Canção das mulheres
* Por Lia Luft
Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando
preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o
amarei menos porque estou quieta.
Que o outro aceite que
me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for
excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba
minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma
bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer
tolices tantas vezes.
Que se estou apenas
cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem
diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quanto
me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo
à sua vida.
Que se estou numa fase
ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que
estou tendo muita paciência com você!
Que quando sem querer
eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha
nem me ridicularize.
Que se eventualmente
perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me
ache linda e me admire.
Que o outro não me considere
sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando
não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o
outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a
mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e
gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.
* Escritora
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