Retrato
* Por
Marco Vasques
Chove. A cor cinza se
espalha pela cidade, tornando os passos e a vida aparentemente lentos. As luzes
acesas refletem nas poças, árvores e vidraças. Os velhinhos insistem em jogar
dominó na Praça XV. Nem o vento, a chuva fina e o frio conseguem fazer com que
eles se agasalhem em suas casas. O aconchego do jogo e dos amigos atenuam os
dias. O trânsito em sinal vermelho. A cidade em exercício de malemolência.
Abaixo das marquises, homens, mulheres e crianças dormem. Para eles o mundo é
um retrato alheio, uma figura desconhecida, amarelecida no abandono dos
cemitérios.
No Café Cultura, mais
uma exposição de arte sem arte alguma. Afinal, arte para quê? O negócio é
decorar as paredes com qualquer coisa, atrair a visita de dois ou três
jornalistas, um e outro escrivinhador e toda a sorte daquela gente diferente
que, de tão diferente que insiste em ser, acaba por se tornar mais igual que os
iguais. Pronto. É o suficiente para pseudopoetas, intelectuais de três livros,
estudantes de letras e professores solipsistas esbanjarem suas iras contra tudo
e contra todos. Nem o Egito, nem a Grécia ou os homens que dormem sob a
marquise perpassam suas ideias. Todo pensamento está longe da carne. A negação
da negação é uma afirmação da negação, berra um esquizofrênico do Centro de
Letras da UFSC, pensando em impressionar duas meninas desavisadas.
No restaurante ao lado,
o Mirantes, duas moças tiram fotos em seus celulares e postam na rede. Não
basta comer – e olha que comer já foi um ato tão privado quanto fazer sexo;
além de comer, se faz necessário anunciar ao vivo o cardápio e detalhar o
tamanho da solidão. Porque é preciso estar muito solitário para precisar pensar
que os outros pensam o tempo todo no que fazemos ou pensamos. Na Catedral
Metropolitana, os pombos se esquentam no campanário; nem o badalar do sino é
capaz do provocar o desejo de voo. No meio das árvores da Praça XV, pisando os
desenhos feitos por Hassis, uma mulher corre mostrando os seios. Ela grita: Eu
sou a mãe das pedras, eu sou a mãe das pedras. Não, não tenho leite; aqui nos
meus seios só tenho pedra. São dunas de pedras. Eu sou a mãe das pedras.
Ninguém parece ouvir
seus berros. A água que escorre pela vidraça do ônibus, parado no semáforo,
esconde o olhar espantado de uma senhorinha que traz as últimas flores do mundo
estampadas em seu vestido. São vermelhas as rosas que banham seu corpo. Os
bancos reluzem suas assepsias. Um homem, sem uma das pernas, pede uma e outra
moeda. Um casal de índios mudos distribui panfletos. Dentro da Catedral
Metropolitana, o murmurar de velhinhas ajoelhadas, que rezam para anjos
pedófilos.
Publicado no jornal Notícias
do Dia [26/08/2013]
*
Poeta e bacharel em Filosofia
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