Aos pais e educadores
* Por
Rubem Alves
Escrevi sobre príncipes e sapos, sobre borboletas e lagartas, sobre o
Leonardo e a IBM, sobre campos selvagens e monoculturas... Tudo aparentemente
tão diferente. E no entanto – não sei se vocês perceberam – eu falei o tempo
todo sobre uma mesma coisa. Fiz, com estas crônicas, aquilo que os músicos
gostam de fazer: variações sobre um único tema. Meu tema?
O corpo: o meu corpo, o seu corpo, o corpo do seu filho ou de sua filha,
o corpo do seu aluno. O corpo é o lugar fantástico onde mora, adormecido, um universo
inteiro. Como na terra moram adormecidos os campos e suas mil formas de beleza,
e também as monótonas e previsíveis monoculturas; como na lagarta mora
adormecida uma borboleta, e na borboleta, uma lagarta; como nos sapos moram
príncipes e nos príncipes moram sapos; como em obedientes funcionários que
fazem o que deles se pede moram Leonardos que voam pelos espaços sem fim dos
sonhos.
Tudo adormecido. O que vai acordar é aquilo que a Palavra vai chamar. As
palavras são entidades mágicas, potências feiticeiras, poderes bruxos que
despertam os mundos que jazem dentro dos nossos corpos, num estado de
hibernação, como sonhos. Nossos corpos são feitos de palavras. Assim, podemos
ser príncipes ou sapos, borboletas ou lagartas, campos selvagens ou
monoculturas, Leonardos ou monótonos funcionários. Diferentes dos corpos dos
animais, que nascem prontos ao fim de um processo biológico, os nossos corpos,
ao nascer, são um caos grávido de possibilidades, à espera da Palavra que fará
emergir, do seu silêncio, aquilo que ela invocou. Um infinito e silencioso
teclado que poderá tocar dissonâncias sem sentido, sambas de uma nota só, ou
sonatas e suas incontáveis variações.
A este processo mágico pelo qual a Palavra desperta os mundos
adormecidos se dá o nome de educação. Educadores são todos aqueles que têm este
poder. Por isto que a educação me fascina. Hoje o que fascina é o poder dos
técnicos, que sabem o segredo das transformações da matéria em artefatos.
Poucos se dão conta de que fascínio muito maior se encontra no poder da Palavra
para fazer as metamorfoses do corpo. É no lugar onde a Palavra faz amor com o
corpo que começam os mundos. Por isto que compartilho da opinião de Hermann
Hesse, que dizia que entre os problemas da cultura moderna a escola era o único
que levava a sério.
Mas é preciso não ter ilusões. A Palavra tanto pode invocar príncipes
quanto sapos, tanto pode acordar borboletas quanto lagartas. E eu não estou
sozinho na minha suspeita de que muito do que se chama educação é, na verdade,
feitiçaria, magia negra. O próprio Hesse tinha amargas lembranças de suas
experiências de escola.“Em mim a escola destruiu muita coisa”, ele diz. “E
conheço poucas personalidades importantes a que não tenha ocorrido o mesmo. Na escola
só aprendi duas coisas: latim e mentiras”.
Lichtenberg tinha suspeitas semelhantes em relação às escolas.
“Atualmente procura-se divulgar a sabedoria por toda a parte: quem sabe se
daqui a poucos séculos não haverá universidades destinadas a restabelecer a
antiga ignorância?” Parece absurdo? Fernando Pessoa explica:
“Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu...”
Será isto? Que a educação pode ser um feitiço para nos fazer esquecer
quem somos, a fim de sermos recriados à imagem e semelhança de um Outro? O que
me faz lembrar um mural de Orozco, pintor mexicano que passou anos ensinando
sua arte num college norte-americano. Foi certamente inspirado pelo que
via acontecendo diariamente com os moços que freqüentavam as melhores (notem
bem, eu disse “melhores”...) escolas que pintou A Formatura: um
professor, alto, magro, cadavérico, verde, entrega ao seu discípulo, também
alto, magro, cadavérico, verde, a prova final do seu saber: o diploma, um feto
morto, dentro de um tubo de ensaio. Se isto for verdade, se o que o processo
educativo faz não é despertar e fazer brotar os universos selvagens que moram
em nós, mas antes espalhar herbicidas para depois plantar as sementes da
monocultura (afinal de contas, cada corpo deve ser útil socialmente...) que um
Outro ali semeia, então o caminho da verdade exige um esquecimento: é preciso
esquecer-se do aprendido, a fim de se poder lembrar daquilo que o conhecimento
enterrou. “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?”, pergunta T. S.
Eliot. “Onde está o conhecimento que perdemos na informação?” Penso que este é
o sentido do parágrafo perturbador com que Roland Barthes termina sua aula
inaugural como professor do College de France: “Desejo, agora, deixar-me levar
pela força de toda a vida realmente viva: o esquecimento. Há uma idade em que
se ensina o que se sabe. Em seguida vem uma outra em que se ensina o que se não
sabe. Chega, talvez agora, a idade de uma outra experiência: aquela de desaprender,
de fazer trabalhar as transformações imprevisíveis que o esquecimento impõe
à sedimentação dos saberes, das culturas e das crenças por que se passou.
A miséria da educação não aparece onde ela é pior. Sua miséria se revela
justamente onde ela é excelente, competente. Pois, quando é que dizemos que ela
é excelente? Justamente ali onde ela consegue, com competência, administrar
a qualidade dos corpos que ela deseja transformar. E que transformação é
esta que se deseja? Quem dá a resposta de maneira mais clara e direta é Clark
Kerr, presidente da Universidade de Berkeley, durante a crise estudantil que a
agitou no início dos anos 60. Estas são as suas palavras: “A universidade é uma
fábrica para a produção de conhecimento e de técnicos a serviço das muitas
burocracias da sociedade”. Coisa que Nietzsche havia percebido muito antes, o
que indica que esta tendência da educação não é coisa nova. “O que as escolas
superiores na Alemanha realmente realizam é um treinamento brutal, com o
objetivo de preparar vastos números de jovens, com a menor perda possível de
tempo, para se tornarem usáveis e abusáveis a serviço do governo.”
Não importa o nome que se dê a este Outro, para quem as crianças e
jovens são moldados. Não importa o retorno econômico que se possa obter ao fim
deste processo. Permanece um fato fundamental: que ele só se realiza ao preço
da morte dos universos que um dia viveram, como possibilidades adormecidas no
corpo das crianças: todo Leonardo deve se transformar em funcionário, toda
borboleta deve se transformar numa lagarta, todo campo selvagem deve se transformar
em monocultura. Não é de se admirar, portanto, que as pessoas passem as suas
vidas com a estranha sensação de que não era bem aquilo que desejavam. Elas
foram aIguma coisa diferente dos seus sonhos, e esta traição as condenou à
infelicidade. Só lhes resta então compreender a verdade das palavras de Paulo
Leminski: “Ai daqueles que não morderam o sonho e de cuja loucura nem mesmo a
morte os redimirá.”
* Escritor, teólogo e educador, membro da Academia Campinense de
Letras
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