sábado, 2 de abril de 2016

Irrevogável


* Por Laís de Castro


Pronto. Ele estava morto. E o que restava do corpo depositado ali, naquele caixão lacrado, ao lado de outro caixão, com os restos da mulher com quem tinha escolhido viver. Dois minutos de naquele cenário e fugi, suando frio. Não tivesse sido preterida pelo homem amado e poderia agora estar morta ao lado dele. Senti uma coceira no nariz. Tenho rinite, pólen de flores me irrita a mucosa.  Saí correndo daquela sala lúgubre e deixei entrar pelas narinas o aroma de eucalipto vivo, do quintal. Sentei num banco de madeira que tantas vezes nos embalara, juntos, adolescentes e apaixonados.  Depois daquele beijo, perto dali, eu estava entregue àquela paixão. Eu te amo. Também te amo.

Irrevogavelmente entregue ao meu amo e senhor, apenas um rapaz de 22 anos, que me tirava o fôlego até por aproximação. O irreal comandava meus passos, meu destino, meu corpo. Tudo o que você quiser e o céu também. Se ele partia, e partia porque morava longe, a distância me cortava ao meio, a solidão me rasgava a carne, eu lia as cartas devagar, para durarem mais tempo. Mil vezes. Era ele. Nas chegadas, revivia, ressuscitava. Como se o ressuscitar fosse tão simples. Como se, para reviver, bastasse acordar. Se tudo tivesse saído conforme meus planos, estaria ali, agora, morta?

Não, meu manual de sobrevivência nunca me permitiria entrar naquele maldito avião. De novo ao lado dos corpos, me sentia mal. Todos me olhavam como uma “viúvaviva e tinham razão. Quando ele optou por ela, me promoveram à abandonada de plantão, coitadinha, imbecil, incompetente. Eu, menina, fragilizada pela humilhação, acreditava em tudo que diziam: era verdade. Açoitada pela perversidade humana, abaixei os olhos e dei razão aos malignos.

Ao lado dele, tinha perdido a noção do perigo, me imaginava querida e me comportava de forma natural. Atirada, independente. Por que? Se queria apenas ser a mulher dele? Por que não fingi que tinha machucado o para ser salva e voltar no colo do herói? Por que não pedi ajuda outras vezes? Por que quando ele disse vamos mergulhar eu saí correndo e mergulhei sem esperá-lo, sem ser a mocinha do filme, que precisa da mão masculina, sem dar aqueles gritinhos de retardada porque a água estava fria? O macho se ofendeu, ficou de mau. Em silêncio, ali mesmo dentro da água, pedi a Deusera temente a Deus, naquele tempoque me tornasse mais doce, servil, terna... Deus não colaborou e, mesmo com verdadeira adoração por aquele corpo, aqueles olhos e aquela voz, corri na frente de novo, tomei as rédeas, inventei de trabalhar. Ele pediu que eu não fosse, tinha ciúmes. E que não saísse de casa quando ele estivesse fora. Toquei o bonde, encarei o destino, empurrei cadeiras e mesas, sentei onde queria.

Irrevogavelmente perdida.

Foi como fiquei ao ouvir a condenação. Você não precisa de mim. Vou ficar com ela, tão doce, tão indefesa, tão cordata, tão sem opções. Era o castigo da eficiência, pensei. Gritei. Pedi. Ajoelhei. Implorei. Fiquei uma semana debaixo das cobertas e emagreci três quilos. Era um trapo, jogado no lixo. As lembranças me alimentavam, mas iam ficando cada dia menos nítidas à medida que o tempo passava. Eu me esforçava por mantê-las vivas, aquilo era meu sal, minha amarra ao porto, meu oxigênio essencial.

Até que veio a notícia do casamento, que ele era tradicional e naquele tempo se casava. Os sádicos da vez irradiaram os detalhes, sem o pudor da compaixão. Lua-de-mel, eu mortificada, quase de luto, na dor que hoje entendo tão insignificante. Minha rinite medrando em progressão geométrica.

