver toda uma vida em um
momento. Entre a Fome e a paixão, incluo a alma de um poeta.
Urariano Mota é poeta. Mesmo na descrição dos momentos mais
trágicos a poesia está presente. O seu "Eu" profundo de
poesia, um eu que também se nega quando ele tenta ignorar os
mistérios da vida, entre eles, os pressentimentos que o perseguem
até na mesa de um bar do pátio de São Pedro naquela cidade do
Recife palco das resistências narradas em "A Mais Longa Duração
da Juventude". Um eu que filosofa e que se aproximando dos 70
anos, é aquele mesmo menino magro, que se considerava feio no
passado, mas que agora descobre ser uma vida intensa dedicada à luta
a fonte da sua beleza.
Conversei
com o autor algumas vezes e lhe disse que se tivesse capital criaria
um roteiro turístico no Recife percorrendo as ruas, restaurantes,
bordéis, pensões, a praia da Boas Viagem, Porto de Galinhas e
outros logradouros que em vários momentos foram cenários daqueles
meninos que carregavam no peito o ardor revolucionário; daqueles
pós-adolescentes que eram feridos de morte quando cada companheiro
caía nas mãos dos nossos implacáveis inimigos, entre eles Cabo
Anselmo e o delegado Sérgio Fleury. E mais, que produziria um filme
cm inspirações de Jean-Luc Godard dos anos 60/70 e Fellini. A
viagem daqueles combatentes a Porto de Galinhas é felliniana. Mais
especificamente, uma "Dolce Vita" de uma juventude que
criava situações que poderiam subverter a perversa ordem social
vigente e cujas armas eram o sonho, a palavra, uma arma talvez
enferrujada e um simples mimeógráfo guardado sob cuidados. Um dos
mais revolucionários instrumentos da nossa geração.
Todo
leitor, do ocasional aos totalmente viciados, escolhe no livro que lê
os momentos mais marcantes, os parágrafos mais intensos, e também
elege seus personagens favoritos. Os favoritos do leitor nem sempre
coincidem com os preferidos de quem escreveu o livro.
No
meu caso, os personagens para sempre inesquecíveis são "Vargas"
(leia com um "R" carregado como pronunciam os de língua
espanhola), "Gordo", uma verdadeira enciclopédia musical e
Luis do Carmo. Há muitos outros. Zacarelli, por exemplo, Selene,
direção da UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas),
Torquato de Moura, "guardião das virtudes subversivas",
Narinha, Marx, sim, Marx e Lênin, filhos de um pai comunista, já
velho e o primeiro a sentir o cheiro da infâmia que exalava do Cabo
Anselmo, Zé Batráquio, e ela. Refiro-me a Soledad Barrett, uma
quase-menina que, dentre todos que sucumbiram naqueles anos tristes
foi a mais traída. Traída pela paixão. A mulher bonita, forte,
marcada em lutas pelo nosso continente, musa do poeta Mário
Benedetti, apaixonou-se por um homem abjeto chamado "cabo
anselmo" (com letra minúscula mesmo porque os infames não
merecem ser maiúsculos em nenhum momento). Se em "Soledad no
Recife" ele apenas abria a cortina da paixão por Soledad, nesse
segundo de sua quase-autobiografia, ele a escancara. Soledad foi e
será sempre o grande amor de Urariano. Amor confessado com todas as
letras quase no final de "A mais Longa Duração da Juventude",
quando diz, "A mulher que em legítimo platonismo eu amei.
Amo.". O legítimo platonismo se transformou no amor eterno,
porque agora Soledad vive na eternidade, na imortalidade.
Há
grandes e inesquecíveis momentos. Muitos, principalmente aqueles nos
quais os jovens revolucionários, militantes de organizações
armadas de esquerda se reuniam num bar e discutiam Música,
Literatura e o lindo horizonte pelo qual lutam, a pátria socialista.
