A
cidadania desafiada pelo golpe parlamentar
* Por
Leonardo Boff
Entendemos
por cidadania o processo histórico-social que capacita a massa
humana de forjar condições de consciência, de organização, de
elaboração de um projeto e de práticas no sentido de deixar
de ser massa e de passar a ser povo, como sujeito histórico,
plasmador de seu próprio destino. O grande desafio histórico
é certamente esse: como fazer das massas anônimas, deserdadas
e manipuláveis, um povo brasileiro de cidadãos conscientes e
organizados.
Vejo
seis dimensões de uma cidadania plena:
-
A dimensão econômico-produtiva: a pobreza material e política é,
entre nós, produzida e cultivada pelas oligarquias pois assim
podem dominar e explorar melhor as massas. Isto é profundamente
injusto.
O
pobre que não tiver consciência das causas de sua pobreza pela
exploração não tem condições de realizar sua emancipação.
-
A dimensão politico-participativa: se as pessoas mesmas não lutarem
em prol de sua autonomia e por sua participação social nunca serão
cidadãos plenos. Não tanto o Estado mas a sociedade deve, em
suas várias formas de organização e de luta, assumir esta tarefa.
-
A dimensão popular: o tipo de cidadania vigente é de corte
liberal-burguês, por isso inclui os que têm uma inserção no
sistema produtivo e marginaliza os demais. É uma cidadania reduzida.
Não se reconhece ainda o caráter incondicional dos direitos
independentemente de posse, de instrução e de condição social.
A
construção da cidadania deve começar lá em baixo e estar aberta a
todos. Ela já é exercida nos inúmeros movimentos sociais e nas
associações comunitárias onde os excluídos constroem um novo tipo
de cidadania e de democracia participativa.
-
A dimensão de con-cidadania: a cidadania não define apenas a
posição do cidadão face ao Estado, como sujeito de direitos e não
como um pedinte (não se há de pedir nada ao Estado mas reivindicar;
os cidadãos devem organizar-se não para substituir o Estado mas
para fazê-lo funcionar). A con-cidadania define o cidadão face a
outro cidadão, mediante a solidariedade e a cooperação, como
paradigmaticamente foi mostrado na Campanha contra a Fome, a
Miséria e em favor da Vida, herança imorredoura de Herbert de
Souza, o Betinho.
-
A cidadania ecológica: cada cidadão e toda a sociedade têm o
direito de gozar de uma qualidade de vida decente. Isso só é
possível se houver uma relação de cuidado e de respeito para com a
natureza. E se mostra pela não poluição do ar, das águas.
dos solos e a não quimicalização dos alimentos. Cada cidadão deve
se conscientizar degarantir um futuro à Casa Comum e herdá-la
habitável para as gerações futuras.
-
A cidadania terrenal: a con-cidadania se abre hoje à dimensão
planetária, incorporando cuidado para com única Casa Comum e
com bens e serviços limitados. Importa viver os vários erres
(r) do pensamento ecológico: reduzir, reusar, reciclar, rearborizar,
rejeitar a propaganda enganosa, respeitar todos os seres etc. Não
somos apenas cidadãos nacionais mas também terrenais, responsáveis
pela Terra, como Casa Comum.
Nesse
momento após o golpe jurídico-parlamentar de 2016 a cidadania é
desafiada a confrontar-se com dois projetos antagônicos,
disputando a hegemonia: o projeto dos endinheirados, antigos e
novos, articulados com as corporações transnacionais querem um
Brasil menor, de no máximo 120 milhões, pois assim, acreditam,
daria para administrá-lo em seu benefício, sem maiores
preocupações; os restantes milhões que se lasquem pois sempre se
habituaram a viver na necessidade e sobreviver como podem.
O
outro projeto, assumido pela cidadania, quer construir um
Brasil para todos, pujante, autônomo e soberano face às pressões
das potências militaristas, técnica e economicamente poderosas que
visam a estabelecer um império do tamanho do planeta e viver da
rapinagem das riquezas dos outros países. Estes se associam
com as elites nacionais, que estão atrás do golpe de 2016. Elas
aceitam ser sócios menores, ao troco de vantagens de seu
alinhamento ao projeto-mundo. Assim fizeram no golpe civil-militar de
1964 e no atual jurídico-parlamentar de 2016.
A
correlação de forças é muito desigual e corre em favor das
oligarquias endinheiradas. Mas estas não têm nada a oferecer para
os milhões de brasileiros, especialmentepara os pobres, senão mais
empobrecimento. Estas elites não são portadoras de esperança e,
por isso, são condenadas a viver sob permanente medo de que, uma
dia, esta situação possa se reverter e perderem sua situação de
opulência e de privilégios. Esse dia chegará.
O
futuro pertence especialmente aos humilhados e ofendidos de nossa
história que herdarão as bondades que a Mãe Terra-Brasil
reservou a todos. Valeu a pena a sua resistência, a indignação e a
coragem de mudar em direção de um Brasil do qual podemos nos
orgulhar.
* Leonardo Boff é teólogo e autor de “Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito”, “Cuidar da Terra-Proteger a vida” (Record, 2010) e “A oração de São Francisco”, Vozes (2009 e 2010), entre outros tantos livros de sucesso. Escreveu, com Mark Hathway, “The Tao of Liberation exploring the ecology on transformation”, “Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz” (Vozes, 2009). Foi observador na COP-16, realizada recentemente em Cancun, no México.
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