Ver Niss Age de Arte Contemporânea
* Por
Mara Narciso
Uma nova geração de
artistas plásticos tem Stephanie Pirfo, Karla Ruas, Bernardo Morais, Fabiano
Alves e Nestor Júnior no elenco. Os cinco jovens expuseram suas obras de arte
no Ateliê Galeria Felicidade Patrocínio, e destacaram-se por fazer uma
exposição de rara personalidade. Alguém pode ir passando pela galeria sem
preocupação, dando uma despretensiosa espiada, para ter seu olhar exigido de
volta ao ser capturado por uma das cenas. Enquanto há telas que chamam, há
outras que berram por atenção.
Recortar e colar o
corpo humano é a arte praticada por Bernardo Morais, fotógrafo e artista
visual. Usando peles numa tonalidade marrom de sertanejo mestiço, ele não
apenas brinca de empilhar partes humanas, mas mostra isso com um viés crítico.
Fazendo montagens com os corpos, colocando porções seccionadas fora do lugar,
ou ainda, o peso do mundo nas costas de um homem encurvado, sob o efeito dos
seus próprios erros, vai recriando homens e situações. Temos imagens que
passeiam do feio ao grotesco, mostrando imagem oscilante, com peças que podem
despencar em seu equilíbrio instável, porém, com mensagem firme e impaciente.
O catarinense Nestor
Júnior, o mais conhecido dos artistas plásticos da mostra, era muito
fotografado. Sua temática exibe o corpo humano em faces duplas, rostos colados,
abraços e muitos cabelos. A manifestação capilar exuberante vai do artista aos
seus personagens que atraem e perturbam simultaneamente. E as faces duplas,
triplas ou quádruplas agarradas em alta tensão, em combinações siamesas,
comunicam emoções negativas tais como o homem atual experimenta. O sexo e o
erotismo estão presentes, e nota-se naturalmente o desvio no olhar. É preciso
deixar a censura em casa para encarar um peixe com imenso falus modelo humano
paralelo à metade do corpo dele, e longe está de ser figura humorística, como
que servindo para mostrar que o sexo pode ser uma arte mostrável, fluida,
balouçante ou rígida. Há um homem retesado para trás, como numa crise de
tetania, segurando seu órgão sexual, indicando que o prazer é algo próximo a um
ataque epilético.
As representações
femininas são doces, mas rompidas, como uma imagem algo infantil, porém, com
chifres e alquebrada com a dor de uma possível infidelidade. E ainda flores
bordadas nesses mesmos anexos, ou cabelos cujos fios são bordados de lã, num
gracioso efeito estético. A arquiteta e urbanista Stephanie Pirfo finge que
brinca com imagens infantis, mas nas entrelinhas se mostra dramática. A leveza
das suas imagens claras engana, pois também estão presentes o elemento sedutor
e o erótico.
Texturas e padronagens continuam nas obras de
outra artista. Não existe estilo feminino ou masculino, os temas e abordagens
podem ser quais forem, mas aqui se nota o que é feito por homem e o que não é.
São misturas de mulheres e pedaços da natureza de Karla Ruas, outra artista de
Montes Claros. A ilustradora formada em artes visuais brinca com o corpo humano
entrecruzando-o com plantas e animais. Uma mulher de burca, tapada
completamente, pois a tela dos olhos é espessa, tem sobre si, em suas vestes,
sinais da natureza, que, naturalmente ela não vê, e olhos que ela não pode ter,
são vistos espalhados pelo vermelho da sua opressora vestimenta vermelha. A
crítica de costumes já está feita. Mulheres vomitam o que as desagrada, mas
podem também se esgoelar ou vomitar flores.
Com predomínio do azul,
o quadrinista e ilustrador montes-clarense Fabiano Alvez conversa com o
abstrato, sem fugir completamente das formas. Dois pontos coloridos sob fundo
azul se aproximam feito dedos duplos, sugerindo a cena clássica da Capela
Sistina na criação do homem, ou uma imagem feminina em tons de azul, sob uma
porta, envolta em lençóis, lembra coisas de outro mundo, após a morte ou a
possibilidade de contatos imediatos do terceiro grau. E adiante, flutuando em
sua órbita, vai sereno, envolto em anéis azulados o planeta Saturno, num
gostoso passeio estético.
A comunicação vai além
do incômodo, salta da parede como um míssil, adentrando a cabeça e estarrecendo
a platéia, que, olhando impressionada o resultado da gravidez daqueles jovens,
fita os filhos deles balançando nas paredes. São produtos sem doçura nem
meiguice. Poderiam ser carnes num açougue. Mas não são. São obras de arte
contemporânea, com mensagens de amplos significados. Formam uma enxurrada de
insatisfações, fazem doer às consciências, atrelam-se às belezas várias, umas
para rir, outras para chorar, umas para incomodar, outras para chocar. É
preciso sentir as dores da crítica em nível universal que nos bate a porta, o
peito e a boca do estômago. Nisso o recado dado fez bem o seu papel.
*Médica endocrinologista,
jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto
Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Bom ter você, Mara, como cicerone nessa vernissage! Abraços e um ótimo fim de semana.
ResponderExcluirNem tudo era lindo, Marcelo, mas era marcante e provocador.
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