Os dois momentos que mais me emocionaram foram a viagem dos
revolucionários do Recife a Porto de Galinhas, dentro de uma
Vemaguete, às quatro da manhã de um sábado, sem sequer conhecerem
o caminho entre as duas cidades e passando riscos reais de morrerem
num acidente, porque Alberto, o único que dirigia, dormiu várias
vezes ao volante, e tudo porque, "Pasárgada não podia
esperar..."
O
outro momento que me marcou e, aqui, pela tragédia, é também uma
viagem. Talvez a última antes de ser atingida pelas balas da
ditadura. A viagem de Vargas no ônibus em que embarcou depois de
dizer à advogada Gardênia que era um homem morto, que já estava
sendo caçado pelos homens de ouro do delegado Fleury e pelo infame
cabo Anselmo. Ela o aconselha a fugir, mas ele rechaça a ideia para
não abandonar "Nelinha", sua mulher que já era mãe da
menina Krupskaia. Ah, quanta paixão existe na alma revolucionária!.
Entra no ônibus no ponto da ponte Duarte Coelho e segue pela Avenida
Guararapes, Capibaribe, Largo da Paz, Afogados, Ponte do Motocolombó
num monólogo com sua consciência, com a certeza da morte, com o
desespero de não poder salvar sua pequena família. Esse talvez seja
o mais dramático momento do livro. "Vargas" foi preso,
morto e carregado para a Chácara São Bento onde os torturadores de
Fleury o posicionaram ao lado de Soledad, alterando a cena do crime.
Nenhum dos mortos da Chacina da Chácara São Bento, em janeiro de
1973, morreu naquele lugar.
Os
fatos são todos reais, mas os nomes são fictícios. Ou, como
diríamos na época, todos codinomes.
Convido
a quem me lê nesse momento a ligar um aparelho que toque
música.Youtube, Ipod, CDPlayer, o que for, até mesmo uma vitrola,
toca-discos ou um gravador com as já jurássicas fitas K-7. Não
precisa pôr o som no último volume. Deixe apenas o suficiente para
não interromper a leitura do livro. E, do começo ao fim das 320
páginas de "A Mais Longa Duração da Juventude" ouça
Ella Fitzgerald. Sugiro que "I Wonder Why" seja a primeira
música. E, se pensarem em mim, ouçam "Dream, a Little Dream of
Me". Vamos, me dê sua mão e vamos passear pelo Recife, aquela
linda cidade do Recife que se espelha sobre um rio cruzado pelas
pontes que, de tantas, fazem inveja a Veneza. Recife, cidade que ao
lado de Belém e Porto Alegre simbolizam, para mim, a rebeldia do
nosso povo, e protege uma pérola. Olinda. E é lá onde Urariano
Mota, esse poeta, escritor, guerreiro a quem admiro sem nunca tê-lo
encontrado vive hoje. Morar em Olinda não deixa de ser uma
recompensa por uma vida entregue à resistência.
"Quando
reflito o que vi, noto que nossa vida começa a partir de um instante
fora do nascimento. Ela começa naquele minuto que define nossos
dias, que ilumina o passado, presente e futuro. O instante definidor
como a linha da vida, na palma da mão lida por uma cartomante que
não esperávamos".
Essas
são as três primeiras frases do livro do jornalista e escritor
(mais que isso, poeta) Urariano Mota, pernambucano, E a partir dessa
frase pode-se dizer que a vida desse homem começou no instante em
que ele inicia sua luta revolucionária para derrubar a ditadura que
se instalara no Brasil, quando ele atingia a puberdade. E dá seus
primeiros passos de consciência um pouco mais tarde.
Quantos
anos tinham Urariano, ou Júlio, quando aconteceu a primeira paixão?
