Devaneios de uma roqueira 17
* Por
Fernando Yanmar Narciso
CAPÍTULO 8 (PARTE 1/3)
Intrusa chegando!
Ai, que falta de
jeito... Tomara que Alexia não ligue de eu escrever uma história tão longa no
box de comentário do blog dela... Xereto os escritos dela de quando em vez e,
pelo que ela conta, ‘ocêis’ devem pensar que eu sou uma jararaca, uma ‘muié’
daquelas que ninguém tolera ter por perto, né? Desde nenê eu ‘impricava’ até
com minha sombra. Deve ser por causa do meu sangue de índia guerreira, sei
lá...
Acho que fui a
primeira criança que Lex viu depois de nascer, desde então temos sido quase
como irmãs. Somos duas matutas maltrapilhas e antissociais. Eu mais do que Lex.
Não sei o que se passa comigo e acho que já nem dá mais tempo pra tentar mudar.
Quem não pode pagar terapia vai pro bar, como meu pai falava...
‘Nóis’ vivia brincando
pelas ladeiras da cidade ou no Casarão da Paz, ouvindo os discos da década de
60 de Seu Xamã e Vó Ganesha. Foi com a coleção de discos deles e o fumacê
mágico dos incensos caseiros deles que a gente aprendeu a tocar, falar inglês e
fundou as Margaridas Psicóticas há quase vinte anos.
‘Ocêis’ já notaram que
prima tem um gosto pra rock bem mais, digamos, ‘vândalo’ que o meu. Toda banda
que ela curte segue o mesmo padrão de vocalistas: Magricelos mauricinhos, mas
que rugem como leões. A mesma tara incontrolável que ela tem pelo nerd do Kurt
Cobain eu tenho pelo Jim Morrison. E, confidencialmente, só entre ‘nóis’, pelo
Sebastian Bach do Skid Row. Ai, que vergonha...
‘Pobremas’ com os pais
já são marca registrada da família Moura Bernardes, ‘num’ tem alguém da nossa
geração sem eles. Como Alexia sofreu quando menina! Tudo que ela conta sobre
tia Maria Ibanez é verdade, talvez até pior. Aquela velha doida... Onde já se
viu, fingir que a filha ‘num’ existe só porque o marido morreu assistindo o
parto!
A memória de infância
que ficou tatuada em minha cabeça foi a de tia Maria sentada à mesa da sala com
o forro imundo e rasgado, bebendo, fumando Hollywood e ignorando a presença de
Alexia chorando no pé dela, implorando por atenção... Por causa desse desprezo,
prima foi praticamente criada comigo por minha mãe, Florisbela, aqui em São
Modesto, enquanto tia Maria continuava catatônica lá em ‘Belzônti’.
Se Lex ainda se queixa
da falta de atenção materna, prefiro me queixar do EXCESSO de atenção que a
minha me dava. Não que ela fosse superprotetora ou algo assim... Ela tinha um
sonho maluco na juventude: Ser a primeira índia a representar o país nas
olimpíadas, pela delegação de ginástica artística. Claro que ela ‘num’ dava nem
pro cheiro, mas mamãe continuava insistindo, treinando... Até que um pé
quebrado jogou um balde d’água fria no sonho dela.
Acham que isso faria
mãe desistir? Fuck no, como diria Lex. Adivinhem quem ela escolheu como seu
ratinho de laboratório? Bem que eu me esforçava no início, afinal qual filha
‘num’ quer ver a mãe feliz? Mas além de ficar ridícula enfiada num collant, eu
tinha a graça e a leveza de um dinossauro nas acrobacias. Uma pata manca das
boas!
Junto a isso, quis o
destino que eu virasse a pessoa mais alta e desengonçada da família inteira
logo aos onze anos. Um ‘grampão’, como Lex ainda me chama. Dona Florisbela
nunca me perdoou por ‘num’ poder viver o sonho maluco dela através de mim...
Desde aquela época
nossa relação foi derretendo, mas nada podia ter me preparado pra próxima
cartada de Florisbela. Foi, foi... Encurtando a história, foi algo que ‘num’ tem
nome. Se der tempo eu conto ‘procêis’...
Trabalho e moro desde
os 22 lá no Posto Mato Seco, quando meu pai, Seu Totonho, se aposentou e me
obrigou a assumir o negócio. Me fez de refém! Papai é um caso parecido com o de
tia Maria Ibanez. Como Lex já contou, ele quase foi o prefeito de São Modesto quando
a gente era menina. Daí o governador asfaltou uma linha reta ligando
‘Xisdifora’ a Modesto e isolou o posto no meio do mato, numa pindaíba que até
hoje ‘nóis’ luta pra fechar a conta.
Quanto mais o posto
apodrecia, mais papai se afogava na bebida e mais a gente ficava na miséria.
Cansei de ir com mãe arrastar o ‘véio’ quase em coma alcoólico pra fora do
botequim. E ainda me perguntam como consigo humilhar tantos brutamontes na
queda-de-braço... A coisa que eu mais quero no mundo é tocar fogo naquela desgraça
de posto e assistir ao show com óculos 3D, tomando Drury’s...
Mas eu sei. Eu
sinto... Os olhos do ‘véio’ tão por toda parte. Me perseguem nos meus sonhos...
Uma vez ele me disse que ‘num’ havia nada no mundo que ele amasse mais que o
posto de gasolina. Tenho certeza que se eu tentar fazer alguma coisa com aquele
prédio mofado e caindo os pedaços a alma de meu pai vai me assombrar pra
sempre!
Há muito tempo ‘num’
consigo conviver numa boa nem com ele e nem com mãe. Pra ser sincera, em todas
as nossas últimas conversas a gente deixou o sangue ferver e deu vexame diante
de toda a cidade. A última vez que eu e mãe nos falamos foi na comemoração da
virada do ano passado, e precisaram usar a mangueira de incêndio de dois
prédios pra conseguir apartar a briga no meio da rua.
Água gelada escorrendo
pelas pernas, um frio de 5° na madrugada, ter de ir andando dez quilômetros de
volta pra casa, podem imaginar? E cá tô eu, dobrando a esquina pra tentar pedir
esmola pra minha mãe... É a vida!
CONTINUA...
*
Escritor e designer gráfico. Contatos:
HTTP://www.facebook.com/fernandoyanmar.narciso
cyberyanmar@gmail.com
Conheçam
meu livro! http://www.facebook.com/umdiacomooutroqualquer
E assim vamos conhecendo essas roqueiras diferentes.
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