Galeria Metrópole
* Por
Laís de Castro
Não vou revelar detalhes da
nossa noite de núpcias,
primeiro porque ninguém tem nada com isso, e depois, porque eu tenho
vergonha mesmo, mas posso afirmar que quando ela me abraçou e me
beijou naquela cama macia, eu me senti como se comesse uma travessa
monumental de corações de alcachofra na manteiga e coração de
alcachofra é a coisa que mais gosto no mundo, depois vem
marshmallow, e depois água com gás. Aquilo, que começou no subsolo
dois de uma galeria nojenta do centro da cidade, depois de dois
meses, estava complicando a minha vida.
A cerveja trincava de gelada e
nós sentadas naquele bar da Galeria Metrópole, lá embaixo, como se
o prédio todo em cima pudesse esconder as idéias contra a ditadura
militar ou, no mínimo, proteger nossas cabeças contra as balas
perdidas do regime naquele ano sem graça de 1967. Nem vale a pena
desfiar os crimes cometidos por aquele desgoverno como um rosário
doloroso, mas é preciso que todos saibam que éramos uma geração
cabisbaixa e enxertada de medos.
Nessa noite, porém, tinha
apenas acabado mais uma gravação do programa O Fino da Bossa e
vínhamos de aplaudir a magnitude de Elis Regina, a inspiração de
Chico Buarque e o vigor da voz de Milton Nascimento e muita gente boa
mais, que não quero ficar repetindo que eu não sou relógio de
repetição. Por enquanto nos (des)contentávamos em aplaudi-los e
chorar os amigos mortos. Conseguíamos separar as coisas e continuar
desfrutando de alguma alegria, porque quando a gente é jovem a vida
exorbita, o sangue se encaichoeira nas veias, somos imortais seres do
amor o corpo e o coração abertos como as portas dos nossos olhos e
ouvidos que tudo vêem, ouvem e saboreiam.
Com os cotovelos nas mesas de
madeira que mal se via com a parca iluminação daquele subsolo
escuro se amontoavam os amigos de palco e platéia, os cantores,
tocadores e batedores de palmas, havia uma cumplicidade tácita, cada
um no seu canto, a gente não ia pedir para tirar fotografia junto e
nem atrapalhava a cerveja deles, eles não vinham pedir para sair na
revista, quer dizer, eu era jornalista, portanto eles não
atrapalhavam a nossa. Estivemos lá dezenas de vezes, a cerveja
trincando de gelada, os famosos tentando apenas ser anônimos e tomar
em paz seu álcool reconfortante de cada noite, os anônimos não
tentando nada além do direito ao papo de botequim e à sua emoção.
O Barbudinho era um bar onde todos eram iguais na paúra, na saudade
e na ânsia de só ser. Parecia haver ali uma placa: proibida a
entrada da ambição, de alpinistas e de fotógrafos.
Pois ali mesmo, apesar de
tudo, parecia que aquele gênio da música estava me olhando há
horas, um jeito fixo, carinhoso, quase trêmulo. No começo nem
pensei que fosse comigo, tenho essa mania besta até hoje, de achar
que sou baixinha, feia e sem atração nenhuma, mas era comigo,
alguém me proteja, socorro, aquela cara está me olhando. Meio sem
jeito eu cruzava as pernas de um lado, elas ficavam mais à mostra
por causa da saia curta (lembram da minissaia, vocês aí?), cruzava
do outro, micava mais, acho que dava bandeira da minha falta de
graça, ela quase sorria com o olhar que continuava parado em mim.
Perguntei pro pessoal da mesa se aquilo estava acontecendo mesmo e
eles disseram que sim. Tímida, tomei uns mil copos da cerveja
trincando.
Para encurtar essa história
maluca, depois de umas quatro horas foi que eu imaginei estar comendo
aquela travessa de alcachofras de que falei lá em cima. No dia
seguinte, ela se levantou, vou para o Rio de Janeiro, moro lá, mas
na semana que vem tenho que fazer O Fino de novo (fazer
era cantar lá e O Fino da Bossa, para os mais jovens, era o programa
de MPB comandado por Elis Regina na TV Record de então, de saudosa
memória) eu te vejo no Barbudinho e eu lá quieta, sentada na mesa,
tomando o café mais preto do mundo, não precisa me dizer nada,
pensava, eu sou jornalista e sei que você é casada e tem um filho
pequeno, porra. Em casa, aquela noite não me saía da cabeça, nem
do estômago que doeu o dia inteiro e nem dos pulmões, eu fumava
tanto que tossi o dia todo. Sou burra, besta, porque fui fazer isto,
uma alteração mental, um frenesi, imprudência, insensatez, sei lá
o que mais, isso pode dar uma merda só, naquele tempo, todos hão de
convir que não era como é hoje. Aconteceu de novo na semana
seguinte e na outra e na outra. Meu coração estava encharcado
daquela paixão e eu me entreguei mais cegamente do que morcego de
dia, tinha a impressão de que aquela mulher tinha nascido para ser
minha, todo mundo odiava a segunda-feira, eu esperava como uma
criança espera o seio materno que vai lhe alimentar.
