A dor de uma saudade
* Por Clóvis Campêlo
Talvez a vida não nos seja mais do que uma doce ilusão. Existimos,
pensamos e logo tentamos justificar a nossa maneira de viver e de agir.
Subjetivamos e desenvolvemos ou nos apossamos de conceitos que servem para nos
acalmar os ânimos, nos momentos de maior tensão, ou para servir de item
identificatório com quem nos cerca e nos rodeia. Nenhum homem é uma ilha. A
solidão é devastadora. Estamos todos no mesmo barco e precisamos alimentar a
ideia de que vivemos em uníssono uns com os outros e de que não existiria outro
caminho plausível ou justificável dentro da nossa síntese ética (se é que a
temos!) ou que aplaque as nossas indagações e ansiedades.
Assim sendo, o futuro sempre nos será uma incógnita e um desafio. Uma
página em branco, onde a composição final vai depender da habilidade e da
capacidade em nos superarmos e criar novas propostas e situações. Não é a toa,
portanto, que tendemos a repetir experiências coletivamente aceitas e bem
sucedidas. Se a maioria diz ou fez assim, isso pode nos ser uma garantia de
segurança e sucesso. Pra que nos arriscarmos em vão?
O grande problema, porém, surge quando essa sucessão de atitudes
supostamente segura e confiável, passa a se mostrar inadequada ou desdobra-se
em consequências inesperadas e assustadoras. Quantas crenças e práticas foram
abandonadas pela humanidade, ao longo do tempo, por se mostrarem inúteis ou
ofensivas quando inicialmente pareciam dignas de confiança? As marcas e
cicatrizes que ficam, em consequência disso, são sempre aterrorizantes e
definitivas. Diante da tragédia definida, geralmente, só nos resta a
resignação, o consolo e um novo aprendizado no sentido de não mais se repetir o
equívoco. O homem que pensa e tem a capacidade de imaginar novos mundos e
situações, é o mesmo que se deixa enganar por análises equivocadas e
traiçoeiras.
Exercitar a individualidade e a autonomia, portanto, não é fácil para
ninguém. Não só pelo risco que a novidade sempre traz em seu bojo, como também
pelos sistemas regulatórios criados e mantidos, nítidos ou subjacentes, no
imaginário e nas crenças da maioria. Toda diferença poderá ser castigada. Ou
mantida em quarentena até que se mostre útil e rentável ao sistema dominante e
predominante. A ousadia nunca não será feita para a covardia da maioria.
Admito até mesmo que talvez nada valha a pena, mesmo que a alma não seja
pequena. Aliás, chega-se a um determinado ponto em que fica difícil até mesmo
se fazer novos dimensionamentos ou distinguir o caminho mais novo e adequado.
Talvez a vida não seja mesmo mais do que uma doce ilusão. Existimos e
pensamos, mas, mais cedo ou mais tarde, desaguaremos sempre na foz do mesmo
rio, no mesmo delta, nas mesmas águas turvas, temerosas e desconhecidas.
Navegar será mesmo preciso?
* Poeta,
jornalista e radialista
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