Lições de solidão
O jornalista Mauro
Santayana escreveu, certa feita, em uma de suas tantas crônicas, que “educação
para a vida deveria incluir lições de solidão”. Deveria mesmo. A dúvida que me
ficou no espírito, quando li o texto em que meu colega de profissão (gaúcho, como
eu) apresentou essa proposta (ou sugestão, sei lá) é: quem seria o “professor”
para nos ensinar a conviver com tal situação, sumamente comum, todavia penosa e
desagradável em determinadas ocasiões? O homem, por característica e
necessidade, é um animal sociável. Mesmo que negue, detesta solidão. É certo
que em alguns momentos ansiamos por ficarmos sós.
Precisamos dessa pausa
para meditação, para ordenarmos idéias e emoções e nos organizarmos. Essa
condição, todavia, para não ser penosa e não nos despertar nenhuma sensação de
abandono, tem que ser voluntária. Não pode ser imposta por ninguém. E,
principalmente, deve ser temporária, apenas pelo tempo que julgarmos suficiente
e nem um minuto a mais. Esse varia e depende das circunstâncias. Para uns, três
ou quatro dias, ou mesmo uma semana, bastam. Para outros, é preciso prazo mais
longo (um mês, quem sabe). E há os que não suportam ficar mais de uma hora sem
nenhuma companhia. Sou um desses, embora tenha necessidade freqüente de me
isolar por causa da atividade que exerço, ou seja, a de redator (tanto como
jornalista, quanto como escritor). Mas detesto esses momentos. A solidão não
pode, pois, ser permanente e imutável. Se for... fatalmente desembocará em
depressão.
Bem, não é qualquer
companhia que nos satisfaz. Há companhias e companhias. Há aquelas pessoas que
são como uma espécie de alter ego nosso, das quais não gostaríamos de nos separar
nunca, nem mesmo por segundos, apesar do dever nos chamar e ser necessário que
nos isolemos. Quando longe delas, sentimo-nos perdidos, vazios, abandonados e
infelizes. Minha doce amada, que me acompanha há já meio século, parceira e
cúmplice de meus acertos e erros, é uma delas. Meus filhos, cada qual com sua
personalidade e modo de proceder, são outros. Os amigos com que a vida me
presenteou (e não estou me referindo a meros “colegas”), também estão nesse
caso.
Há companhias, todavia,
impostas pelas circunstâncias e que não são, portanto, de nossa livre escolha,
que nos torturam, aborrecem, chateiam e incomodam. No caso dessas cabe a
caráter o ditado popular que diz: “antes só do que mal acompanhado”. São os que
o vulgo apelidou de “malas” e que alguém acrescentou para ampliar ainda mais
sua chatice, “sem alça, de papelão e molhadas”, enfatizando, assim, o incômodo
que causam. O escritor Guilherme de Figueiredo (que está entre meus autores
prediletos), escreveu um livro inteiro tratando desse tipo de (má) companhia: “Tratado
geral dos chatos”. Leiam, se tiverem oportunidade. Tenho certeza que irão
gostar.
A verdade é que mesmo
sendo escolha nossa (quando é, óbvio), raros suportam muito tempo de solidão.
Pior é a ditada pela separação das pessoas que amamos (as que citei acima),
mesmo que temporária. Fica-nos na alma dolorosa sensação de vazio, de
inquietação, de ansiedade pelo reencontro. Nestes casos, sentimo-nos não só
solitários, mas também perdidos, infelizes, amargurados, mesmo que não estejamos
rigorosamente sós, posto que em meio a uma multidão. Muito pior ainda é quando
a separação é definitiva, ou porque a pessoa querida se mudou para outra cidade
muito distante, ou se foi para outro país sem perspectivas de retorno, ou,
tragédia das tragédias, quando morre.
Amiúde sinto o peso
dessa massacrante solidão diante da ausência irreparável e definitiva do meu
pai. E não somente dele (embora no seu caso seja mais aguda), mas da falta de
parentes queridos que se foram, de amigos que a morte levou e até de personalidades
(geralmente escritores) que embora não tenha conhecido pessoalmente, ficaram “encantadas”
e me fazem uma falta imensa, pela privação de novas produções suas. Desconfio
que seja a essa solidão que Mauro Santayana se referiu, ao entender de devêssemos
ter lições a propósito ao sermos educados para a vida. Essa nunca aprendi, e
duvido que venha a aprender, a administrar. É inadministrável!!!
A propósito dessa
condição – benigna quando de nossa escolha e quando temporária e trágica quando
imposta pelas circunstâncias – vasculhando meus arquivos, localizei estas duas
pérolas de dois dos meus poetas preferidos. Poetas, ah! os poetas, esses fingidores
que, como afirmou Fernando Pessoa, “fingem que é dor a dor que de fato sentem”,
sabem de sobejo o quanto dói a solidão, mas extraem grandeza e beleza desse
sofrimento. O primeiro poema é de Rainer-Marie Rilke e diz:
A Solidão
“A
solidão é como chuva.
Sobe
do mar nas tardes em declínio;
das
planícies perdidas na saudade
ele
se eleva ao céu, que é seu domínio,
para
cair do céu sobre a cidade.
Goteja
na hora dúbia quando os becos
anseiam
longamente pela aurora,
quando
os amantes se abandonam tristes
com
a desilusão que a carne chora;
quando
os homens, seus ódios sufocando,
num
mesmo leito vão deitar-se: é quando
a
solidão como os rios vai passando”
O segundo poema, que
partilho com vocês, ao fim e ao cabo destas descompromissadas reflexões, é esta
beleza composta pelo campineiro Guilherme de Almeida:
Solidão
“Busquei
meu semelhante.
Andei
a vida,
andei
o mundo:
andei
o tempo,
andei
o espaço.
Treva.
Treva. Treva.
Acendi
minha lâmpada.
Véu
que saiu do meu corpo,
ritmo
que saiu do meu gesto:
um
crepe em vôo
atirou-se
no chão,
subiu
pela parede,
debateu-se
contra o teto.
Nem
minha própria sombra
se
parece comigo”.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe-me pelo twitter: @bondaczuk.
A solidão só me incomoda quando tenho de dormir só.
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