No princípio era a aula
* Por Deonísio da Silva
Os alunos são os mesmos há milhares de anos, mas
aprendem de modo diferente, de acordo com a época e com o país onde vivem.
Há mais de dois mil anos, já se ensinava na Grécia,
onde começou a civilização. Naquele país se falava o grego. A palavra ´aula´
veio do grego aulé. Mas aulé não era aula ainda, era palácio. Era ali que o
professor ensinava. E ensinava também na
skholé, o tempo livre, gasto nos
banhos públicos, nas termas. Enquanto cada um aguardava a sua vez, ele ia ensinando a todos os que
ali estavam.
Só que ele não era chamado professor. Na Grécia,
quem ensinava as crianças era o paidagogós.
Ele não era pai nem tio dos alunos. Era apenas um escravo culto, encarregado de
dar lições para as crianças no aulé,
isto é, no palácio. Era ali que ele ensinava quando estava chovendo ou fazia
muito frio.
Pois o paidagogós
não ensinava apenas dentro do palácio. Ensinava também no jardim, no pomar,
à beira dos rios, nos gramados. Os alunos ficavam a seu redor ouvindo o que ele
lhes ensinava.
Nem sempre ele ficava parado. Às vezes ensinava
caminhando e os alunos, grandes ou pequenos, o seguiam, pois também os adultos
eram ensinados assim.
O filósofo Platão, por exemplo, gostava muito de
ensinar na Akademía, um pomar que
ficava à beira do rio Cefiso, perto de Atenas. O lugar tinha este nome porque
os gregos tinham erguido ali a estátua de um herói chamado Akademo. É por isso que até hoje as instituições que cuidam das
letras são chamadas de academias.
Tal como hoje, os países viviam em guerra. E Roma
invadiu a Grécia. A Grécia já tinha invadido outras regiões também, de onde
trouxera pessoas, algumas muito cultas, que ensinavam coisas aos inimigos que
as tinham derrotado.
Muitos vencidos não eram bons no manejo das espadas,
mas eram ótimos no manejo das palavras. E os vencedores ganharam muito por
terem deixado de matá-los, pois os ganhadores aprenderam com os perdedores.
De todo modo, antigamente, na Grécia e em Roma, um
escravo que ensinava ganhava mais do que um professor ou professora hoje em
dia. E ninguém o maltratava. Ao contrário, todos o admiravam e reconheciam o
seu trabalho.
Podemos dizer que, vistas deste modo, as coisas
pioraram muito desde então. Há jogadores de futebol que, mesmo não ensinando
nada a ninguém, ganham num mês o que uma professora jamais ganhará a vida
inteira.
Quando invadiu a Grécia, Roma trouxe escravos de lá.
E esses escravos foram professores dos
romanos. Mas como os romanos falavam latim, aulé
virou aula, akademía virou academia,
skholé virou schola e paidagogós
virou paedagogus.
* Escritor, Doutor em Letras
pela USP, autor de 30 livros, alguns transpostos para teatro e TV. Assina
colunas semanais na Caras e no Observatório da Imprensa. Dirige o Curso de
Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá, no Rio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário