O poeta, a musa e a ilusão
* Por
Evelyne Furtado
O texto estava lá.
Identificado o autor, começou a leitura com a ansiedade de sempre. Deslizou os
olhos seduzidos pelas frases bem construídas e se buscou naquelas linhas.
Todo leitor busca uma
identificação na obra que lê e ela, à medida que admirava a beleza estética da
prosa, sentia o texto escapar de si. A expectadora aplaudia o espetáculo, a
mulher lamentava o ato que se desenvolvia a sua frente.
A alma apequenava-se e
mostrava-se ciumenta. Acostumara-se a ser musa e gostava de se imaginar única.
Era dada a fantasiar e ele estimulara seus devaneios.
Onde se escondiam seus
traços no retrato impressionista? Persistiu na leitura, encontrou uma flor
rebelde e o seu coração ganhou ânimo. O poema era seu. O poeta o escrevera para
ela. E havia sinais de amor.
Enfim, em meio à
bruma, revelava-se uma imagem conhecida. A imagem de um amor bonito, penoso e
resistente. Entregou-se ao calor que acompanhava qualquer contato com ele, o
seu poeta.
O olhar do poeta
acalmava e incendiava, conforme o momento. Sua boca emitia prazer em sons e em
toques. Ela preservava cada centímetro de si para ele. Apegava-se aos delírios
idílicos; para não enterrar o amor que a fazia vibrar. Porém, a alegria
momentânea começou a perder terreno e a apreensão assaltou sua alma inquieta. O
poeta parecia se despedir.
Confessava
desconfiança; fechava a janela à paisagem tantas vezes idealizada; demolia o
futuro. A leitora prendeu a respiração. Faltaram-lhe o ar e o chão. Faltou-lhe
vida, ainda que por segundos. Mente e corpo envolviam-se num emaranhado de
sensações: onde o sol antes aquecia, ora o gelo queimava, ardia.
Alimentara-se das
promessas declamadas. Quisera dar vida ao poema e fora insistente nisso.
Acreditara em qualquer aceno vindo do outro lado da janela e não era tarefa
fácil enfrentar a dor, pois morava uma menina naquela mulher que lia o amor.
A mulher impedia a
menina de crescer, protegendo-a da vida real. A menina continuava a correr da
rejeição; a mulher encontrara no poeta seu fiel guardião. Agora em pânico,
antevia a sombra de o desamor alcançar sua menina. Num ímpeto, a mulher fechou
a janela.
Fugiria. Não era hora
da menina sofrer. Não poderia aceitar, necessitava do amor, precisava sonhar.
Vestiu um jeans, subiu em um scarpin, pôs brilho nos lábios e acentuou o negro
dos olhos. Disfarçaria a tristeza, enganaria o coração. Iria ao cinema;
trocaria a matriz da ilusão.
*
Poetisa e cronista de Natal/RN.
os momentos de sofrer também têm o seu disfarce.
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