Robin
Hood às avessas
* Por
Frei Betto
Reforma
da Previdência no Brasil é Robin Hood às avessas. O governo Temer
quer tirar ainda mais dos pobres para poupar os ricos. Esta a
conclusão dos estudos feitos pela Oxfam, conceituada instituição
britânica. Apenas em 2016 o nosso país deixou de arrecadar, por
falhas e omissões no recolhimento de impostos, R$ 546 bilhões!
Este
o valor das isenções tributárias que o governo concedeu a
determinados setores da economia, como a indústria automobilística.
Graças a esse pacote de bondades, apenas em isenções fiscais os
cofres públicos deixaram de arrecadar R$ 271 bilhões. Isso
significa menos saúde, educação, saneamento, segurança etc.
Na
opinião da diretora-executiva da Oxfam, Katia Maia, o Brasil precisa
“eliminar esses benefícios e ser rígido nos controles da
sonegação fiscal. A gente sabe que o Brasil deixa de arrecadar por
uma sonegação grande. Também deixa de arrecadar por mecanismos
(legais) que fazem com que as pessoas e empresas não paguem
impostos. E ainda deixa de arrecadar com uma série de isenções
fiscais para vários setores”.
O
Sinprofaz (Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional)
estima em R$ 275 bilhões as perdas de arrecadação.
O
Ministério da Fazenda calcula que o rombo da Previdência em 2018
seja de R$ 202,2 bilhões. Ou seja, com a perda de receita apontada
pelo relatório da Oxfam, daria para custear todas as aposentadorias
e pensões e ainda sobrariam R$ 343,8 bilhões.
A
cifra de R$ 546 bilhões sonegados aos cofres públicos representa 12
vezes o orçamento do Ministério da Saúde em 2016, calculado em R$
43,3 bilhões.
O
estudo cita um exemplo da chamada evasão fiscal dentro da lei. O
setor de mineração usa ‘manobras’ que reduzem em até 23% o
montante de tributos a ser pago aos cofres públicos.
Oded
Grajew, presidente do conselho deliberativo da Oxfam, ressalta que o
problema do Brasil não é a elevada carga tributária, e sim o fato
de não retornar à população na forma de benefícios sociais, como
educação e saúde de qualidades, e ser dilapidada pelo mau uso da
máquina pública.
Grajew
acrescenta que “as reformas tributária e fiscal são importantes”,
mas faz uma ponderação: “Isso tem que ser acompanhado de justa
distribuição dos recursos. Porque se continuar com a mesma
distribuição, você não muda o quadro das desigualdades
(sociais).”
A
Oxfam critica o fato de o Brasil ter poucas alíquotas de Imposto de
Renda da Pessoa Física. Katia Maia explica: “Uma revisão das
alíquotas do imposto de renda é importante. Na base tem tantas
pessoas com salários tão baixos e que pagam imposto de renda. A
nossa tabela está congelada há 8 anos.”
A
distorção tributária é tanta que, segundo o estudo, quem ganha
320 salários mínimos por mês (R$ 299,8 mil) paga a mesma alíquota
efetiva (após descontos e deduções) de IR de quem ganha cinco
salários mínimos (R$ 4.685).
*
Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou”
(Saraiva), entre outros livros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário