Mãe, irmã e esposa
A influência que Carolina Augusta Xavier de Novaes teve na
vida (e por consequência, na obra) de Machado de Assis é inestimável. O
casamento, que durou 35 anos e que só terminou com a morte da esposa, aos 70
anos de idade, só fez bem, e em todos os sentidos, ao escritor. Convenhamos,
nem sempre isso acontece, sobretudo se o casal não tem filhos. E este não teve
nenhum. Quase sempre, a rotina finda por “envenenar” os mais promissores
relacionamentos conjugais. A paixão se esvai, a atração sexual esfria e se não
for cultivada sólida amizade, não restará mais nada, senão tédio e arrependimento.
Aliás, isso nem é novidade para ninguém. Notamos esse fato, a todo o momento,
ao nosso redor. Há casos em que, embora a indiferença se instale, os cônjuges
se “toleram” pelo resto da vida. Em outros tantos, contudo, não é raro uma das
partes resolver “roer a corda” e
partir para outra. Isso resulta em separações, nem sempre consensuais ou tranqüilas.
Nada disso, porém, foi o caso de Machado de Assis.
O escritor só “cresceu”, em todos os sentidos – como homem e
como intelectual – na companhia de Carolina. As informações que colhi, a esse
propósito, às quais dou pleno crédito, são as da enciclopédia eletrônica
Wikipédia (em sua maioria) e num ou noutro biógrafo do “Bruxo do Cosme Velho”. Coincidência
ou não, Machado de Assis “deslanchou” para o sucesso literário, para a fama e a
imortalidade, só após seu casamento. Foi quando viveu sua fase de plena maturidade
literária, de criatividade inigualável, de genialidade, enfim. Esta etapa tão
fértil teve, praticamente, a mesma duração do seu matrimônio. Tanto que “Esaú e
Jacó”, um dos seus mais perfeitos romances, foi publicado em 1904, o ano da
morte de Carolina. Foi escrito (e concluído), porém, antes dessa irreparável
perda para ele.
Pode-se argumentar que o livro “Memorial de Ayres” foi
publicado quatro anos depois que Carolina morreu. E ninguém, em sã consciência,
nega ou sequer remotamente contesta, a qualidade desse romance. Aliás, esse
livro foi publicado no mesmo ano da morte de Machado de Assis, em 1908. Porém,
sua produção literária, “pós-Carolina”, é bastante escassa, mesmo que ainda
genial. Afinal, como no caso de se andar de bicicleta, ninguém desaprende, da
noite para o dia, num piscar de olhos, de escrever ou de fazer qualquer outra
coisa que aprecie e que saiba fazer bem.. Muito menos um gênio, como o nosso
maior escritor de todos os tempos (com todo o respeito aos demais, que fizeram
e que fazem a grandeza da Literatura Brasileira).
O saudoso escritor Moacyr Scliar, um dos maiores, mais
meticulosos e mais argutos estudiosos da vida e da obra de Machado de Assis,
testemunhou, certa feita: “Sabe-se que o casamento deles foi muito feliz”. Há,
inclusive, consenso entre os biógrafos machadianos a esse respeito. Mais que marido
e mulher (ou além disso) os dois eram amicíssimos, de um companheirismo
admirável. Carolina era, para Machado de Assis, simultaneamente, esposa, mãe,
irmã, além de melhor amiga. E mais, era uma espécie de secretária informal, de
fonte de consulta, de revisora de seus textos e de crítica. Era a primeira
leitora daquilo que o marido escrevia, com liberdade de apontar defeitos e
contradições, corrigidos em tempo pelo escritor. Isso não quer dizer que o
casal nunca se desentendesse. Aliás, tenho uma convicção pessoal a esse respeito.
A de que um relacionamento conjugal sadio tem sempre uma briguinha ou outra no
caminho. Se não houver discordância em nada entre o casal, o casamento é doentio. A um dos dois cabe papel de inferioridade, o que arruína, mesmo
que demore, qualquer união conjugal. Claro que as “brigas” têm que ser
respeitosas e com escassíssima duração. E não podem, de jeito algum, deixar
ressentimentos em nenhuma das partes.
Scliar escreveu sobre a interferência positiva de Carolina
na atividade literária do marido: “Dizem que ela corrigia os textos dele e
contribuiu na transição do romantismo para o realismo”. Isso, aliás, foi
confirmado, em entrevista concedida em 2008 – ano do centenário da morte de
Machado de Assis –, por Ruth Leitão de Carvalho Lima. Trata-se da sobrinha-neta
(e sua única herdeira) de Carolina. Ela revelou que sua parenta “frequentemente”
retificava os textos do marido na sua ausência. Isso não diminui em nada a
genialidade de Machado de Assis. Muito pelo contrário. Revela a humildade,
característica dos verdadeiros gênios, que aceitam reparos e correções quando
quem os faz é habilitado a isso e quando os convença que erraram.
Tenham em mente que, naqueles tempos, na segunda metade do
século XIX, toda redação, fosse de que natureza fosse, era de próprio punho, na
base de caneta (e não esferográfica, que não existia e nem a tinteiro, que
igualmente não havia sido inventada). A máquina de escrever ainda era invenção
bizarra, e não disponível para jornalistas ou escritores. As retificações do
que se escrevia – e quem escreve sabe quantas vezes essa escrita tem que ser
retificada, por todos os motivos imagináveis, antes de se poder dá-la por acabada– eram feitas
riscando as palavras (ou sentenças, ou parágrafos) que se queria modificar e
escrevendo acima as devidas retificações. A cada correção, o texto todo tinha
que ser reescrito, do princípio ao fim, à espera de novas mudanças, que
invariavelmente eram necessárias, repetindo-se a reescrição completa uma, duas,
dez ou quantas vezes fosse necessária. Era um inferno!!. Despendia-se um tempo
enorme e muito, muitíssimo papel na tarefa. Haja paciência! Nos escritos de
Machado de Assis essa trabalheira toda, no entanto, ficava a cargo de Carolina.
Já imaginaram se o criador de Capitu dispusesse de um computador,
mesmo que dos mais rústicos? E nem suponho tanto. Já pensaram se contasse com a
hoje arcaica e mera peça de museu máquina de escrever?! Sua obra genial seria
muitíssimo mais prolífica e certamente ainda mais admirável do que é. Transcrevo
este texto da enciclopédia Wikipédia que resume bem a importância dessa mulher
notável na vida do imortal escritor: “Seu casamento com Carolina fez com que
ela estimulasse seu lado intelectual deficiente pelos poucos estudos a que
tinha realizado na juventude e trouxe-lhe a serenidade emocional que ele tanto
precisava por ter saúde frágil. As três heroínas de ‘Memorial de Ayres’
chamam-se Carmo, Rita e Fidélia, o que estudiosos crêem representar três
aspectos da Carolina: a ‘mãe’, a ‘irmã’ e a ‘esposa’". Assino embaixo
dessa lúcida “suposição”.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Contando desse jeito novelesco, aguça a curiosidade e dá vontade de ver o próximo capítulo.
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