Fui pra Cuba
* Por
Marta Barcellos
Arrisco-me. Com este
título, meu texto pode ser lido na diagonal por pessoas apressadas e atraídas
pela possibilidade de confirmar suas convicções políticas – a favor de Fla, ou
de Flu. Estou no ambiente da internet, devo lembrar. Se quiser outro tipo de
leitores, devo ao menos mudar o título, tirar a menção a Cuba. Ao “vai pra
Cuba”.
Mas prossigo, no
título, na intenção. Não vou falar de política, não desta política. E fui pra
Cuba. Fui para descobrir que também eu costumo partir de convicções
pré-estabelecidas: minha modesta vantagem é a flexibilidade e alguma vontade de
me questionar.
Reconheço agora que se
engendrava, em minha cabeça, no trajeto entre Rio e Panamá, sob a expectativa
do pouso na ilha mítica, uma espécie de hipótese acadêmica, ou pré-pauta
jornalística. Parada no tempo pré-consumo, Cuba seria mais do que um lugar de
investigação do passado, mas também uma espécie de laboratório para pesquisar o
futuro. A hipótese: haveria uma aproximação entre os cubanos e os jovens
europeus (de países ricos, diga-se) anticapitalistas, que esnobam posses, e
buscam “apenas” uma vida sustentável, sem automóveis ou PIBs crescentes?
Fui criada com
utopias, e elas grudam em mim com facilidade (o que acho ótimo). Che é o herói
perfeito - morreu heroicamente no tempo das utopias, antes que as coisas se
complicassem. Pois, em Cuba, refestelei-me no mito Che e surpreendi-me com a
beleza pacata (e nem tão descascada) de Havana. Eu tentava ultrapassar a
condição de turista, para encontrar o cubano que conversaria francamente
comigo, fornecendo-me todas as respostas (a confirmação da minha
hipótese/pauta?), quando conheci Francisco e sua esposa.
Do alto de minha
arrogância política-intelectual, despenquei num clichê, eu saberia depois. Um
golpe do vigário.
No conto do vigário
(“história elaborada com o objetivo de burlar alguém”) mais clássico, a vítima
é fisgada por causa de sua ambição e da possibilidade de levar alguma vantagem,
especialmente financeira. É quando o velhinho compra o bilhete da loteria
“premiado”, crente de estar se “dando bem” em cima de uma pobre criatura
desesperada (na verdade, o vigarista). Ou quando acreditamos na promoção
oferecida pelo telemarketing, e aceitamos aquela milagrosa redução na conta do
celular, ou aquele cartão de crédito estranhamente sem anuidade. Há golpes do
vigário que vão parar na delegacia, outros no Procon, mas a maioria fica impune
por envolver somente uma pequena – ou vergonhosa – perda.
Em geral, sou bastante
desconfiada de situações nas quais me oferecem vantagem financeira. Não me
orgulho disso, pois é algo que pode me afastar da generosidade alheia. Mas,
pelo menos no caso das promoções arrasadoras, adotei um ceticismo automático:
não gosto delas. Ao telefone, costumo deixar mudos os operadores de
telemarketing: não, obrigada, não gosto de promoções, prefiro pagar caro.
Prefiro não quero gastar minha energia para descobrir o quanto as vantagens são
enganadoras – e não arrasadoras –, para, no fim, ainda perder um pouco da fé na
humanidade. Digamos que costumo perder promoções fantásticas, mas vivo bem sem
elas.
Dito isto, voltemos a
Francisco e sua esposa. Se eles tivessem nos abordado oferecendo alguma
vantagem na rua, certamente teríamos os identificado melhor. Mas não. Começou a
chover, o museu planejado estava em reforma e paramos sob a marquise por alguns
instantes: o que fazer já no quarto dia do centro histórico de Havana, com
chuva? Foi quando Francisco, passando pela rua de mãos dadas com a esposa,
reconheceu meu marido. Não se lembra de mim?, perguntou. Era funcionário do
nosso hotel, estava de folga.
Simpáticos, mas
apressados, tentaram nos dar dicas, apontando a rua onde haveria um festival de
salsa mais tarde, próximo também da casa onde Fidel Castro morou antes da
revolução, próximo também da cooperativa dos produtores de charutos. O caminho
não parecia claro, apesar dos muitos gestos, quando a esposa de Francisco,
sombrinha cor de rosa em punho, decidiu levar-nos, logo ali, tão próximo.
Adorava o Brasil, as novelas, as músicas de Roberto Carlos. Por isso a
gentileza, o andar apressado para poder em seguida retomar os compromissos do
dia, ela professora, mãe de gêmeas.
Não fui fisgada pela
promessa de festival de salsa fora do roteiro turístico, nem pela perspectiva
de comprar charutos mais baratos numa cooperativa. Fui fisgada pela vaidade de
poder ser amiga da esposa de Francisco, pensaria mais tarde no hotel,
relembrando minha decepção ao ver a expressão simpática dela se fechar, quando
dissemos claramente que não compraríamos charutos. Eu, vítima. Vítima de uma
trambiqueira, que nos fez pagar uma conta absurda de mojitos numa espécie de
bar-emboscada, eu que só queria conversar, ser sua amiga, saber
desinteressadamente de sua vida.
Será?
Pois é. A vítima do
conto do vigário em geral não é tão inocente assim. Eu havia tirado fotos da
sua “libreta”, a famosa caderneta de controle dos mantimentos dados pelo
governo, e feito perguntas sobre a sua exótica rotina de cidadã cheia de saúde,
de escolaridade e sem nenhuma liberdade. Era isso mesmo? E quanto aos detalhes:
o que ela poderia me contar para que, ao voltar de viagem, eu pudesse postar
minhas exclusivas impressões na rede social, junto com as fotos? Ora, fiquei
amiga de uma cubana, me gabaria. Fui pra Cuba e no próximo debate teria minhas
opiniões abalizadas.
Exatamente como os
gringos que sobem a favela de jipões camuflados, para “conhecer” de perto os
pobres brasileiros.
Claro que essa
reflexão só veio depois, bem depois. Primeiro, espumei de raiva. Repassei
minuciosamente o começo do encontro com o casal, cada detalhe, até ter certeza
de que Francisco não era funcionário do hotel coisa nenhuma, que não foi por
causa da religião afrocubana que minha amiga fugiu do selfie e que até as fotos
três por quatro das gêmeas na carteira podiam ser armação. Talvez Francisco
fosse apenas um nome emprestado do Papa, que andou por lá. Uma piada interna do
casal.
Enfim, fui pra Cuba e
não “desvendei” Cuba. Minhas desculpas para quem chegou até aqui tentando
descobrir se sou coxinha ou petralha. Voltei de Cuba com mais perguntas do que
antes, e rindo da minha ingênua hipótese/pauta. Tive apenas minha experiência
exótica de viagem. Para refletir sobre ela.
*
Jornalista, trabalhou nos veículos “O Globo”, “Gazeta Mercantil” e “Valor
Econômico”, e hoje consegue conciliar realização no trabalho com qualidade de
vida. Já escreveu três livros jornalísticos, encomendados por empresas. Presta
serviços de conteúdo por meio da Contexto Final, é colaboradora do Valor
Econômico e mantém colunas fixas na revista Capital Aberto e no site Digestivo
Cultural, além de manter seu blog "Espuminha de Leite"
http://blog.contextofinal.com.br/perfil/
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