terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O poeta, a musa e a ilusão


* Por Evelyne Furtado


O texto estava lá. Identificado o autor, começou a leitura com a ansiedade de sempre. Deslizou os olhos seduzidos pelas frases bem construídas e se buscou naquelas linhas.

Todo leitor busca uma identificação na obra que lê e ela, à medida que admirava a beleza estética da prosa, sentia o texto escapar de si. A expectadora aplaudia o espetáculo, a mulher lamentava o ato que se desenvolvia a sua frente.

A alma apequenava-se e mostrava-se ciumenta. Acostumara-se a ser musa e gostava de se imaginar única. Era dada a fantasiar e ele estimulara seus devaneios.

Onde se escondiam seus traços no retrato impressionista? Persistiu na leitura, encontrou uma flor rebelde e o seu coração ganhou ânimo. O poema era seu. O poeta o escrevera para ela. E havia sinais de amor.

Enfim, em meio à bruma, revelava-se uma imagem conhecida. A imagem de um amor bonito, penoso e resistente. Entregou-se ao calor que acompanhava qualquer contato com ele, o seu poeta.

O olhar do poeta acalmava e incendiava, conforme o momento. Sua boca emitia prazer em sons e em toques. Ela preservava cada centímetro de si para ele. Apegava-se aos delírios idílicos; para não enterrar o amor que a fazia vibrar. Porém, a alegria momentânea começou a perder terreno e a apreensão assaltou sua alma inquieta. O poeta parecia se despedir.

Confessava desconfiança; fechava a janela à paisagem tantas vezes idealizada; demolia o futuro. A leitora prendeu a respiração. Faltaram-lhe o ar e o chão. Faltou-lhe vida, ainda que por segundos. Mente e corpo envolviam-se num emaranhado de sensações: onde o sol antes aquecia, ora o gelo queimava, ardia.

Alimentara-se das promessas declamadas. Quisera dar vida ao poema e fora insistente nisso. Acreditara em qualquer aceno vindo do outro lado da janela e não era tarefa fácil enfrentar a dor, pois morava uma menina naquela mulher que lia o amor.

A mulher impedia a menina de crescer, protegendo-a da vida real. A menina continuava a correr da rejeição; a mulher encontrara no poeta seu fiel guardião. Agora em pânico, antevia a sombra de o desamor alcançar sua menina. Num ímpeto, a mulher fechou a janela.

Fugiria. Não era hora da menina sofrer. Não poderia aceitar, necessitava do amor, precisava sonhar. Vestiu um jeans, subiu em um scarpin, pôs brilho nos lábios e acentuou o negro dos olhos. Disfarçaria a tristeza, enganaria o coração. Iria ao cinema; trocaria a matriz da ilusão.


* Poetisa e cronista de Natal/RN.

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