Blumenau, uma cidade sem alma
* Por
Sally Satler
Antes que muitos levantem seus cajados e atirem pedras, tenho a dizer
que o título que leva esse artigo não foi dito por mim. Foi por um francês, que
trabalhou por muitos anos na Alemanha, mas hoje mora na fronteira com a Suíça e
esteve aqui na cidade no início deste ano (janeiro/2013). Veio até Blumenau a
convite de uma amiga; e, passeando por aqui, disse que não entendia o porquê
dessa paranóia da cultura alemã - se a essência dessa cultura vem sendo
demolida e arrancada. Perguntou também onde estariam os jardins, as praças, os
parques, as sombras e as árvores da cidade. Ao visitar a Vila Germânica,
questionou porque Blumenau quer ser algo que ela não é.
As perguntas são difíceis de responder, mas foram essas as questões que
me motivaram a escrever esse artigo.
Fazendo uma breve análise do cotidiano blumenauense, fica difícil dizer
que ele não tenha razão. Blumenau enche a boca de orgulho pra dizer que tem
famosos eventos turísticos regados a cerveja e chopp, mas parece não ter muita
sede de cultura, arte ou mesmo de lazer, que não seja
aquele amortecido pelo álcool. Os investimentos públicos em arte e cultura na
cidade ainda andam a passos lentos e dormentes. A maior parte dos incentivos
são dados para manter uma hegemonia da identidade alemã, que já não se
justifica mais dentre tantas outras. Sem falar nos empresários blumenauenses,
que não contribuem sequer pela lei de mecenato, mesmo não lhes causando
qualquer prejuízo financeiro, eis apenas direciona os impostos para atividades
culturais da sua cidade.
E o que dizer das atividades de lazer? Numa enquete feita por um jornal
local, ao perguntar ao leitor blumenauense se concordava com a rota de lazer
todos os domingos, a quantidade de resposta ‘sim’ venceu por 62%, mas me
assusta saber que 38% não concordavam. É que aqui uma boa parte do povo entende
que atividade de lazer não pode atrapalhar a rotina de trabalho, o trânsito de
veículos e que já está bom demais dar algumas voltinhas de carro nos shoppings.
E muita fluoxetina para parecer feliz!
Na nossa cidade, as prioridades são os incentivos à construção de
shoppings que não trazem qualidade de vida, mas geram ainda mais consumo; são
as abarrotadas construções de prédios no centro e de pontes e mais pontes para
desafogar o trânsito – mas que vai estimular a compra de veículos e entupir
ainda mais o nosso centro urbano; não só de carros, mas também de água, muita
lama e esgoto com qualquer chuvinha que cair. Os passeios públicos se
restringem às calçadas, muitas delas mal feitas, estreitas e com buracos, sem
esquecer que a obrigação de cuidar desse espaço é do proprietário, o mesmo que
também reclama dos buracos nas ruas (o governo reflete o povo e o povo reflete
o governo).
Mas o atraso e a cegueira por um punhado de dinheiro é tanta, que não se
percebem os exemplos de mudança em outros mundos: cidades como Boston já estão
retirando viadutos e em seu lugar colocando parques. Em Nova Iorque e Londres,
estão fechando ruas para os carros, priorizando os espaços para passeios
públicos. Na Alemanha, foi projetada a construção da primeira rodovia de uso
exclusivo para o trânsito de bicicletas. No Rio de Janeiro, estão construindo
túneis para interligar bairros e todos eles prevêem ciclovias seguras. Mas em
Blumenau, para manter áreas verdes e os espaços mais humanizados, priorizar
áreas para o lazer e construir ciclovias, o discurso sempre foi a falta de
recursos. Mas verbas pra construção de novas pontes... sempre tem.
Também não se cogita implementar alternativas voltadas à restrição do
uso indiscriminado de veículos na região central, como já vem ocorrendo em
muitos países e cidades. Em Londres, Milão, Estocolmo, Sydney, Cingapura e
Santiago, por exemplo, a circulação na região central é taxada (pedágio) e o
dinheiro é revertido em investimentos no transporte coletivo barato e
constante. Em alguns desses lugares foram feitos bolsões de estacionamento fora
da cidade e quem estaciona ali paga preços módicos e ganha a passagem de ida e
volta ao centro.
Americanos e europeus estão aprendendo a viver sem carro: em Manhattan,
não há mais estacionamentos; em Munique (Alemanha), novos prédios só podem ser
construídos SEM garagem. Medidas como essas têm estimulado investimentos em
transporte público de qualidade. Mas aqui, insistimos num projeto de progresso
atrelado a prédios com 2, 3 até 4 vagas de estacionamento por apto, pontes,
viadutos e tudo SEM investir em transporte público de qualidade - ideias de um
passado já condenado, mas que vence pelo temor de perder apoio financeiro e
votos nas eleições, aliado ao imenso lobby das montadoras.
