Metáforas e outros recursos
O
ser humano, incrível animal que ama, odeia, chora, ri e... pensa,
gerou (e continua gerando) tamanha quantidade de ideias, que as
palavras, em todos os idiomas que existem, se tornaram insuficientes
para que fossem (e sejam) expressadas com pureza e com clareza. Teve,
pois, (e ainda tem) que recorrer a outros recursos, quer gráficos,
quer sonoros, quer audiovisuais ou quer, até mesmo, semânticos.
Neste último caso, vale-se de metáforas. As línguas, dinâmicas
como são, estão em perpétua metamorfose. Gestam, a todo o momento,
novas palavras, assim como abortam sucessivamente outras, que caíram
em desuso, num processo que não tem fim. Há quem abuse, todavia, da
criação de neologismos, por absoluta ignorância, por desconhecer
palavras que dizem exatamente o que quer dizer e que, por isso, cria
novas, e se sente “genial” por isso.
Sou
contrário, no entanto, a esse procedimento. Não se deve criar
neologismos, quando forem desnecessários. Boa parte dos que são
criados é dispensável se atentarmos bem. Defendo, por outro lado, a
utilização correta das palavras que já existem no nosso idioma, e
de forma clara, objetiva e oportuna. Vou mais longe: sou a favor que
sejam utilizadas, sempre, aquelas mais conhecidas pela população
(diria que são umas duas mil, se tanto).
Tenho
sempre em vista que escrever é um ato de comunicação, e mais
complexo do que pode parecer aos desavisados. Mas para nos
comunicarmos bem, temos, sobretudo, que ser entendidos por “todos”.
Se alguém não entender alguma coisa que escrevermos, por causa de
uma eventual mania de esbanjar erudição, fracassaremos rotundamente
em nosso texto, por mais sonoro e bem-arranjado que nos pareça. A
boa comunicação dispensa pirotecnia verbal. Tem, como condição
essencial, o entendimento por parte de quem lê.
Roman
Jakobson, um dos maiores comunicadores do século passado, se vivo,
concordaria comigo. Afinal, foi ele que declarou, certa feita: “
Prefiro evitar hoje termos novos em excesso. Por acaso, eu que já
criei inúmeros neologismos, livrei-me dessa doença terminológica”.
Da minha parte, estou tentando, também, me livrar dessa mania.
Mas
há ocasiões em que as ideias que se quer expressar são tão
complexas, que não há palavras em nosso dicionário que as definam
com exatidão. O que fazer então em nome da clareza? Deixar para lá
e fazer de conta que não se pensou aquilo? Recorrer a expressões
emprestadas de outras línguas, como o francês e o inglês? Age-se
muito dessa maneira e os galicismos e anglicismos, mesmo encarados
pelos puristas como erros de estilo, com o tempo e o uso findam por
se incorporar ao nosso léxico.
E
quando a ideia é tão complexa que nem em outros idiomas existe
expressão que a expresse com precisão e clareza? Nessas
circunstâncias, “empreste-se” um recurso característico da
poesia, que muitos utilizam em prosa, sem nenhuma necessidade: a
metáfora. O filósofo alemão, de etnia judia, Ernst Cassirer,
criador de uma “teoria dos símbolos” para definir cultura,
justifica assim o uso desse recurso, notadamente poético (embora não
exclusivo): “O homem, quisesse ou não, foi forçado a falar
metaforicamente, e isto não porque não lhe fosse possível frear
sua fantasia poética, mas antes porque devia esforçar-se ao máximo
para dar expressão adequada às necessidades sempre crescentes de
seu espírito. Portanto, por metáfora não mais se deve entender
simplesmente a atividade deliberada de um poeta, a transposição
consciente de uma palavra que passa de um objeto a outro”. Concordo
com Cassirer.
Aliás,
há tempos isso vem ocorrendo. Por exemplo, afirmar que o coração é
a sede e a origem dos sentimentos e emoções é, até certo ponto,
metafórico. Ainda se fosse o fígado... haveria alguma lógica,
embora literalmente se trate de equívoco. Até uma criança
razoavelmente informada sabe que quem comanda nossos sentimentos e
pensamentos é o cérebro. Nele está a sede do amor, do ódio, da
esperança, da fé, da amizade e vai por aí afora.
O
coração é importante, sim, (como ademais qualquer outro órgão do
nosso corpo), pois tem a tarefa de bombear sangue, ininterruptamente,
para todo o organismo, levando oxigênio e nutrientes para toda a
parte e conduzindo gás carbônico para os pulmões, de onde é
eliminado, como no processo (falando metaforicamente) de um
escapamento de automóvel. Mas sempre que se quer expressar atração
irresistível por uma pessoa, por exemplo, costuma-se dizer que o
“coração tem amor por ela”. Óbvio que não tem. Quem tem é o
cérebro. Quando se sofre uma frustração amorosa qualquer, dizemos
estamos com “o coração partido”. Mas se alguém estiver nessa
condição (literalmente)... é bom já ir providenciando o seu
enterro.
Sobre
a preponderância do fígado sobre o coração, encontrei este
delicioso texto do poeta Pablo Neruda (que também não deixa de ser,
por seu turno, metafórico) : “Enquanto o coração bate e atrai a
partitura da mandolina, lá dentro filtras e repartes, separas e
divides, multiplicas e engraxas, sobes e recolhes os fios e as gramas
da vida, os últimos licores, as íntimas essências. Víscera
submarina, medidor de sangue, vives cheio de mãos e olhos, medindo e
transvasando em tua escondida câmara de alquimista. Amarelo é o teu
sistema de hidrografia rubra, feiticeiro da mais perigosa
profundidade do homem, ali escondido, sempre sempiterno, na usina,
silencioso. E todo sentimento ou estímulo cresceu em tua maquinaria,
recebeu alguma gota de tua elaboração infatigável, ao amor
acrescentaste fogo ou melancolia; uma pequena célula equivocada ou
uma fibra em teu trabalho, e o aviador se equivoca de céu, o tenor
se precipita num silvo, ao astrônomo escapa um planeta”.
Na
verdade, para ser honesto com você, paciente leitor, devo confessar
que cheguei a esse texto por tabela. Não o encontrei diretamente em
nenhum livro de Neruda como possa ter ficado implícito , mas
transcrito por outro grande poeta (este, brasileiro, aliás mineiro),
Paulo Mendes Campos, que fez essa citação na crônica intitulada
“Bom humor”, publicada na coluna que assinou por muitos anos na
Revista Manchete, da Editora Bloch, neste caso uma de 1966. Ficou
claro? Espero ter dado com competência meu recado de hoje.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Tudo por causa do coração. Na emoção forte com grande liberação de adrenalina, o órgão que dá sinal mais vistoso é o coração, daí os homens primitivos pensarem ser este órgão que sente amor.
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