Historiador grego com rara capacidade
de diagnóstico
As referências literárias às várias epidemias que já
atingiram a humanidade, ao redor do mundo, e que dizimaram multidões, são antiqüíssimas.
Não são de caráter ficcional e nem poderiam ser. Não, pelo menos, as narrativas
muito antigas. Estas antecedem ao próprio surgimento dos gêneros de ficção,
hoje tão comuns, em moda e fartamente disseminados, como o romance, o conto e a
novela. Na Antiguidade, quando o escritor queria narrar uma história, dessas
que só existiam em sua cabeça, recorria à poesia, único recurso de que dispunha
para tal. E, tempos mais tarde, passou a se utilizar de peças de teatro,
atividade que se tornou veículo de comunicação por excelência entre os gregos.
Hoje, esses autores (pelo menos boa parte deles) recorreriam ao romance, à
novela ou ao conto, dependendo da extensão de suas narrativas ficcionais.
Uma das referências mais antigas que se conhece, a propósito
de uma epidemia, foi feita por um notável historiador. Refiro-me ao grego
Tucidides, que viveu (e morreu) em Atenas. Ele teria nascido por volta do ano
460 a.C e morrido ao redor de 400 a.C. Por que citei essas datas no
condicional? Porque se torna impossível determiná-las com exatidão, até por
conta dos vários calendários adotados no mundo ao longo do tempo. Sua citação
consta no clássico “História da Guerra do Peloponeso”, obra de grande fôlego,
que resistiu ao tempo e ao esquecimento e chegou até nós, posto que com várias
traduções. Houve, inclusive, “traduções de traduções”, o que nos permite até
duvidar que as versões a que temos acesso sejam, de fato (pelo menos em sua
totalidade) a expressão exata, sem nenhuma deturpação, acréscimo ou supressão,
do que o historiador escreveu. Bem, pelo menos a narrativa dele sobreviveu à
destruição, ao contrário de tantas e tantas obras de seus contemporâneos e
mesmo de muitos dos que nasceram e viveram séculos depois dele, o que é uma
façanha.
Durante a Guerra do Peloponeso, que por mais de cinquenta
anos opôs atenienses e espartanos, Tucidides informa que Atenas foi afetada por
uma epidemia de peste bubônica que, em ondas sucessivas, ao longo de quatro
anos, dizimou, conforme seu registro, pelo menos um terço da população da cidade-Estado.
Bem, a lógica e o bom senso indicam que não devemos tomar ao pé da letra essas
cifras. O número de vítimas da epidemia tanto pode ter sido bem menor, como ser
muitíssimo maior do que o registrado. Desconfio que a segunda hipótese esteja
mais próxima da realidade. Mas... Não creio que as condições da época
permitissem a Tucidides, que não era médico e que, mesmo que o fosse, os
conhecimentos de então não lhe permitiriam uma avaliação correta, favorecessem
a exatidão.
Numa coisa, porém, o historiador mostrou inusitado talento,
que surpreenderia, até, os mais perfeitos infectologistas e biólogos atuais: na
descrição dos sintomas das vítimas da doença. Esta, todavia, não confere com os
sintomas da peste bubônica, epidemia que ele achava que estava ameaçando Atenas.
Sua meticulosa descrição faz os especialistas deste século XXI suspeitarem que o
surto, ou os surtos que atingiram a cidade, descritos nos livros segundo e
terceiro da “História da Guerra do Peloponeso” (obra em oito volumes) devem ter
sido ou de tifo, ou de dengue hemorrágica, com maior probabilidade de que tenha
sido esta última. Como se vê, esse vírus traiçoeiro, que nos atormenta há mais
de duas décadas, já pode ter causado estragos tremendos na saúde dos atenienses
do quinto século antes do nascimento de Cristo.
Tentarei reproduzir da melhor maneira possível a descrição
feita por Tucidides dos sintomas que afetavam os desesperados atenienses (a
versão que tenho é em espanhol): “(...) Em geral, as pessoas se sentiam
afetadas de repente, sem nenhum sinal precursor, estando, portanto, em boa
saúde. Notavam-se intensos calores na cabeça. Os olhos ficavam vermelhos e
inflamados. No interior do corpo, a faringe e a língua se tornavam sangrentas,
a respiração irregular e o hálito fétido. A estes sintomas, sucediam-se soluços
e ronqueira. Pouco tempo depois, a dor atingia o peito, acompanhada de uma
violenta tosse. Quando a doença atacava o estômago, provocava muitos
transtornos, e se desencadeavam, com dores agudas, todos tipos de evacuação de bílis
(...)”.
Descrição nota dez! Mas Tucidides prossegue em seu relato: “(...)
Quase todos os doentes sofriam enjoos, que não eram seguidos de vômitos, mas
acompanhados de convulsões. Em alguns, os enjoos cessavam imediatamente, em
outros, duravam muito tempo. A pele, quando tocada, não estava quente e nem
lívida, mas avermelhada, com uma erupção de bolhas e úlceras. Mas o corpo
estava tão quente que não suportava o contato da roupa e de tecidos mais finos.
Os doentes ficavam nus e sentiam-se tentados a mergulhar em água fria. Foi o
que aconteceu com muitos, sem vigilância, tomados de uma sede insaciável.
Vários se jogaram em poços (...)”. E eu acrescentaria o óbvio: “e morreram
afogados”, ora, pois, pois...
Como se vê, Tucidides, que não era médico e não tinha
nenhuma noção de biologia, traçou um diagnóstico magnífico, de causar inveja nos
especialistas atuais e isso cinco séculos antes do nascimento de Cristo, ou
seja, há mais de três mil anos. Outro grande mérito desse notável historiador
foi o de ter notado que as pessoas que sobreviviam à doença epidêmica eram
poupadas em surtos posteriores do mesmo mal, ficando, pois, imunizadas. Foi um
conhecimento importante, que resultou, milênios depois, na base, no conceito
para a criação de vacinas e de vacinações em massa. Como se vê, foi um gênio,
destes raros, que surgem, apenas, de quando em quando.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
A minha mãe teve febre tifóide. Nunca vi um caso. A descrição citada não me pareceu de dengue, e esta eu já tive.
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