Com 20 anos eu precisava
trabalhar, então fiz uma espécie de bolsa para guardar todo aquele
amor, pendurei no peito e não dei nenhuma bandeira. Era tudo
guardado a oitocentas chaves, sete seriam pouquíssimas naquele caso.
Eu chorava, ria, viajava do extremo desespero à mais cruel euforia,
que em cubículos de alucinação deste tipo só pisam os apaixonados
ou mães que perdem filhos e em camarotes de euforia só se sentam os
desesperançados. Bebia, ávida, toda a água do flagelo e da fortuna
do amor num gole. Para saciar aquela sede nem mesmo toda a água do
universo.
Na minha aparência, contudo,
não deixei que a mutação sequer tangenciasse. Eu era a mesma. Se
me arrancassem a pele, sim, surgiria uma ferida profunda, onde a
tristeza e a felicidade se misturavam como café e leite.
Era exatamente uma xícara de
café com leite que eu sorvia, com a paz possível, antes de sair
para o trabalho, quando o telefone tocou eu te amo, eu te amo, eu te
amo, falava devagar e pausadamente a voz que o país inteiro
conhecia, como se quisesse que a mensagem fosse melhor entendida.
Tola, perplexa e muda, do lado de cá, esqueci de perguntar como ela
sabia meu telefone, que, vocês hão de lembrar, em 1967, celulares
eram objetos de filme de ficção, os números de São Paulo só
tinham cinco algarismos e DDD, nem pensar. As ligações eram feitas
por telefonistas que avisavam, solenes, demora de duas horas,
chamarei depois. A cabeça zumbindo, eu também te amo, eu também
te amo, escandi cada sílaba e ela avisou vou fazer a bosta da Jovem
Guarda domingo, por um lado odeio tudo isto, por outro venero porque
me leva até você, espero lá e aí a gente foge daquele monte de
chatos logo que eu acabar, que merda, ter que cantar lá, tudo culpa
do festival.
Depois daquele telefonema,
quando pisei na redação perguntaram se eu tinha chorado, tinha, meu
cachorro morreu, nunca tive um cachorro na vida, mentia para os
amigos, para a família, andava na transversal, o que tinha, na
verdade, era um medo desgraçado que me zumbia na cabeça como motor
de carro velho, aos trancos e barrancos. Depois de três meses eram
três vezes por semana, não sei como ela se virava, mas estava
sempre ao meu lado, o telefone tocava toda hora, eu te amo, não me
deixa, eu só repetindo que também, que não deixava, travada total,
entregue ao destino, tinha um colega de redação a quem eu contava
tudo – afinal, sucumbi, ninguém é de aço – ela era árabe,
maktub, me dizia e me abraçava e conversava comigo quando eu descia
os degraus da perdição até um buraco mais fundo do que aquele
subsolo onde tudo começara.
Eu era a mais feliz de todas
as mulheres que já haviam pisado na face da terra. E a mais infeliz.
Eufórica. Depressiva. Naquela redundante montanha russa mental,
sorvia em goles a doce paixão ancestral e vomitava em amargas e
caudalosas golfadas o pavor do fim vaticinado.
Reunião de pauta, o poderoso
chefão despachando as duplas, você e o Ferreira vão ver porque O
Fino da Bossa acabou, não vai mais pro ar. Vê se tira uma
entrevista bomba... eu não ouvi nem mais uma palavra do que ele
dizia e minha roupa ficou inteira molhada de um suor súbito, todo
mundo querendo saber o que era aquela palidez total, pressão alta,
pressão baixa, água com açúcar, sal embaixo da língua, senta
aqui, deita, vai pro ambulatório, não vou, já melhorei vambora
Ferreira, toca pro trabalho. No carro, sentada atrás, ruminei meu
susto com farinha, engoli seco meu pavor. Com o que pude reunir de
coragem, fiz a reportagem, cumpri a tarefa, a cabeça viajando ao Rio
e voltando, as lágrimas galopando no meu sonho, querendo inundar o
mundo e presas à minha responsabilidade. Resiliente, diriam os
físicos, resiliente.
Vesti luto íntimo e corroí
meu cérebro de dor e desolação nos dois meses seguintes, como se
baratas o roessem e também roessem minha travessa de alcachofras.
Nunca mais pisei no Barbudinho.
Antes e além disso, na noite
daquele dia fatídico, não atendi o telefone que tocou madrugada
adentro, sem trégua.
*
Jornalista. Trabalhou no grupo Abril (3 prêmios Abril). na Editora
Três (sob Luís Carta), na Editora Símbolo onde foi diretora da
Corpo a Corpo, da Vida Executiva e da Dieta Já. É autora do livro
“Um velho almirante e outros contos”, pela Editora Siciliano.
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