Amigos e ocasiões
A
amizade é um fenômeno mal compreendido e, por isso, gera inúmeros
equívocos e decepções. Muitos, por exemplo, que acham que têm “um
milhão de amigos”, não raro não têm nenhum. Outros tantos, que
julgam não contar com nenhum, os têm em profusão.
Esse
sentimento benigno é, e deve ser sempre, absolutamente espontâneo.
Não se prende a qualquer compromisso, regra ou obrigação. Nasce à
nossa revelia, como o sol num dia de céu azul de primavera, como as
chuvas de verão, como as quatro estações do ano e assim por
diante. E quando acaba, o faz da mesma forma. Ou seja,
espontaneamente, de mansinho, sem nenhum alarde ou drama e sem deixar
ressentimentos no seu rastro.
Não
somos amigos de alguém porque o escolhemos ou porque desejemos isso.
E a recíproca, claro, é verdadeira. Não se trata de ato de
vontade, de escolha, de apuração, em outra pessoa, de virtudes que
julguemos que ela possua (e que raramente, de fato, tem).
Há
quem confunda, amiúde, amizade com admiração. Não são, todavia,
coisas iguais. Ao contrário, são muito distintas e com
características bem definidas. Posso, por exemplo, admirar
profundamente determinada pessoa e, no entanto... não ter a menor
afinidade com ela e não desejar nenhum tipo de relacionamento com a
mesma. Ou posso ser admirado por ela, mas “nossos santos” não se
cruzarem.
Acho,
por isso, uma bobagem sem tamanho a tentativa de alguns de “testarem”
amizades. Se elas precisarem de algum teste para serem comprovadas é
porque não existem, nunca existiram e jamais existirão. Por que?
Porque estará rompida sua característica fundamental: a irrestrita
confiança mútua. Quem testa é porque não confia. E quem não
confia em mim (mereça eu confiança ou não), não é e jamais pode
ser meu amigo. E ponto final.
O
site de relacionamentos Orkut no passado e o Facebook agora
ensinaram-me muitas coisas a esse propósito. Ajudaram-me, por
exemplo, a distinguir quem me dedicava (e me dedica), de fato,
genuína amizade e quem apenas desejava (e deseja) um
“correspondente” assíduo, sofisticado, que escreva maravilhosas
(e hipócritas) mensagens laudatórias, que lhe massageiem o ego.
Felizmente,
pelo menos no meu círculo de amigos, essas pessoas são poucas. Ou,
na verdade, eram, pois, os que queriam um “admirador”, e não um
amigo, romperam imediatamente esse vínculo informal que tinham
comigo (foram mais de cem nos últimos dias os que agiram assim).
Classificaram-me de “fantasma” (Deus do céu, será que morri e
esqueceram de me avisar?!) e (usando um termo típico de
informática) “me deletaram”.
Azar
deles! Não entenderam que, para se “ter” amigos, é preciso,
antes de tudo, “ser” amigo. Claro que nunca foram e que jamais
serão. Devo ficar aflito por isso? De forma alguma! Essas pessoas
infringiram uma das únicas e mais importantes regras informais da
amizade: a da não exigência. Não se pode, em circunstância
alguma, exigir o que quer que seja de alguém que achamos que seja
nosso amigo. E vice-versa. Tudo tem que ser sempre natural,
espontâneo, sem interesses e nem testes e muito menos obrigações
prévias.
Li,
recentemente, pitoresco texto de Mário de Andrade a esse propósito,
que partilho com você, paciente leitor. O autor de “Macunaíma”
afirma, em determinado trecho: “Que bobagem falar que é nas
grandes ocasiões que se conhecem os amigos! Nas grandes ocasiões é
que não faltam amigos. Principalmente neste Brasil de coração mole
e escorrendo. E a compaixão, a piedade, a pena se confundem com
amizade. Por isso tenho horror das grandes ocasiões. Prefiro as
quartas-feiras”.
Só
não concordo com Mário de Andrade quanto ao dia da semana de sua
preferência. No mais... Da minha parte, desde os tempos de namoro (e
isso já faz muuuuito tempo), prefiro as quintas-feiras. Era nelas
que passava momentos inolvidáveis com minha eterna amada (hoje minha
esposa), de olho nos sábados e domingos. Eram esses os três dias
que, na época, os pais consideravam “adequados” para se namorar.
E sempre sob sua diligente supervisão.
Eram
outros tempos, claro. Não havia o tal do “ficar”, tão do gosto
da mocidade de hoje. Eram, isso sim, namoros “comportados”,
vigiados zelosamente por alguém da família, via de regra algum
irmão mais novo da namorada (que subornávamos desavergonhadamente,
para que nos desse trégua e nos deixasse a sós por alguns preciosos
minutinhos que fossem).
Hoje,
logo no primeiro encontro, após trocar não mais do que meia dúzia
de palavras, lá vai o casal para algum motel, gozar das delícias do
sexo. Ou seja, “a entrada” da refeição passou a ser
substituída: é, agora, o próprio banquete (e vice-versa).
Os
namorados romperam o que havia de melhor no namoro, que era o
mistério, a imaginação, a mútua conquista, tarefa que exigia
paciência que se rivalizasse com a do patriarca bíblico Jó. Mas
quando se chegava aos finalmente... Era um delírio! Era o transporte
do céu para a terra!
Naquele
tempo, tocar, mesmo que de leve, como que sem querer, os seios da
garota, era uma façanha heroica! E o beijo... Nem é bom falar! A
garotada, hoje, ri, com ar de superioridade, quando isso vem à
baila. Mal sabe o que está perdendo com sua afoiteza! Por isso, por
causa daquele exercício de controle e de paciência que mantínhamos
(ou também por isso), os casamentos que resultavam desses namoros
eram para a vida toda. Hoje...
Bem,
o assunto tratado não era bem este. Mas como todo conto exige novo
ponto... E essa história de que é nas grandes ocasiões que se
conhecem os amigos é coisa de quem, de fato, não tem a mínima
noção do que são amizades. Como Mário de Andrade, portanto,
também tenho horror às grandes ocasiões. Mas continuo preferindo
as quintas-feiras...
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Algumas amizades ficam pelo caminho depois de uma decepção. Nem sei dizer se seriam de fato amizades ou um encontro casual e sem futuro.
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