O
contorcionista
* Por
Assionara Souza
É
mentira. O contorcionista sente dores, sim. Sempre acredita a cada
apresentação que esta certamente será a última. Concentra-se
atrás da coxia fazendo e refazendo séries de alongamentos até
chegar a vez de entrar no palco.
Nascido
em uma família de contorcionistas renomados, houve assombro e bater
de pratos quando os pais e em seguida os irmãos e todos os demais
parentes e mesmo os amigos descobriram: O menino não leva jeito pra
coisa. O menor jeito. Não. Não leva.
Guardaram-no
dentro de uma caixa durante toda a adolescência para ver se ele
adquiria nesse mínimo espaço habilidades que não viriam
naturalmente. Seus longos e finos braços abraçavam as pernas
encolhidas e com a testa encostada aos joelhos ossudos chorava sem
compreender.
Através
de pequenos furos no papelão, assistia ao mover dos corpos compactos
enrolados elásticos soltos lépidos dos seus irmãos que viviam
fazendo pouco de sua nula aptidão. Dois em um. O terceiro era ele.
Até que fugiu de casa levando somente o sobrenome. E perguntavam
onde quer que ele fosse parar se por acaso não pertencia à estirpe
da famosa família formada por excelentes contorcionistas.
Cansado
de não saber inventar respostas, disse que sim. E desde então lá
está seu sobrenome em todos os cartazes das principais atrações do
circo. Todas as noites, envolto em um círculo de luz, ele desenvolve
posturas que não sabe como aprendeu. E sofre. As dores são tão
violentas a ponto de convencê-lo de que toda profissão, por seu
martírio, vem a ser uma espécie de ritual religioso.
*
Escritora potiguar.
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