A religião e a exteriorização dos sentimentos
* Por
Luís Valente Rosa
O
Natal, para mim, simboliza a concórdia entre os homens, o tempo em
que abandonamos todas as nossas lutas fratricidas exteriores,
esquecemos a violência do mundo, voltamos para o interior de nós –
normalmente para junto dos que mais amamos – e procuramos a paz. É
este o meu «espírito de Natal».
Não
sendo crente, a única coisa que me leva a suportar as compras por
atacado (para além da pressão dos outros para que se cumpra a
tradição) é a promessa de ver gente feliz, sobretudo as crianças,
e de reunir em harmonia os que a vida, por vezes, separa.
Neste
Natal, porém, somos especialmente confrontados com o horror da
barbárie dos radicais islâmicos. E, não querendo ir, passado
adentro, à procura de causas e de comportamentos semelhantes por
parte dos não-islâmicos – de fato, penso ser muito importante
concentrarmo-nos no futuro e esquecer o passado, de outra forma não
sairemos nunca de um círculo vicioso de vingança –, pergunto-me
se a reserva, para o absoluto privado, das nossas convicções
religiosas íntimas não poderia ser solução para uma pacificação
futura. Isto, porque, na minha opinião, a fé religiosa é, e deve
ser considerada, um fenômeno íntimo, privado, pessoal. Penso até,
às vezes, que se pode manifestar de formas totalmente diversas do
habitual, por exemplo quando um não crente como eu endeusa ao
exagero um Vergílio Ferreira, um Rembrandt ou um Keith Jarrett.
Assim, e porque nunca me lembraria de fazer, com a família toda, uma
festa anual comemorativa do nascimento do Vergílio (28 de Janeiro,
para que conste), também me interrogo profundamente a respeito das
festividades exteriores que celebram os nossos outros sentimentos
pessoais, incluindo os religiosos.
Por
ter andado num colégio inglês, sou muito sensível a esta questão
da exteriorização dos sentimentos. Apesar de alguma «snobeira»
inglesa ter inventado pequenos artifícios para identificar a classe
social de uma pessoa (a começar pelo vocabulário e pela pronúncia),
temos de reconhecer que eles têm tentado – talvez mais do qualquer
outro povo que eu conheça – impedir que o exterior público
identifique o que se passa no interior privado. Dou dois exemplos: a
tradicional «fleuma» britânica: a pessoa não pode pestanejar, nem
que lhe caia um andaime em cima; e a uniformização da roupa (todos
os gentlemen andam mais ou menos vestidos da mesma maneira), a
começar pelas fardas dos colégios, para não existirem exibições
de status.
Muito
bem. A minha ideia é simples: uma vez que a religião é usada por
muitas comunidades e muitos povos como razão para o ódio e para a
violência, não deveríamos nós evitar as manifestações coletivas
exteriores de raiz religiosa, mesmo no seio da família, de modo aos
indivíduos não exibirem sinais exteriores que os identificassem com
uma qualquer religião, ajudando assim ao cumprimento dos objetivos
mais elevados do «espírito de Natal» (interiorização e paz)?
Falo
da família porque – já o escrevi aqui há algum tempo – me
preocupa o condicionamento que fazemos das nossas convicções
adultas junto das crianças. Vou por isso terminar recordando uma
cena do filme «Gandhi», que me parece elucidativa. No início da
divisão entre a Índia e o Paquistão, começaram as chacinas entre
hindus e muçulmanos – como é próprio dos povos que têm excesso
de religiosidade e defeito de humanidade. Um dia (no filme, claro),
um hindu veio ter com Gandhi a chorar por ter medo de ir para o
Inferno, uma vez que tinha assassinado uma família muçulmana,
nomeadamente o filho de cinco anos desta. E fê-lo, porque muçulmanos
tinham, dias antes, assassinado o seu próprio filho, também de
cinco anos. Gandhi disse-lhe então que conhecia uma maneira de ele
não ir para o Inferno: teria de procurar um menino órfão e
abandonado, de cinco anos (depois dos motins, havia-os aos montes), e
criá-lo como se fosse seu filho. Mas, acrescentou Gandhi, com olhar
iluminado: teria de escolher um menino muçulmano. E deveria educá-lo
como um muçulmano…
Era
certamente neste momento, quando o filme passou no cinema, que as
pessoas soltavam um «Ahh…» sonoro e dorido de comoção perante
tamanha grandeza de alma. Mas eu revoltei-me: o que é uma criança
órfã de cinco anos, muçulmana? Como é possível uma pessoa
atribuir-se o direito colar um rótulo destes a um inocente? Quanto
passado que nos é alheio temos nós de carregar às costas? Se fosse
uma guerra entre fascistas e comunistas, imagina-se o Gandhi a dizer
ao comunista para procurar uma criança órfã de cinco anos,
fascista?
Há
uns dias, andava nas compras Natal e tropecei na grande frase de
George Bernard Shaw: «life is not about finding yourself; life is
about creating yourself» (mal traduzido, será: «o objetivo da vida
não é encontrarmos o nosso eu, mas criarmos o nosso eu»).
*
Escritor português, autor do livro “O homem novo”.
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