Exatos 19. E também foi sua primeira paixão platônica. Houve
outras. Urariano apaixonou-se por Ella Fitzgerald. Comprou um LP com
suas músicas. Amor platônico, irrealizável, porque Urariano não
tinha dinheiro para comprar uma "vitrola". A compra
provocou protestos de Luís do Carmo, um sonhador de pés no chão. E
Urariano, naquela miserável pensão "Treze de Maio", na
Avenida Princesa Isabel, no Recife, sob um calor intenso do verão
nos trópicos, sem vitrola, acariciava a capa do LP como se
acariciasse o corpo de uma mulher. O corpo de Ella, talvez. Ou o
corpo da mulher que viria. A capa é quase a pele da cantora, da
mulher que não podia ter.
E
ele solta aquela dor antiga dizendo, "quero ter Ella, acariciar
sua capa (que pobreza, meu Deus, dói até a lembrança neste
instante. Quero antegozar a sua voz, a doçura que apenas ouvi por
segundos e me derrubou num encanto..."
I
wonder why. Urariano ainda busca as respostas para essa pergunta
sussurrada na voz de mel de Ella Fitzgerald.
Urariano
foi de muitas paixões. Não sei quantas. Mas em seu leque, apenas
uma das peças não estava integrada à resistência brasileira e é
justamente a figura de Ella Fitzgerald. Porque Selene, a
quase-menina, dirigente da UBES cujos joelhos e parte das pernas
foram queimadas por ácido jogado pelos estudante de direita da
Universidade Mackenzie, na "Batalha da Maria Antonia" em
São Paulo, estava na resistência. Com fome, pedia uma sopa, depois
de exibir o quadro paupérrimo com o qual convivia o movimento da
oposição armada. Ela estava com fome. E sem cigarros. Rígida nos
códigos da conduta revolucionária, ela atraía a paixão dos que a
cercavam. Exibia belas coxas, exibia as coxas na minissaia para que
não percebessem as cicatrizes do ácido que a mutilou. E Soledad, a
paixão maior e eterna, bom, Soledad era uma revolucionária
latino-americana que já circulara por outros países do nosso pedaço
americano dedicando-se à luta. Essas três paixões foram todas
vividas platonicamente, em segredo, silenciadas. Em Soledad ele deu
um beijo roubado no rosto e pediu desculpas. Não resistiu, recolheu
as desculpas e passou as mãos nos lábios daquela mulher discreta e
forte cujo nome deveria ser sinônimo de "revolucionária".
Mas
se as paixões eram platônicas, a fome era real. E Urariano, o único
entre os demais a ter um emprego. Ele datilografava (E percebo, neste
momento, que há as gerações que hoje estão na faixa dos 30, 40,
que jamais conjugarão o verbo "datilografar") guias de
transporte de material elétrico, num galpão coberto com telhas de
zinco, pagava a sopa da dirigente estudantil. Datilografava guias e
era "suspeito de gostar de poesia". Sim, gostar de poesia
sempre nos colocou entre os suspeitos. Não havia dinheiro nos bolsos
ou nas contas bancárias dos heróis da resistência. E a fome os
perseguia.
"Em
1970 o almoço era pouco, dividi-lo era o mesmo que ficar com
meia-fome. E meia-fome ainda é fome". Apesar dessa penúria,
Julio/Urariano e seus companheiros, mesmo com o estômago vazio,
tinham consciência de que "quem possui o que sonha não é
pobre. Nós nos alimentávamos do sonho uns aos outros".
E
o sonho era tão sonhado, tão vivido, que a 'companheira Selene",
das pernas queimadas com ácido, ao expor a situação do movimento,
com a firmeza de quem guarda a convicção da vitória pela luta diz:
"Companheiros,
temos sérias dificuldades de sobrevivência. Física, grana,
alimentação, tudo...Mas o que são as dificuldades do Socialismo,
companheiro? O que são as dificuldades diante do heroísmo do
vietcong?".
O
heroísmo não era apenas do povo Viet. O heroísmo era daqueles
brasileiros pessoas que se encontravam na faixa cinzenta entre o fim
da adolescência e o início da idade adulta que entregaram sua
juventude para a construção de uma sociedade menos injusta. Quem
sabe, socialista. E aí penso nos meus irmãos Sonsonho e Gagocha
que, sem passarem por essas necessidades também sonharam, também
entregaram sua juventude porque sonharam.
