Somente
agora
* Por
Gustavo do Carmo
Toca
o telefone.
—
Alô?!
—
Selton?
—
Sim.
Quem fala?
—
Aqui
é o Leôncio.
—
Diga.
Selton usa um tom seco.
—
Estou
te ligando para desejar um Feliz Ano Novo e pedir desculpas pelo que
eu fiz com você no início do ano.
Selton
fica calado. Leôncio continua.
—
Somente
agora, perto do ano novo, caiu a ficha e eu decidi te pedir perdão
por ter te proibido de divulgar o meu filme no seu blog. E também
por ter colocado vírus na sua página de internet e ainda ter feito
a sua caveira em um convite que iam te fazer para ser colunista de um
jornal. Sabe como é, amigo! Eu tenho muita influência no meio.
—
Eu
já estava desconfiado destas duas coisas.
—
Agora
eu entendi o recado daquela sua crônica sutil contra mim. Mas você
também pisou na bola, né, companheiro? Eu senti logo de cara que
você andou me chamando de velho para os outros naquela mensagem que
você mandou por engano no bate-papo. E nem me pediu desculpas.
—
Eu
não te pedi desculpas para não ficar bancando o inocente
arrependido. Um professor meu uma vez me disse que ficar pedindo
desculpas toda a hora é hipocrisia, pois a pessoa nunca vai se
redimir dos seus pecados. Mas saiba o quanto fiquei envergonhado do
que eu fiz. E entendi porque você mudou o seu tratamento comigo e
parou de me telefonar todos os dias.
—
Pois
é. Agora quem te pede desculpas sou eu. Em que eu posso ajudar para
corrigir o meu erro? Vou te indicar para escrever naquela revista
famosa, onde trabalha um amigo meu. Ela paga muito bem. Vai gostar
dos seus contos. E vou te chamar para você ser assistente de direção
do meu próximo filme. E desta vez é pra valer. Não vou te barrar
como da outra ocasião.
—
Não
precisa fazer nada, não. Deixa pra lá, eu te perdôo.
—
Deixa
de ser orgulhoso, rapaz! Eu sei muito bem que você está precisando
de emprego. Agora deixa eu ir lá que os meus netos estão chegando
para passar o ano novo comigo. Um Feliz Ano Novo pra você.
Leôncio
desliga o telefone. Logo o seu celular toca.
—
Selton,
é a Keylane.
—
Até
que enfim você me ligou, hein? Ironiza Selton, que continua: —
Você sempre falou comigo pelo bate-papo. Mas eu não te bloqueei
não, viu?
—
Eu
sei. Eu ainda te vejo online. Mas preferi te ligar para dizer que
você estava certo ao me chamar de insensível. Somente agora eu me
toquei que você queria apenas desabafar os seus problemas e brincar
comigo. Eu te julguei e ainda me achei no direito de me sentir
ofendida com as suas brincadeiras. E ainda te chamei de egoísta.
Isto você ainda é, mas entenda essa afirmação como algo positivo.
A única coisa que eu ainda fico chateada é pela sua desconfiança
ao conferir se eu fiz o depósito para comprar o seu livro. Mas eu
também entendo a sua ansiedade.
—
Pois
é. Tudo que eu falava pra você eu estava errado.
—
Ah,
mas amigo não é obrigado a concordar sempre com o outro. Precisa
censurar de vez em quando.
—
Tudo
bem, você está certa. Mas você não concordava com NADA do que eu
falava. Pra você eu estava SEMPRE errado. Eu já estava com medo e
vergonha de desabafar os meus problemas com você. Eu estava sempre
errado, né? Por isso que eu me afastei.
—
Está
bem, Você está certo. Pode desabafar o que quiser comigo que eu
concordo.
—
Pode
deixar que agora eu já tenho a minha psicanalista.
—
Pois
é. Você também falou dos meus problemas para a sua analista.
Fiquei magoada com isso também. Tinha perdido a confiança em você.
Mas agora eu te entendo. Me desculpa? Vamos voltar a ser amigos?
Vamos conversar pelo bate-papo como sempre fazíamos?
—
Pode
ser.
