Paulinho do Bandolim
* Por Risomar Fasanaro
Quando ele
estava ausente, minha mãe sempre se referia a ele como “Paulinho, meu
filho”...Ele era o seu predileto, embora ela negasse isso de pés juntos, mas
nós, os outros três, sabíamos que ele era tudo pra ela.
E mesmo
quando já bem doente, e era eu que cuidava dela 24 h por dia, era
assim que a ele, ela se referia: “Paulinho meu filho é muito bom, todos
os domingos vem me visitar...” E eu tinha de engolir aquilo calada, mesmo
porque sou talvez sua fã número 3, já que ela era a número um e Dalmar, a
mulher, a número dois.
Acho que até
hoje, lá no céu, onde sempre nossas mães estão, ela não nos cede seu lugar. Uma
prova? Sabia todos os nomes dos choros que ele tocava.
Mas a
ligação de Paulo com o bandolim começou com uma brincadeira. Todas as
tardes, quando todos nós, crianças, nos juntávamos para brincar, na Vila
Militar de Socorro, Pernambuco, íamos à casa do seu Bonfim, um dos sargentos
que moravam na Vila.
Seu Bonfim
tinha um cavaquinho, e não me perguntem a razão, porque
não tocava nada, nem a esperança de ter algum descendente que viesse a
tocar havia, já que ele não tinha filhos, nem sobrinhos, nem nada. Era só ele e
a mulher, dona Luci, um casal gaúcho maravilhoso...
Ele tinha o
hábito de todos os dias presentear o cavaquinho a um de nós. Só que no
dia seguinte pedia o instrumento de volta. Assim, o cavaquinho passou por umas
oito, dez mãos, passeou por umas dez casas, mas sempre voltava ao lar: a casa
do seu Bonfim.
Há coisas
inexplicáveis: por que diariamente ele dava aquele cavaquinho a um de nós e no
dia seguinte o pedia de volta? Eu sempre lhe dizia: quando for minha vez, não
vou devolver, vou ficar com ele pra sempre e aprender a tocar.
E aquele dia
chegou: ele me deu o cavaquinho de presente. E fiz metade do que havia
prometido. Levei o instrumento para casa. Creio que já naquele tempo meu anjo
Guerrilheiro cochichava coisas, inspirações em meu ouvido.
No primeiro
dia tentei “tocar” alguma coisa, mas em poucos instantes ficou provado que eu
não tinha o menor talento para a
música.
Durante
alguns dias o instrumento ficou em cima do guarda-roupa sem que ninguém mexesse
nele. Sempre acreditei que os objetos confeccionados com matéria viva também
têm alma, e que alguns se destinam ao seu dono desde sua fabricação. Aquele
cavaquinho talvez soubesse disso. Não sei. Ali ficou, como se precisasse de
algum tempo se preparando para a missão que viera cumprir.
Lembro-me de
que meu pai foi falar com o colega, “preciso devolver o cavaquinho que minha
filha levou...” mas seu Bonfim o sossegou: “pode deixar, eu dei o
instrumento a ela”.
Depois
daquele estágio em cima do guarda-roupa, meu irmão Paulo começou a arranhar o
instrumento. Ficávamos encantados ouvindo-o tocar as primeiras notas de “É com
esse que eu vou...”
Como se tudo
estivesse premeditado, alguns dias depois Bernardo, um primo de minha mãe que
viera de Natal, foi morar conosco e disse ao meu irmão que aquela
afinação não era bonita. Que afinação bonita era a de bandolim. Afinou o
instrumento e ensinou uns sete acordes ao meu irmão, que a partir
dali começou a achar que tocava. Mal, mas tocava. Paulo estava com catorze anos
naquela época.