Além disso, o nosso turismo não vive de mostrar a cidade real cotidiana.
Atração turística, aqui, são aquelas criadas especificamente para iludir os
turistas, maquiando Blumenau de cidade ‘alemã’. Gastaram horrores com a criação de uma ‘vila germânica’ de
mentirinha, e no centro já deram incentivos fiscais para quem fizesse a
montagem daqueles enxaimelóides para ingleses e tantos outros verem... a nossa
cultura alemã de plástico. Mas não se interessaram em preservar seu patrimônio
histórico: as casas antigas pouco a pouco foram demolidas na calada das noites,
sob o silêncio e a conivência daqueles que deveriam impedir. Não conseguem
perceber que o turismo interessante é aquele que mostra o dia a dia da cidade
original: como em Ouro Preto, Mariana e Recife antigo, com seu conjunto
arquitetônico preservado; o Rio de Janeiro com suas casas da Lapa e Santa
Teresa; em Porto Alegre com seus prédios antigos e tantos outros lugares da
Europa.
Pra dizer que a cidade tem ‘parques’, construíram espaços com pouco mais
de meia dúzia de árvores e o maior deles tem até lagoa artificial. Pra dizer
que a cidade tem ciclofaixas, pintaram algumas calçadas de vermelho, disputando
o escasso espaço com os pedestres (e não evitando os atropelamentos).
E assim a cidade vai sendo maquiada e plastificada, buscando uma ‘bela’
aparência, tal como a socialite e suas infindáveis plásticas com um
resultado tão artificial que muitas vezes beira ao monstruoso. Investe-se na
vaidade da aparência e abandona-se a originalidade da cidade. Deixa-se à míngua
os grupos de teatro e arte, mas não sem exaltar o pioneirismo de Roese
Gaertner. Exalta-se um passado, mas se perde no presente. Lendo esses dias uma breve passagem do prólogo de
‘O último leitor’, de Ricardo Piglia, um trecho invariavelmente me fez lembrar
Blumenau: ‘A diminuta cidade é como uma moeda grega submersa a brilhar sobre
o leito de um rio à última luz da tarde. Não representa nada, somente o que se
perdeu. Está ali, fechada, mas fora do tempo, e possui a condição da arte;
desgasta-se, não envelhece, foi feita como um objeto precioso que comanda o
intercâmbio e a riqueza.’ Nossa cidade está num limbo: num passado-cenário,
com ares de modernidade.
Blumenau não consegue perceber que uma cidade só é boa para o turista se
for boa para o seu cidadão. Que as áreas verdes e espaços de mobilidade mais
humanizados, são elementos cruciais para a boa qualidade de vida e para tornar
a cidade mais agradável para se viver, ainda que dentro de um ambiente
extremamente artificial que já se transformou.
Ainda temos tempo de reverter esse ‘crescimento’ de prédios centrais,
asfalto, pontes, viadutos e concreto. Mas depende de nós, cidadãos, exigir
qualidade de vida e recuperar um pouco a alma de Blumenau. Precisamos ter mais
envolvimento com movimentos, coletivos e entidades voltadas a essas
prioridades. Como bem disse minha amiga, a jornalista Marta Raldes: “Vamos
assumir responsabilidades. Enquanto Blumenau não enxergar ‘um palmo além do
bolso’ não compreenderá o significado de representatividade, força política,
consciência política, cidadania, mobilização, atitude.... práticas estas
imprescindíveis para que algo aconteça. Sem isso, só sai shopping!”
O anônimo estrangeiro, autor do título desse artigo e que sentenciou
nosso epitáfio, finalizou suas impressões dizendo que não achou a cidade
parecida com nenhum lugar da Europa: achou tudo muito artificial, sem vida, sem
cor. Pois então... Será que os cidadãos não conseguem perceber que a cidade há
muito tempo perdeu sua alma? Que só conseguem (sobre) viver para o trabalho e
seguem a lógica de que tudo que foge à rotina casa-trabalho-shopping-casa não
pode e não deve crescer, pois foram treinados para uma servidão voluntária:
trabalhar e trabalhar, para consumir e consumir, sem nada refletir.
Mas ainda há tempo de pensar e se articular para mudar. Só que não
muito.
*
Advogada e procuradora municipal.Entre viagens, fotografias e ciclismo, busca
pensar e agir baseada numa perspectiva libertária.
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