Pantufas
imperiais como passaporte
*Por Anna Lee
Não sei qual era a estação do
ano, não devia ser inverno porque me lembro perfeitamente de que o ventinho
frio que soprava mais agradava do que incomodava. E, em Petrópolis, quando faz
frio, faz muito frio mesmo. De rachar as mãos e fazer sangrar. Não era esse o
caso.
Também não era verão. O ventinho
frio não tinha efeito de ar-condicionado. Os ares-condicionados são assim:
levam do inferno ao paraíso em questão de segundos, no entanto, uma vez
cumprida a missão de acabar com o calor, tornam-se inconvenientes. Provocam um
frio que gela os ossos, uma sensação que, pelo menos para mim, é extremamente
desagradável.
Nada era desagradável naquele
dia. Portanto, acabo de me dar conta
que, como efeito de lembrança, pouco importa qual era a estação. O céu em seu
azul intenso de nenhuma nuvem continha em si tudo que era bom em cada época do
ano e nada de ruim. Ainda sinto o vento bater sem doer no rosto que eu lhe
oferecia pela janela aberta do carro, enquanto subíamos a serra. Com longos
dedos de ar, penteava meu cabelo para trás.
O Cony estava indo a Correas, que
é distrito de Petrópolis, no sítio em que passava férias, quando era
seminarista. O Instituto Moreira Salles preparava a edição dos Cadernos de Literatura Brasileira sobre
ele e quis fotografá-lo lá. Convidou-me para acompanhá-lo, junto com o
fotógrafo e o motorista. Era uma oportunidade para, na volta, visitarmos o
Museu Imperial e fazer uma pesquisa de campo para o livro infanto-juvenil no
qual estávamos trabalhando: O mistério da
coroa imperial. Faríamos uma espécie de reconhecimento de campo, além de
anotações sobre a coroa. A exata interseção entre realidade e ficção.
Subimos as escadas de acesso ao
museu, um casarão antigo e solene que, na época de Dom Pedro II, serviu de
residência de verão à família imperial. Quando chegamos ao topo, os dois
porteiros nos obrigaram a parar no hall.
Ajoelhados em cada lado da porta, colocaram pantufas nos pés de cada um, meu e
do Cony – o fotógrafo e o motorista ficaram nos aguardando do lado de fora. Os
enormes chinelões, macios e ridículos, nos serviram de passaporte para um mundo
que era real porque estava ao alcance das mãos e dos pés e era também ficcional
porque era feito da nossa imaginação.
Incapazes de caminhar com as
pantufas, começamos a deslizar pelo chão que era um vasto espelho de madeira.
Aquele tão intenso brilho tinha uma explicação: os pés funcionavam como um
escovão, dando mais lustro ao assoalho.
Passamos rapidamente por
aposentos repletos dos mais diversos objetos e mobiliário que outrora serviram
à monarquia brasileira. Nada que fosse capaz de nos desviar do caminho.
Tínhamos pressa em atingir nosso objetivo que era um só: a salinha pequena e
escura que abrigava, solitária, dentro de uma vitrine iluminada por dentro, a
coroa imperial, reluzente em suas pedrarias.
Não era a primeira vez que víamos
a coroa. Mas, desta vez, ela parecia diferente. Fomos arrebatados pela fonte de
luz, fantástica como um pedaço de sonho, com a qual nos deparamos. Sem
conseguir desviar os olhos, ficamos ali parados por um tempo que, até hoje, não
sei se foi de minutos ou horas.
Somente saí de meu transe quando
o Cony disse: Como vamos fazer para tirar essa jóia daqui sem que ninguém
perceba? – propondo uma discussão sobre como o bandido da nossa história
conseguiria roubar a coroa, seu objeto de desejo.
A partir daí, travamos uma longa
conversa, durante um outro bocado de tempo. Arquitetamos um plano
elaboradíssimo que envolvia comparsas, troca da coroa verdadeira por uma cópia,
pistas falsas, ações cronometradas, desligamento dos alarmes e muito mais.
No meio de suas muitas
conjecturas, o Cony lembrou: Não pode deixar de anotar a descrição da jóia,
isso é fundamental: um papel colado por dentro da vitrine informava que a coroa
foi montada com quase dois quilos de ouro maciço, 639 brilhantes, 77 pérolas...
Transcrevi todos os detalhes num
bloquinho de repórter que sempre freqüenta minha bolsa, estando eu trabalhando
ou não. Quando terminei e já ia guardá-lo, uma voz grave e decidida ecoou pela
sala: Escutei tudo que conversaram, pois saibam que as dependências do museu
têm câmeras e tudo que se passa aqui fica registrado. Dificilmente, um ladrão
escapará ileso.
Os dois, eu e o Cony, num
movimento sincronizado, viramos a cabeça para trás, para o canto direito da
sala, de onde partira a voz. Estava lá, ereto e imóvel, um guarda num uniforme
preto, desaparecido na escuridão do ambiente cujo único ponto de luz era a
coroa imperial, que roubava todas as atenções.
Olhamos um para o outro, primeiro
achando graça na situação e, depois, sem encontrarmos respaldo no guarda,
reconhecendo que tínhamos nos metido numa encrenca. Passamos, então, a explicar
que éramos escritores, que estávamos colhendo material para um livro, que
jamais seríamos capazes de roubar um alfinete que fosse, muito menos uma coroa,
ainda mais aquela, imperial! Nem saberíamos o que fazer com ela.
Engajado no seu papel de responsável pela jóia, o guarda
não nos dava ouvidos. Insistia, insistia, insistia em dizer que ninguém nunca
conseguiria cometer tal crime, deixando a entender que se tratava de uma
questão de honra para ele, de vida ou de morte. Até podia ser que estivéssemos
trabalhando mesmo, que o roubo que elaboramos, passo por passo, diante dele fosse
apenas uma peça de ficção, mas não poderia nos liberar sem antes comunicar ao
chefe o acontecido.
Acionou o administrador do museu,
que não demorou a se apresentar. Enquanto repetíamos as explicações que
tínhamos dado para o guarda, ele, polidamente, nos conduzia de volta à porta
principal. Uma vez ou outra, nos interrompia para lembrar que o esquema de
segurança do museu era inviolável. Não dava para saber se o homem acreditava em
nossa história ou se nos julgava loucos, com os quais não queria qualquer
envolvimento.
Quando já estávamos do lado de fora e já tínhamos devolvido as pantufas, ele acenou e disse: Vou ficar feliz em receber um exemplar de O mistério da coroa imperial! E depois de constatar que estávamos dentro do carro, acenou mais uma vez: Não esqueçam de autografar!
Na descida da serra, ao olhar o
horizonte que, agora, era uma faixa de sangue, vi as primeiras estrelas da
noite se acenderem – uma fonte infinita de pedacinhos luminosos, de onde alguém
um dia roubou pequenas amostras para colar na coroa imperial.
*Jornalista, mestranda em Literatura
Brasileira, autora, com Carlos Heitor Cony, de "O Beijo da
Morte"/Objetiva, ganhador
do Prêmio Jabuti/2004, entre outros livros. Colunista da Flash, trabalhou na
Folha de S. Paulo e nas revistas Quem/Ed.Globo e Manchete.
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