De que lado fica a asa da xícara?
* Por
Rubem Costa
Quem assim propunha,
era dona Leonor, desafiando a capacidade perceptiva da classe, gente miúda de
segundo ano escolar. Agitação geral. Cabeças pensando. Depois de alguns
instantes de reflexão, acudiu-me a resposta certa: — Fica do lado de fora,
professora!
Surpresa com a rápida
dedução, a mestra perguntou admirada — como adivinhou? Porque sou canhoto. Ué,
que tem uma coisa com outra? Fiquei estupefato. Pareceu-me que a mestra não
percebera que ali eu era o avesso, pois os demais sendo destros usavam a mão
direita. Daí terem pensado em coro que a alça ficava do lado direito. Mas,
sendo desigual, excogitei diferente. A asa é uma só. Se uso a mão esquerda e
eles a direita, não pode estar dos dois lados ao mesmo tempo. Lembrei-me da
xícara cheia de café que tomara de manhã. E descobri a pólvora. Só podia estar
do lado de fora. Se não, como pegá-la? Uma dedução simples pela qual não
esperava a pobre dona Leonor que planejava amarrar minha mão esquerda para
forçar-me a escrever com a direita. Ameaçou de novo naquele dia. Dedução de
jerico. Obrigar-me a ser igual aos outros. Não desconfiava a velha mestra que
estava estigmatizando um aluno diante da classe. Na sua insciência, me
discriminava. Descobri assim, aos oito anos, que preconceito dói, machuca a
alma, agride o ser.
Em casa, fui procurar
minha mãe que no jardim cuidava de suas flores. Contei-lhe o acontecido. Olívia
sorriu, enigmática. Apanhou uma rosa rubra, juntou-a a uma branca e enfatizou —
têm o mesmo valor. Só que vida é assim, meu filho, alva ou
rubi-vermelho-sangue, feita de sacrifício, luta e convicção. Você evidenciou
que diferença não é sinal de inferioridade. Tão somente é uma outra forma de
ser. Para quem tem determinação, até ajuda a vencer. No terreiro, os galos não
brigam por causa da cor das penas, mas pelo direito de ser dono do galinheiro.
Uma disputa pelo ser e ter. Na fala prudente da mulher sábia, eu estava a
aprender uma lição eterna que me iria servir logo no mês seguinte. Na aula de
educação física, pernas finas, lépido, Marcelinho era imbatível no salto à
distância. Eu sempre perdia.
Pensei no ensino de
minha mãe. O importante é saber usar a alça da xícara no lado certo, na hora
certa. Comecei a treinar. Em casa, na rua, onde pudesse. Foi daí que chegou o
dia em que no exercício de competição me emparelhei com ele. Pulei cinco
centímetros a mais. Naquele momento vibrante, com o pulo mágico saltou-me à
mente de menino discriminado a decisão que seria a minha bússola na vida: lutar
sempre por um lugar ao sol. E me serviu, alguns anos após, no instante de
angústia, quando já estava terminando o ginásio. Na quinta série, preparava-me
para a escola militar. Queria ser general. Uma promessa de vida sadia e
(vaidade) as meninas admirando a farda engalanada. Entanto, a legenda do
Realengo era — mens sana in corpore sano. Sonho que se esboroou numa manhã de
novembro, quando uma golfada quente de líquido viscoso inundou-me a boca.
Apavorado, cuspi. Desenhada no chão ficou uma rosa de sangue. Tuberculose. Era
assim que definhavam os poetas românticos.
Sem remédio. Ninguém
ainda ouvira falar em antibiótico. Por isso toda gente sabia que no repicar da
tosse ecoava o veredicto da morte. E do contágio. Solidão à vista. Os
companheiros de tertúlias e bailaricos sumiram. Com razão, pensei, arriscar-se
a procurar-me em casa seria o mesmo que visitar o cadáver vivo de um menino
morto. Chorei. Olívia, recolhendo minhas lágrimas, lembrou-me da asa da xícara.
Desta vez, meu filho, a alça não estará fora, nem à direita, nem à esquerda.
Vai ter de procurá-la dentro de você. Saiba usá-la. Faça uma profissão de fé em
si mesmo, com coragem no presente e crença no futuro. O saldo virá depois. O
milagre da vida somos nós que construímos. Era 1936. A recomendação valeu.
Sobrevivi. E hoje, quando a noite sobre mim já vai descendo, recordo-me com
ternura dos amigos de então — de bailaricos e tertúlias — a quem nunca desejei
mal. Companheiros que, enquanto meus olhos choravam, formaram em torno de mim o
arquipélago do medo, ilhas próximas que me não queriam tocar. Dessa geografia
de que falo sem ressentimentos, surge Olavo que, acampando na agronomia, ainda
muito moço no trabalho foi dolorosamente esmagado por um trator em movimento.
Depois dele, vem o Milton, que Deus o tenha, corroído pela cirrose hepática. E
o Ary e tantos outros que sumiram no horizonte, sem tempo de dizer adeus.
Ah! o Osmânio, pobre
Osmânio, como fiquei triste na noite em que o encontraram caído ao lado de uma
carta de despedida. No chão, uma xícara de asa partida. Cianureto. Cena brutal.
E ali, diante do ser inanimado, caído, vencido, derrotado por si mesmo,
pareceu-me de repente ouvir Olívia a me segredar em voz de afeto: — Na hora do
insucesso, filho, para se erguer, use sempre a alça da xícara por dentro; não
quebrará.
Roteiro de sabedoria
inata. Conselho de mãe, rosa rubra que ajudou meus passos no pedregoso caminho
da juventude inquieta. Rubi, vermelho-sangue. Rosa de amor que me deu à vida.
Rosa de vida que me deu amor.
* Rubem
Costa é escritor e membro da Academia Campinense de Letras.
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