Da crisálida emergiu magnífica
borboleta
O primeiro, dos tantos livros de Machado de Assis, foi de
poesias. Isso o leitor já sabe, mas nunca é demais reiterar. Seu título? “Crisálidas”.
Entendo o nome escolhido para essa obra de estréia como uma espécie de promessa
velada do autor, antecipando, ousadamente (posto que apenas por símbolo, por metáfora
que poucos entenderam e entendem até hoje), o que pretendia fazer futuramente
no incerto e frustrante mundo das letras. Interpreto-o como uma espécie de
manifestação de autoconfiança de um jovem, que confiava sem reservas no talento
que tinha (de cuja existência tinha absoluta certeza), sem se importar com os
obstáculos que provavelmente teria que superar.
E o que me leva a chegar a essa conclusão, da qual não tenho
a menor prova? É o significado de “crisálida”. Trata-se da última fase da
formação de uma borboleta, a que antecede a metamorfose, quando a até então
repelente larva, surge à luz, como gloriosa mistura de belas cores, como
pétalas de alguma flor, que tanto nos encanta. Afinal, Machado de Assis poderia
escolher qualquer outro título para seu livro, que não este. Talvez algum
relacionado, quem sabe, com algum poema nele inserido (como a maioria dos
poetas faria, faz e fará tempos afora). Todavia, o jovem “projeto de escritor”
(e que projeto!) escolheu este, que aparentemente nada tinha a ver com o conteúdo.
E nos anos seguintes ele cumpriu de sobejo o que “prometeu” de forma, digamos, tão
“criptográfica”. Tornou-se magnífica borboleta, eternizado depois de morto como
o mais completo e criativo cultor do que é eufemisticamente chamado por muitos
como “belas letras”. Convenhamos, nem todos os escritores conseguiram ou
conseguem torná-las belas.
É certo que, quando maduro, em 1901, quando já estava com 61
anos, Machado de Assis “repudiou” mais da metade dos poemas que integravam “Crisálidas”,
quando fez a seleção para a publicação da coletânea “Poesias completas”. Foi
excesso de zelo dele, embora se trate de procedimento até comum de poetas que
não querem deixar para a posteridade textos que no seu entender, na sua
autocrítica, são imperfeitos, ou pueris ou comprometedores. Os que Machado expurgou
não eram nada disso. Das 29 composições originais, ele cortou 17, privando
leitores que não tenham a ventura de possuir aquela primeira edição, a de 1864
(cada vez mais rara, já que constava, apenas, de mil exemplares) de poemas
magníficos (e afirmo isso com convicção, por havê-los lido todos), dignos de
figurar nas melhores antologias de todos os tempos.
Um dos poemas, porém, que preservou (posto que não intacto,
mas modificado) foi “Versos a Corina” (que merece análise em separado, e que
pretendo empreender). Tratou-se de sua primeira musa (entre tantas outras às
quais dedicou versos) que até hoje causa controvérsias entre os estudiosos de
Machado de Assis. Quem foi essa mulher, que encantou tanto o poeta, a quem
escreveu “tu nascestes de um beijo e de um olhar”? Sim, quem foi?.
De quem se tratou essa figura a quem ele revelou e recomendou:
“Guarda estes versos que escrevi chorando/Como um alívio à minha soledade,/ Como
um dever do meu amor; e quando/ Houver em ti um eco de saudade,/ Beija estes
versos que escrevi chorando”? Para alguns estudiosos da obra machadiana, essa
mulher nunca existiu. Foi mera idealização do poeta, fruto, apenas, da sua
fantasia. Aliás, Fernando Pessoa escreveu, certa feita, que os melhores poemas
de amor são escritos para “amadas” inexistentes, fictícias, ideais, frutos
exclusivos da imaginação. Discordo. Para mim, Corina existiu de fato, embora
jamais qualquer biógrafo de Machado de Assis tenha conseguido comprovar sua
existência e nem desvendar quem foi, onde morou, como era etc.etc.etc.
No poema original, o jovem autor comparava sua musa à de
outros poetas famosos. Em “Poesias completas”, todavia, suprimiu todo bloco, de
22 versos, em que havia essas referências. Achou demais compará-la a Leonor (Torquato
de Tasso), Lívia (Horácio), Beatriz (Dante Alighieri), Catarina (Luís de
Camões), Corina (Ovídio), Cíntia (Propércio), Lésbia (Catulo) ou Délia
(Tibulo). Uma pena! Eu, se fizesse essa comparação da minha amada a manteria
para todo o sempre, mesmo que o relacionamento não redundasse em nada (que não
é, felizmente, meu caso). Ao suprimir esse bloco, deixou de fora estes versos
imortais: “Esta a glória que fica, eleva, honra e consola”. Felizmente,
todavia, eles foram imortalizados em outro contexto. Foram instituídos como
lema da Academia Brasileira de Letras e o são até hoje.
Boa leitura.
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Lésbia não é um nome propriamente comum. Eu nunca o tinha lido antes, e hoje, dois textos o trazem, Pedro, o seu e o de Urda.
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