Profissão e personalidade
* Por
Clementino Fraga
O médico moderno há de
ser um representante da nata intelectual, formado no consenso das qualidades
efetivas de apresentação e de personalidade. Não basta ser; é mister também
parecer. Aliás, em nenhuma profissão a projeção individual é mais flagrante que
na medicina, a considerar, como queria Nicolle, que “a tendência do ser humano
é defender a sua personalidade”. A própria educação médica, inspirada nas
ciências biológicas, desenvolve no profissional uma segunda natureza, um tanto
hipertrófica no sentido da individualização. E não há como a doença para
revelar o aspecto pessoal em cada caso patológico; por outro lado a autoridade
do clínico, sempre decisiva ou conselheira, socialmente, o destaca numa auréola
de respeito e ascendência. Em alguns o individualismo transviado conduz ao
espírito de suficiência, sobretudo sistemático em relação às normas
terapêuticas. Será, talvez, o seu maior pecado. As coordenações biológicas que
defendem o homem integral, na unidade do corpo e espírito, materializam o
conceito da personalidade. Seria absurda a negação destas vantagens na formação
intelectual e moral do médico, e neste caso, como conciliar a afirmação de
individualidade com a medida rasa, niveladora, que caracteriza a medicina do
Estado? Onde a prevalência das qualidades sem os estímulos da liberdade de
ação? Não se compreende a noção de responsabilidade imposta a doentes, que não
elegeram o profissional nos anelos de sua confiança. E depois, pode-se admitir
a despersonalização do médico no momento científico em que a medicina se
orienta no sentido da personalidade do doente? Talvez tanto tivesse sido
possível no domínio ditatorial das ciências analíticas; não será o Estado totalitário
ou marxista, nas contingentes restrições à liberdade humana, que poderá
sobrelevar às tendências científicas que noutros tempos germinaram na
mentalidade antiga, qual se encontra no Diálogo sobre a Sabedoria, em que
Sócrates doutrinava: “os bons médicos, quando um doente os procura para que lhe
curem uma doença dos olhos, por exemplo, começam por declarar que não poderão
curar somente os olhos, senão também a cabeça, e pretender curar a cabeça sem
atender ao corpo inteiro é impossível. Tendo isto em conta prescrevem um regime
para todo o organismo, cuidam e curam, assim, a parte em que a doença se
manifesta. Porém do mesmo modo que os olhos não podem ser tratados sem a
cabeça, e esta sem o corpo, também este não pode ser curado sem curar a alma, e,
se os médicos gregos não são capazes de curar tais enfermidades, é que ignoram
o conjunto do que devem tratar. Porém a alma, de onde brotam para o corpo todos
os bens e males, pode ser tratada por meio de certos diálogos”.
(Cit. por Pizarro
Crespo – “La Nueva Medicina Psicobiológica”, Sem. Mem. Fev. 1937. Buenos
Aires.)
A medicina atual,
armada de outros poderes, visa a unidade psicossomática; deve começar, pois,
preparando o médico nas vantagens da valorização individual.
Os benefícios do
individualismo médico que se exercem no desenvolvimento do espírito, da coragem
moral, do sentimento de solidariedade humana, não discordam da altivez, que é
do orgulho bem fundado a só parte apreciável. Para tanto conseguir é
indispensável a posse e gozo da independência intelectual, respeito de si
mesmo, segurança de opinião. São tais os predicados que cumpre ao médico
cultivar para crescer no apreço social: sobretudo, o aspecto humano de seus
votos e aspirações deve avultar na atuação profissional, longe da preocupação
subalterna dos interesses materiais. “Ciência sem consciência é a ruína da
alma” proclamara Rabelais. Assim sendo, o individualismo médico desconta no
consenso de virtudes preclaras, alguns pecados veniais de intolerância e de
orgulho, avivados nas arestas do espírito de suficiência. Sem dúvida, foram as
ciências biológicas que conferiram à medicina seu maior prestígio; deram-lhe o
que ela não tinha até o começo do século XIX - o perfume de ciência. É justo
reconhecer que, com o Renascimento, a anatomia já interessava aos que exerciam
a arte de curar. A paixão de Leonardo da Vinci pela ciência morfológica trouxe
à arte decantados fulgores. Era a ciência nascente, consumindo de emoções novas
a materialização sublime da arte. De começo, até mesmo as matemáticas, a
geometria e a astronomia eram cultivadas como artes, mas a arte já se comprazia
no deleite das especulações filosóficas. A arte foi sempre a parte prática,
técnica, de cada conjunto de conhecimentos. Depois é que a técnica passou a ser
da ciência, chegando a seu maior desenvolvimento com o método experimental em
medicina: a epopeia pastoreana representou a grandeza culminante das ciências
analíticas.
A ciência refez-se nos
fatos, recebendo da base empírica a contribuição de seu espírito tradicional,
seus sonhos e ilusões; criou o ambiente novo, devolvendo à arte da medicina
formas concretas de estudar a doença e tratar os doentes: em tudo a intuição
científica a par da inspiração artística, na altitude de outras aspirações.
Chegou para o homem de ciência o momento de duvidar: se a armadura experimental
da ciência descobria fatos novos, alguns jamais pressentidos, onde levar o
entendimento no caminho de outras aquisições? e a dúvida no homem de ciência
tem sido um dos motores de grandes empreendimentos humanos. Rist, no seu belo
livro Qu’est-ce que la Medicine?, comenta, a propósito de ciência e arte: “o
conhecimento científico é, singularmente, a exaltação do espírito. Tem a
dignidade que todos reconhecem quando se aplica aos espetáculos e acontecimentos
do cosmos, às trocas e metamorfose da matéria e da energia ou à evolução dos
seres organizados. Não é menos ativo quando objetiva o homem, seu corpo, sua
inteligência, seus movimentos, as funções de seus órgãos, suas reações contra
os agentes mórbidos. A contemplação intelectual dos fenômenos naturais é, à
primeira vista, muito diferente da contemplação estética, que é própria da
arte. Está, entretanto, dela mais próxima que parece. Entre a emoção que domina
o pintor e a que absorve o naturalista, à vista das belas formas do mundo vivo,
há profunda concordância. Leonardo lhe soube o segredo. Quem poderia dizer se
tal não acontecerá ainda?” Timon, médico e poeta do tempo dos céticos, já
aconselhava esquecer as especulações filosóficas e seguir o caminho da
Natureza. Nada permanece. Na constância de seus desígnios, Heráclito afirmava:
“le devenir est l’essence même des choses”. Depois da era científica, as
ciências, divididas e subdivididas, criaram outras ciências, e delas lucraram a
vida social e a transformação econômica do Universo. A biologia materializou o
conhecimento humano, moldando outros aspectos da existência da espécie, que a
arte e a psicologia acadêmica tradicional não lograram, sequer, suspeitar.
A obra médica de
nossos dias, toda impregnada de espírito científico no estudo ou na aplicação,
considerou menos os aspectos espirituais da cena viva; mas, sendo a medicina a
ciência do homem, deve encará-la na plenitude de seus valores biopsicológicos,
integrando-se, como quer Jaspers, “na compreensão estática e genética da
moléstia”. E, se a ciência nos permite conhecer o ser humano, a arte bendita,
incomparável na visão de seus horizontes, ensinará os mágicos poderes de
atingir as baldas sombrias da personalidade.
Rio, 1954
(Paisagem do outono, 1960)
*
Médico, professor de Medicina, escritor e político, membro da Academia
Brasileira de Letras.
Nenhum comentário:
Postar um comentário