Facebook
e a gente que anda por lá, mais uma vez!
* Por
Mara Narciso
Meu amigo Manoel
Hygino, jornalista do Hoje em Dia, não entende esse meu gosto pelas redes
sociais. Depois de 16 anos, as surpresas acontecem mais imprevisíveis do que
urna eleitoral ou jogo Atlético e Cruzeiro. Tudo pode acontecer, inclusive nada.
Você poderá se
inscrever no Facebook por curiosidade, por preguiça, por já ter experiência no
extinto Orkut, para ver, para se mostrar, para criar caso, para brigar, para
arrumar namorado/a, para sexo fortuito ou virtual ou para nenhuma dessas.
Muitos detestam o Facebook, outros o adoram, outros entram apenas um dia do
fim-de-semana, outros ficam oito, doze horas todo dia e ainda outros não saem
nem para o banho.
Nem todos aceitam, mas
você pedirá amizade porque acha a pessoa num comentário e você a conhece da sua
cidade ou de outras comunidades virtuais. Ou vocês têm amigos em comum e se
trombam. Ou você considera o comportamento dela interessante, inteligente,
adequado e isso o convence de que vale a pena trocar letrinhas. Ou você acha a
pessoa bonita e quer ver as fotos dela, a coloca como melhores amigos e a
segue. Ou você anda despeitado, cultivando ódio no recalque e quer perseguir
uma pessoa, pede amizade, e, sendo aceito, não curte, nem comenta, nem se
mostra. É comum o desejo de vasculhar/rastrear a vida de alguém no anonimato.
Ou mais uma lista de possibilidades que você acrescentará.
Você precisa romper a
amizade e/ou bloquear alguém por inúmeros problemas: ameaça, assédio,
grosseria, estupidez, inconveniência, decepção, desinteresse, falta de assunto
ou outra incompatibilidade. Opiniões divergentes atraem ou causam a ruptura do
outro lado. Uns poucos aparecem para contar o motivo do desencanto, mas a
maioria desaparece e fim. Adiante, quando se encontram entre amigos comuns,
você pode tentar marcar a pessoa numa postagem e não consegue. Algumas vezes já
desconfiava, mas noutras, depois de algumas interações, a surpresa é total.
Visita-se mentalmente o convívio e não se encontra nada. Este é motivo da
ruptura: o nada. O bom-senso manda ficar calado, porém, o chato vai perguntar,
e quem o excluiu manterá a palavra e tomará um ar de divindade celestial.
No amor, a pessoa
rejeitada é a mais amarga. Quer destruir o objeto do seu sofrimento. Deveria
deixar para lá, mas o voyeurismo se impõe, e todo dia está de plantão na vida
do agora inimigo, vendo fotos do novo casal e chorando. Por seu turno, esnoba
alguém que a queira, na velha cantilena do “quem eu quero não me quer, quem me
quer mandei embora”. Sem contar a possibilidade da sensação de trombada num
poste, no primeiro cara a cara. Muitos desencontros nos encontros cibernéticos.
E vice-versa.
A principal ordem é
mostrar felicidade. Tudo é maravilhoso e vale a pena. Despertar inveja é a tônica
da rede, como numa peça publicitária. Tanto que comer uma pizza em família
poderá render 30 fotos de sorrisos amarelos e iguais. Depois de ser feliz é
preciso ser jovem, saudável, bonito, realizado, do bem, indignado com o
desrespeito à lei, ter opinião sobre tudo, além de mostrar espiritualidade. Os
não crentes são execrados.
É um noticiário
permanente e um obituário que dá más notícias nas primeiras horas do dia. Os
maus aqui na Terra continuam fazendo suas traquinagens e crimes on-line. Mais
livres, porém na proporção do mundo real. Enquanto uma parte acha que as redes
sociais são uma perda de tempo, outros entram no Facebook para pregar o bem,
ver, aprender, ensinar, dar apoio, se distrair e se divertir, e para mostrar
seu trabalho, dons e dotes. Há as pessoas que seguem a outra como um cão
perdigueiro, enquanto outras esnobam seus seguidores, os desprezam e agem como
celebridades (muitos nem chegam perto do que fingem ser). Não retornam um
contato inbox, não curtem um comentário agradável, não olham nada de ninguém.
Só querem ser vistas e paparicadas. Por outro lado há quem agradeça cada
atenção. Outro exagero.
O universo virtual,
com suas peculiaridades, é o retrato do mundo real, apenas mais afetivo, com
ares de divã do psicanalista. Em minutos de conversa, muitos se tornam íntimos,
contam suas dificuldades, e sofrem quando descobrem que falaram demais, e no
arrependimento, querem recolher palavras jogadas no ciberespaço.
O Facebook é viciante
e cheio de recursos. Não é permitido descansar, pois, sendo um moto-contínuo
gera mais energia do que consome, e uma postagem leva a outra e assim,
indefinidamente. Os 1,6 bilhões de cadastrados (oito Brasis) dão lucros, pois
uns pagam para ser mais vistos, enquanto outros correm para não perder a cena.
Tem fim?
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Ainda temos que aprender a lidar mais produtivamente e a dosar mais sabiamente o tempo no mundinho azul. A proposta dele é maravilhosa, cabe aos homens não a deturparem...
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