Nas noites de insônia, que foram centenas, reescrevia nossa história, primeiro entrando com o vestido de noiva na igreja, ganhando o beijo e a mão no altar, vencendo a parada, vivendo dias de glória ao lado daquele insubstituível deus humano. Depois, mais conformada, era apenas a amante vitoriosa que ninguém conhecia e unia nossos corpos em noites sensuais enquanto a esposa mal-amada roia as unhas em solidão perpétua. Fiz e refiz diálogos de paixão, vivemos juntos por todo o sempre em meus suores noturnos. E ele agora estava ali, a 20 passos, morto. E eu estava aqui, neste banco de madeira, sentada e meio morta, diante da tragédia.

Preterida porque era uma pimenta vermelha, hoje, hasteava a bandeira da certeza de que ele não teria de mim obediência cega. Juntos, nunca teríamos subido os três degraus que nos levariam ao patíbulo alado.

De , de novo, ao lado dos caixões, tive certeza que nunca estaria ali. Minhas pernas me carregaram de novo para fora. Os últimos raios de sol sobre a cabeça, deixei cair todas as lágrimas que meu pobre corpo vivo foi capaz de produzir. Ruminava a amaríssima sensação de culpa por estar viva, por ter corpo, por respirar, sentir, ver, pensar, ouvir e me mover, enquanto ele era nada mais do que o vazio, a ausência, o vácuo, o invisível horror do fim. Mastigava com violência, até sangrar as gengivas, minha culpa por não tê-lo arrancado dos braços de quem lhe dizia sim, por não tê-lo protegido com meus nãos, por não ter feito um escândalo na igreja, sabotado a lua-de-mel, enchido de assunto a boca maldita dos cruéis demônios que sentavam em cima de nossa triste sorte com as pernas cruzadas e as bocas arreganhadas e dentes aparentes. Risonhos e risíveis.

Chorava rios de omissão por não ter salvado aquela vida que , agora, havia sido curta e lamentável, , agora, trazia os verbos conjugados no passado. Sem presente, nem futuro. Pobre deus dos inocentes, que se imaginara protetor e tinha passos instáveis e quebradiços. Estivesse eu ao lado dele e ele estaria vivo, porque eu era a desvairada e delirante e não deixaria que ele subisse naquele avião, que louca, vamos, o que é que tem, uma viagem tão curta? Deixa de ser teimosa, por isso eu não queria casar com você. Não subo, não vou, não faço. Olha, que todos estão vendo a gente brigar. Não vou e nem você vai. Vamos de carro. Não. Não e não. Eu, nunca teria entrado naquele avião pequeno e inseguro para satisfazer os caprichos de um cunhado também inseguro e pequeno. Larga essa teimosia, sobe aqui logo. Nem morta. Sem trocadilho.

Estivesse eu ao lado dele e teria preservado seus dias, suas noites, seus ossos, pulmões e o cérebro. Seu direito à vida. Hoje, hoje, vão acreditar nisso, através do meu olhar de puro ódio, despachando mísseis de dor e ferido pelo esmeril da inconsciência. Hoje, hoje, agradeci minha independência e a incorrigível liberdade de ir, vir, ser, estar, permanecer e ficar.

Entrei mais uma vez naquela sala. O rosto vermelho de chorar, estanquei, de , ao lado dos caixões. Quem estava ali não era mais a “viúvahumilde e abandonada. Agora eu era a fortaleza que poderia ter protegido aquele homem da morte prematura. Parti.

Irrevogavelmente livre.


* Jornalista, atuou 18 anos no grupo Abril (3 prêmios Abril). Trabalhou, ainda,  8 anos na Editora Três (sob Luís Carta), 11 na Editora Símbolo onde foi diretora da Corpo a Corpo, da Vida Executiva e, agora, é da Dieta Já. É autora do livro “Um velho almirante e outros contos”, pela Editora Siciliano.

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