Um dos
amigos dele, Everaldo, era metido a cantor, e assim o grupo de meninos criou o
“Divina Poeira”. Grupo que hoje se chamaria de banda. Uma banda musical de
quinta categoria, e que recebeu aquele nome porque tocava embaixo de um
poste em frente à nossa casa em meio a poeira da rua, porque o som era tão ruim
que ninguém agüentaria aquilo dentro de casa, atrapalhando os programas da
estação de rádio cujo slogan era: Rádio
Jornal do Comércio de Pernambuco
falando para o mundo. No caso, o mundo não chegava nem à beira do rio
São Francisco, mas que dava um orgulho danado ouvir aquilo na voz de um
apresentador eloqüente, dava...
Enquanto
isso meu irmão Paulo ia tocando seu cavaquinho com afinação de bandolim.
Vendo
seu interesse por música, sargento Albuquerque, maestro da banda do quartel,
pediu a ele que tocasse alguma coisa, e após a execução lhe disse: “menino,
você tem que tocar é bandolim. Bandolim tem um som mais grave, mais cheio, as
cordas são duplas... Tocar cavaquinho com afinação de bandolim não é o
ideal...”
O sonho de
ter um bandolim passou a ocupar a cabeça do meu irmão. Naquela época ele estudava
no Ginásio Pernambucano e quando saía do colégio, ia até a rua da
Imperatriz ver os instrumentos musicais na Casa Moderna, uma loja
de instrumentos que ficava na esquina da rua Nova com a Praça Joaquim
Nabuco. Na vitrine, seduzindo-o, brilhava um bandolim de cuia, que custava R$
550,00 (mil réis,cruzeiros?...não sei dizer).
O que sei é
que o preço daquela cuia mágica de onde emanava a promessa de muitas canções
custaria muitos vestidos, blusas e saias costuradas por minha mãe, até
altas madrugadas; pois o salário de sargento do meu pai, mal dava para as
despesas normais. E todos nós sabemos, já naquela época o que é essencial
para o artista é supérfluo para as demais pessoas. Ainda mais quando esse
artista é apenas semente que sequer germinou.
Enquanto
isso, durante a semana ele ia a Piedade, onde se juntava a Miruca, Baixinha e
Zé do Carmo, três grandes músicos, e nos finais de semana saía com os
outros integrantes do “Divina Poeira” para ir à Curva do Caranguejo, em Jaboatão. Lá existia
um casarão imenso com umas oito janelas na frente. Os garotos ficavam na janela
que dava para um salão onde Tia Amélia (Amélia Brandão) tocava piano
e Aprígio de França bandolim. Aquelas audições acirravam mais e mais seu
desejo de ter um instrumento.
Todos os dias
pedia um bandolim à minha mãe, e um dia ela conseguiu juntar o dinheiro e os
dois foram à Loja, no Recife, comprar o
instrumento que veio sem capa, mas ela costurou uma de brim azul para
protegê-lo.
Por essa
época, o bandolinista da família
andava mal em matemática, por isso meus pais contrataram um professor
particular para ele em Coqueiral, bairro próximo do Recife. Um dia,
saindo da aula de matemática, “Paulinho meu filho” passou em frente a uma casa
de onde saía o som de um bandolim. Encostou-se à janela e ali ficou ouvindo o
instrumento. A partir daquele dia todas as vezes que saía da aula particular,
passava por aquela casa para ouvir Aprígio de França.
Aprígio não
só tocava todas as composições de Luperce Miranda, um dos maiores bandolinistas
do país e que faleceu há poucos anos, como era também exímio em sua
arte. E curioso: ele fazia parte da banda musical da polícia de Pernambuco e lá
o instrumento que tocava era prato.
Paulo um dia
criou coragem e pediu a ele que o ensinasse, mas ele alegou não ter tempo
para dar aulas, e indicou o livro de Jacó Tomás, recomendando que ele estudasse
aquele livro. Para decorar a posição das notas, meu irmão colou etiquetas com
os nomes de cada uma, no braço do bandolim, e assim aprendeu.