—
Então
tá. Um Feliz Ano Novo pra você. Agora vou desligar porque a minha
mãe está me chamando para ajudá-la. Tudo de bom pra você. Muita
paz, muita alegria e quero voltar a ser sua amiga.
—
O
mesmo pra você, tchau.
Mal
acabou de desligar, o celular de Selton toca de novo.
—
Oi,
Selton. Aqui é a Taviane. Estou te ligando para te desejar um feliz
ano novo e dizer que eu esqueci todas aquelas coisas horríveis que
você me disse há alguns anos. Somente agora eu entendo o momento
pelo qual você estava passando naquela época. Agora estou ligando
em missão de paz.
—Você
não sabe o quanto fiquei arrependido de ter feito o que fiz. Você
se tornou um fantasma na minha vida nesses anos todos.
—
Eu
sei. Quero voltar a ser sua amiga. Você aceita?
—
Não.
—
Tudo
bem. Eu compreendo a sua resistência. Agora me deixa desligar que eu
estou saindo para encontrar o meu namorado para a gente passar o
réveillon juntos.
Selton
já tinha desligado antes. Ele recebe mais um telefonema. Era o seu
maior amigo e companheiro da faculdade.
—
Selton,
sou eu Renan. Estou te ligando para te avisar que somente agora eu
percebi o grande sentimento de amizade que você tinha por mim.
Amizade não. Fraternidade. Eu estou arrependido de evitar conversar
com você e de te tratar com frieza quando você me procurava pelo
bate-papo. Agora deixa eu ir que meus filhos estão me chamando para
brincar com eles. Feliz Ano Novo!
Mais
duas mulheres ligaram para Selton. Ambas desejando feliz ano novo e
pedindo desculpas. Uma jornalista do interior pelo bolo que dera ao
ter agendado uma entrevista e não comparecido. A outra, uma
ex-colega de faculdade pela grosseria com a qual respondeu a um
e-mail. Ela estava estressada com o trabalho e terminando com o
namorado depois de dez anos de relacionamento. Esclareceu que o rapaz
havia lido a mensagem e ficado com ciúme doentio. Nervosa respondeu
daquela forma. Mas deixou claro não ter gostado da crítica com uma
colega da turma que não tinha nada a ver.
Quando
esta última encerrou a ligação, Selton foi abrir a caixa de
e-mails. Quase todos os colegas da pós-graduação desejaram boas
festas. O antigo coordenador mandou um convite pessoal para a
exposição de arte da sua esposa. Uma outra mensagem se destacava.
Era de uma outra jornalista, esta da capital:
Caro
Selton,
Por
acaso comprei um livro de contos que você publicou. Acabei achando
aquele seu conto que o seu amigo virtual me recomendou. Somente agora
eu revi os meus conceitos e mudei de opinião. Percebi o quanto as
suas histórias são primorosas, apesar de alguns errinhos de
gramática. Não são infantis como eu havia achado no início. Reli
aquele outro e entendi o enredo da história e a sua intenção, que
foi colocar sarcasmo em uma história realmente infantil.
Feliz
Ano Novo!!
Mareliz
Dantas
Um
editor com o qual Selton havia feito contato pedindo uma oportunidade
também mandou e-mail desejando boas festas e pedindo desculpas por
ter achado todos os seus textos inverossímeis.
Propôs
editar um novo livro com um segundo volume de contos que Selton havia
enviado. Desde que fizesse uma boa revisão que o rapaz iria ajudar.
Por coincidência uma ex-professora de oficina literária se ofereceu
para revisar os textos e diminuir as inverossimilhanças e
incoerências que achou.
Animado
com tantas mensagens de ano novo, pedidos de desculpa e propostas que
recebeu por telefone ou por e-mail, Selton criou coragem. Ligou para
a irmã mais nova para pedir desculpas por um grande erro que cometeu
com a família.
—
Liliane,
sou eu, Selton. Feliz Ano Novo! Somente agora eu... A moça já
tinha desligado quando ouviu que era o irmão. As outras três irmãs
mais velhas fizeram o mesmo.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração.
Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de
São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess
- http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
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