O dia mais trágico da vida de Machado
de Assis
O amor é sentimento de extremos. Não comporta meios-termos. Enquanto dura, e é correspondido, nada nos
produz maior satisfação – física, mental, emocional etc - do que ele. É algo
tão profundo e transcendental, que ninguém conseguiu, jamais, descrever, de
forma convincente e consensual, a felicidade que ele proporciona. E olhem que,
desde quando o homem aprendeu a se expressar por palavras, bilhões (sem
exagero), ao longo da trajetória humana na Terra, já tentaram fazê-lo, em vão.
Nem poetas, nem romancistas, nem filósofos, nem ninguém conseguiu essa façanha.
Paradoxalmente, é, também, o sentimento que causa a maior dor que alguém possa
sentir. Isso ocorre, óbvio, com a separação. E não me refiro àquela que se dá
quando ele acaba, que é tão comum. Essa também faz sofrer, mas esse sofrimento
é fichinha, não é nem remotamente parecido com o da perda definitiva, por
morte, de quem amamos sem reservas e nem condições (o que, convenhamos, é
sumamente raro).
São incontáveis os casos de casais, com longa convivência
sem que o amor tenha esfriado ou sido abalado, em que, quando um dos dois
amantes morre, o outro o acompanha a seguir: ou em meses, ou em semanas ou em
escassos dias depois da “partida para a “eternidade” da parceira (ou parceiro).
Li, não faz muito, que um homem (se não me falha a memória, nos Estados
Unidos), que estava perfeitamente saudável, morreu quinze minutos após a morte
da esposa, com a qual conviveu por sessenta anos, entre namoro, noivado e
casamento, sem nenhuma explicação lógica. Quem sobrevive, no entanto, experimenta
um sofrimento indescritível e inigualável. Foi o que Machado de Assis,
certamente, sofreu, a partir do fatídico dia 20 de outubro de 1904,
provavelmente (ou certamente?) o pior da sua vida, tormento que durou quase
quatro anos, até quando ele também morreu. Nessa data ocorreu a morte de
Carolina Augusta Xavier de Novaes Machado de Assis, com a qual o escritor viveu,
na mais completa harmonia, por 35 anos.
Não pensem que estou fazendo drama barato, lançando mão de
expediente sensacionalista, tentando fazer (má) literatura com o sofrimento de
alguém. Não estou! Todos os biógrafos do grande escritor, baseados em cartas,
testemunhos e farta documentação, são unânimes em registrar que a morte da
esposa arrasou, mental e emocionalmente, aquele homem já doente. E que ele jamais se
recuperou do baque. É certo que, dotado de uma força mental e espiritual
invejáveis, Machado de Assis não não deixou de cumprir nenhum compromisso
assumido (inclusive profissional, como servidor público), tanto intelectual,
quanto social. Mas bastava olhar para ele para ver um homem sem rumo, sem
entusiasmo, sem alegria, sem esperanças ou perspectivas, sem nenhuma vontade de
viver. Era alguém que ansiava, apenas, a morte, para se encontrar, alhures
(ninguém sabe onde e nem como) com o amor da sua vida.
Carolina morreu pouco antes de completar 70 anos de idade,
após sofrer de “tumores de intestino” (provavelmente câncer, doença na época
praticamente desconhecida), certamente com dores insuportáveis. Imaginem o que
é você ver a pessoa que ama definhar, se esvair diante de seus olhos, sem poder
fazer coisa alguma para ajudá-la! E, pior, pensem no desespero que é assistir à
sua morte, pondo fim, até, áquelas esperanças loucas que temos nessas
circunstâncias de um milagre, que não acontece!!! É terrível! Machado de Assis,
insisto, nunca se recuperou desse baque. Tornou-se taciturno, arredio, calado,
além de ter suas doenças (notadamente a epilepsia) agravadas. A saudade que
sentia da mulher, o amor de sua vida, era insuportável. Tanto que se tornava “palpável”
até para o mais distraído dos seus amigos e interlocutores.
Ele próprio (embora discreto e reservado como sempre foi)
confessou sua angústia e desamparo, como atesta esta carta que escreveu a
Joaquim Nabuco em que, em certo trecho desabafou: “Junto a isto (sua profunda
tristeza) a solidão em que vivo, depois que minha mulher faleceu. Soube por
algumas amigas dela de uma confidência que ela lhes fazia; dizia-lhes que
preferia ver-me morrer primeiro por saber a falta maior que ela me faria. A
realidade foi talvez maior que ela cuidava; a falta é enorme. Tudo isso me
abafa e entristece. Acabei”. A visita ao túmulo da esposa tornou-se, dali por
diante, programa obrigatório de todos os domingos, enquanto teve condições de
andar.
Em outra carta a Joaquim Nabuco, Machado de Assis expressou
seu mais intenso desejo de então: o de morrer, para se reunir, para sempre, a
Carolina. “Aqui me fico, por ora na
mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a
minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito
tempo em recordá-la. Irei vê-la, e ela me esperará”, escreveu então. Estou convicto
que o amor não depende de nada: nem de beleza, nem de bondade, nem de
inteligência, nem de fortuna e nem de qualquer outra virtude para nascer.
Surge, de repente, sem aviso, do nada e, se o cultivarmos adequadamente, não
morre jamais. Pode até atenuar-se, mas não desaparecer. Imaginem, então, se a
pessoa amada além de tudo for virtuosa! Aí torna-se, mesmo, irresistível e
inexpurgável. Era o caso de Carolina, que era, sobretudo, pessoa bondosa.
Sou forçado a concordar com o que o ator e diretor cinematográfico
Woody Allen – aliás, admirador confesso da obra de Machado de Assis, de quem
revelou ter lido todos os livros traduzidos para o inglês – afirmou, do seu
jeitão, digamos, “destrambelhado”, em recente entrevista: “Amar é sofrer. Para você
evitar de sofrer, não deve amar. Mas, dessa forma vai sofrer por não amar.
Então, amar é sofrer, não amar é sofrer, sofrer é sofrer. Ser feliz é amar, ser
feliz, então, é sofrer. Mas sofrer torna-nos infelizes. Então, para ser infeliz
temos que amar, ou amar para sofrer, ou sofrer de demasiada felicidade”. E não
é?!!! Machado de Assis, após a perda da
esposa, certamente concordaria com Woody Allen, caso fosse seu contemporâneo,
embora duvide que se expressasse de modo tão enrolado ao exprimir essa verdade..
Eu concordo!!!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Um show de amor a Literatura, a Machado de Assis e ao Amor.
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