O tempo
passou e viemos para São Paulo. Aqui meu pai contratou um professor de música
para lhe dar aulas. Lembro-me de que um mês depois meu pai chegou todo
orgulhoso contando que o professor lhe havia dito: Fasanaro, eu não tenho mais
o que ensinar ao seu filho. Ele já é um músico, sabe tudo. Daqui a pouco ele é
quem vai me ensinar...” E de todas as lições que recebeu a mais
importante talvez tenha sido a daquele professor, tenente músico do 4° RI de Quitaúna
(onde Lamarca serviu), que lhe disse: “vá para o canto da parede e fique
tocando até que não ouça o mínimo barulho da palheta. Quando você conseguir
isso pode se considerar um bandolinista. “É só isso que lhe falta.”
Só agora,
depois que ele me contou essa lição que recebeu naquela época, é que me dou
conta de que achava estranho ver meu irmão pelos cantos da sala, de frente para
as paredes, quase grudado a elas, tocando. Pensava com meus botões: “como os
artistas são estranhos...”
A verdade é
que ele passava todo tempo livre agarrado àquele instrumento. Já era rapaz,
quando às vezes chegava de madrugada, dava umas batidas leves na porta do meu
quarto e perguntava: “você está dormindo?” e eu que tenho um sono levíssimo, já
acordada dizia que não e ele: “eu quero te mostrar um acorde novo que eu
descobri. Quer ouvir?” Eu dizia que
sim e ele sentava aos pés da minha cama e me mostrava.
Paulo
comprava todos os discos de choro de Jacó do Bandolim, de Pixinguinha e de
vários outros. Quando já tocava muito bem, fundou, com mais dois violonistas e
um pandeirista o Conjunto Odeon. Com esse grupo ganhava o primeiro lugar em
todos os programas de calouros que participavam.
Além de
instrumentista Paulinho do bandolim tem mais de oitenta composições. Entre elas
“Um piano e uma saudade”, valsa composta assim que aqui chegamos, “Caxangá” e
“Gaibu”, choros, a valsa “Flauta de Ébano” e “Um maxixe para Elisa”,
entre outras. Suas composições atualmente são executadas por vários dos seus
amigos, mas apenas “Bandolins também choram” está gravada em uma faixa do
CD de Arnaldo do Cavaquinho, músico que ele considera um dos maiores do país.
Tem entre
seus compositores prediletos Pixinguinha, Jacó do Bandolim, Rossini
Ferreira, Luperce Miranda, Marco César, Waldir Azevedo e Ernesto Nazareth.
No final dos
anos setenta ele viajava daqui pro Rio de Janeiro. Descia no aeroporto e seguia
direto para o MIS. Lá copiava à mão partituras inéditas dos seus compositores
favoritos. Nos últimos anos em que fez isso, de tanto freqüentar o museu dois
funcionários passaram a copiar as partituras, também a mão, e enviar-lhe pelo
correio.
Hoje possui um dos maiores arquivos de partituras
do país. Partituras que ele repassa aos amigos que, como ele, amam a música, e
em especial, o choro.
Atualmente
toca em casa e aos sábados na Loja Contemporânea, onde se reúnem músicos de
todo o país. Lá é conhecido como Paulinho do Bandolim ou Fasanaro.
Mas de todo
seu repertório o mais emocionante pra mim, é ouvi-lo tocar “Asa Branca” em
dueto com a filha Simone ao piano. Emoção só superada ao vê-lo executar “Gaibu.
Pra mim talvez
seja esta sua composição mais importante, já que ele se inspirou naquilo que não viveu, é a
composição da ausência, porque quando em 45 meu pai foi transferido para lá,
todos nós fomos, mas ele ficou na casa dos meus padrinhos. É possível que
aquela separação o tenha marcado para sempre, daí a razão desse choro.
Composição que poderia ser uma valsa, mas a que ele imprimiu o ritmo de choro.
*
Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora,
autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio
Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão,
Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar
no Brasil.
Saudade do meu irmão que faleceu faz alguns anos. foi um dos maiores bandolinistas deste páis, mas por não ter procurado ser conhecido na mídia, morreu desconhecido. Mais de cem partituras de suas lindas composições continuam inéditas, Apenas 2 ou 3 sõ divulgada pelas moças do Três no choro>
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