Os
trechos de "A Mais Longa Duração da Juventude" onde se
expõem as carências do mínimo derrubam um mito. A Direita na sua
incansável campanha para desqualificar a luta que nos concederia um
mínimo de Democracia espalhava a ideia de que os guerrilheiros do
Brasil eram todos "filinhos de papai", filhotes da
burguesia. NÃO e NÃO. Havia pessoas pobres, operários,
desempregados, professores mal pagos, mas incansáveis, trabalhadores
de um barracão coberto de zinco que estavam imersos na luta política
e na luta pela sobrevivência.
E
essa verdade aprendida no livro de Urariano Mota teve para mim não
um gosto de vingança contra os ditadores e seus capatazes, mas uma
esperança de que um dia, num futuro que talvez eu não alcance, os
pobres, os miseráveis tomem, retomem as rédeas de um mundo com a
qual ainda sonho.
Mas
mesmo real, não cinematográfica à Charles Chaplin no magistral "Em
Busca do Ouro", onde querido "Vagabundo", delirando de
fome degusta sola de sapato como se fosse um prato apetitoso, o fato
acontecido no "Restaurante Coqueirinho" no romance, nos faz
rir e chorar. A churrascaria me remete a Carlitos.
Aqueles
jovens que discutiam T.S. Elliot, Balzac, Proust, Dostoiévski,
Kafka, que ouviam Milton Nascimento, frevos clássicos, frevos
anônimos, que liam e discutiam Marx, Engels e outros filósofos,
voltando do Cine Coliseu tinham fome. Ou dividiam uma cerveja ou
comiam. Mas cerveja provoca fome. Nesse momento, um casal na mesa
vizinha come um churrasco. Comem um pouco e deixam a mesa. E os
revolucionários criam uma pequena dissidência entre a dignidade e a
fome. A comida já estava paga. A fome impagável. A agilidade era
fundamental. Pegar a comida deixada e paga antes que "Topo
Gigio", o garçom conhecido, chegasse. Venceu a fome. Quase
saciados, o choque é seguido pela vergonha. . O casal retornou à
mesa. Um pedido de desculpas. E o homem do casal, sentencia, "Podem
ficar".
"Estava
escrito e não sabíamos. É do gênero da felicidade durar menos do
que esperamos", reflete consigo o poeta-guerrilheiro.
Eles
eram assim, os guerrilheiros, aqueles pós-adolescentes que se
preparavam com ardor para o momento de pegar nas armas, de sacrificar
até à morte pela derrubada de uma ditadura e construir a pátria
socialista.
Os
fatos estão narrados como se fossem um jorro, um desabafo. Não
faltam no livro observações com característica de autocrítica.
Não falta também um tanto de desengano com o comportamento de quem
ainda estampa o rótulo de "esquerda" enquanto exercita
práticas da direita.
Além
dos fatos da triste História de um país que entrou em decadência
antes de chegar à maturidade, Urariano Mota nos concede reflexões
de quem já encontrou as respostas exigidas, mas sabe que ainda há
mais a questionar e responder. De todas as reflexões, transcrevo
aquela que também me responde alguns questionamentos.
"A
vida lembra a intensidade de uma canção. Na reconstrução pela
minha memória, a vida é intensa, profunda e breve. Mais próximo do
que desejo dizer: a memória da vida é uma brevidade que não
termina. Há um ponto e uma repetição indefinida. Melhor, não um
ponto, são reticências..."
Mas
vamos em frente, companheiro, porque diria meu mestre Darcy Ribeiro:
"Só
há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não
vou me resignar nunca".
Nós
também não, amigo.
Obrigada
pelas lições aprendidas nessa nossa longa duração da juventude.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa,
membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance
“Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici,
“Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus”, “Dicionário
amoroso de Recife” e “A mais longa juventude”. Tem inédito “O
Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros
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