Provações
* Por
Amilcar Neves
Apresentou-se para
tirar sangue. Apresentou documentos, carteiras, cartões, fotos e comprovantes.
Ninguém haveria de tolerar que se passasse por quem não é. Mas tirar sangue não
é só chegar e dizer, vim aqui para tirar sangue. Exige-se requisição de médico
competente, isto é, credenciado. Exige-se alguém doente ou, pelo menos, um
sujeito passível de adoentar-se. Desde que identificado por impressões digitais
digitalizadas, quer dizer, eletrônicas, e coisas assim.
Passada toda a
provação, ou melhor, superadas todas as provas a que se teve que submeter, após
formulários e assinaturas, refugiou-se no assento da cadeira mais discretamente
afastada de tudo, ignorou a tela tagarela de televisão à sua frente, às suas
costas e aos seus lados, selou os ouvidos e abriu o livro que trazia, um
pequeno volume em edição de bolso, pondo-se, alheio, a lê-lo.
Livro de bolso só faz
sentido em terras frias, habitadas por gente que não tira um sobretudo,
sobretudo na rua e no metrô, o que não é o caso, supõe-se, quando o cara vai
fazer amor com sua legítima senhora e, especialmente, quando se vai banhar.
Sobretudos costumam ter, acima de tudo, vastos bolsos onde se podem acomodar
com prazer e conforto um ou mais livros de bolso, sem qualquer incômodo para
ditos livros nem para os seus felizes (e eventualmente cultos) portadores.
Nos trópicos, tal
costume não pode mesmo vingar. Como portar nos bolsos - em quais bolsos? -
qualquer tamanho de livro? Se muita gente já acha estranho que alguém use
camisa polo com bolsinho do lado esquerdo, onde mal cabe uma caneta
esferográfica de feira e no qual dinheiro e documentos encharcam-se de suor mal
ameaçam despontar os primeiros calores do verão (que costumam insinuar-se,
precoces, já em pleno inverno), o que dirá de um pobre mortal que carregue
livros nos bolsos? Livros serão sempre objetos de biblioteca até o dia em que
algum cupim deles inevitavelmente dê cabo, como mandam os usos e os costumes.
Ainda assim, aquela
pessoa que saiu de casa disposta a tirar sangue sentou-se surda no banco mais
distante e abriu o livro de bolso que trazia na mão (à falta sobretudo de
bolsos adequados, como cá já se demonstrou à exaustão) e pôs-se a ler por
escassos minutos até que a moça de guarda-pó branco tocou-lhe o ombro e, em tom
admoestatório, perguntou-lhe se não sabia que, para ser atendido, deveria ter
deixado no guichê apropriado o papelucho que lhe entregaram.
Ante suas negativas,
ela lhe disse, a fim de evidenciar o prejuízo que tivera em não atentar para as
orientações recebidas, que devia estar ali, estupidamente, esperando há muito
tempo. Nada disso, respondeu, não deu tempo de ler nem mesmo uma única página
do livro. E que livro é esse, ela perguntou, espiando a capa e interessando-se
pelo título. É um romance. Humm, ainda está no início do livro, já apareceu o
casal? Casal? É, não é um romance? Sim. Então, todo romance tem um casal, de
que trata esse? De um cara que decide matar o pai. Que horror, como alguém pode
pensar em tirar a vida de quem lhe deu a vida? Isso às vezes acontece. E é um
romance, hein, imagine se fosse uma tragédia: seria uma catástrofe, um dilúvio,
o fim do mundo! Bem, o pai passou a vida toda tentando acabar com a vida do
filho. Isso não justifica, me desculpe.
Terminou o seu trabalho
e disse, vou procurar e ler esse romance, mas se não gostar, para o seu próprio
bem: não me apareça na minha frente pra eu lhe tirar sangue de novo. Sabe como
é, quem avisa amiga é.
*
Amilcar Neves é escritor com oito livros de ficção publicados. A partir de 26
de agosto de 2013 integra o Conselho Estadual de Cultura, na vaga destinada à
Academia Catarinense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 32.
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