Saudações,
pobres mortais
* Por
Marcelo Sguassábia
CRIÔNICA:
PROCESSO DE PRESERVAÇÃO EM BAIXAS TEMPERATURAS DE HUMANOS QUE NÃO
PODEM MAIS SER MANTIDOS VIVOS PELA MEDICINA CONTEMPORÂNEA,
SUPONDO-SE QUE A REANIMAÇÃO SEJA POSSÍVEL NO FUTURO.
Errou.
Essa não é mais uma ficção envolvendo congelamento de cadáveres
que a evolução científica consegue trazer de volta à vida num
futuro distante.
Enquanto
cadáver congelado eu mantenho-me lúcido e pensante, tenho
consciência do que quis que fizessem comigo e da minha condição de
hibernante por tempo indefinido. Não respiro, meu coração não
pulsa, mas o cérebro funciona e a memória permanece tão intacta
quanto todos os órgãos do meu corpo, inerte e imerso em nitrogênio
líquido.
A
primeira e desesperadora constatação é ter perdido a noção de
quanto tempo se passou do óbito até aqui. Tudo é um breu à minha
volta, provavelmente há décadas. Talvez séculos. Não o presumível
breu da cápsula fechada, pois minha visão e todos os demais
sentidos estão inoperantes. É a escuridão interna, o apagão
generalizado do organismo, à exceção do cérebro. Ninguém sabe
dessa faculdade dos criogenizados, pois ninguém jamais foi
criogenizado e voltou à vida para dizer como foi a experiência.
Tudo indicava que a atividade cerebral, como as demais funções
vitais, cessava com o procedimento criônico. Não consideravam a
possibilidade do eterno estado de alerta dos neurônios.
O
sono não existe por não haver cansaço. E mesmo que o pânico em
vivenciar o nada me fizesse optar pelo suicídio eu não conseguiria
cometê-lo, pois qualquer movimento é impossível. A cabeça poderia
até dar a ordem, mas o corpo não obedeceria. Eu teria que estourar
o crânio nas paredes da cápsula e torcer para que os miolos
espatifados me libertassem enfim dessa odiosa lucidez. Mas não posso
me mover.
Quanto
mais eu desejo não pensar, mais eu me desobedeço. São raros os
“gaps” de consciência, parecem durar segundos, quando tenho a
felicidade de experimentá-los.
VOCÊ,
QUE ME LÊ SABE-SE LÁ EM QUE PONTO DO TEMPO, ESTRANHARÁ O FATO
DESTE TEXTO PODER TER SIDO ESCRITO, CONSIDERANDO-SE A MINHA
PERMANENTE IMOBILIDADE E A IMPOSSIBILIDADE DE COMUNICAÇÃO. MAS SÃO
IMPRESSÕES DE UM PERÍODO DO QUAL JÁ ESTOU LIBERTO. UM TESTEMUNHO,
RECONSTITUÍDO, DE UMA AGONIA QUE JÁ FOI. ME DESCONGELARAM. VIVO
PARA SEMPRE.
*
Marcelo
Sguassábia é redator publicitário. Blogs:
WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e
WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Pegou-me parcialmente pelo pé. Não pensei nisso, na impossibilidade e só instantes antes do fim, foi que pensei, e exatamente no momento em que você fez o alerta.
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