Observação Necessária
*Por
José Calvino
Concordo com o trecho
da crônica publicada no Diário de Pernambuco, sob o título: “O mais brasileiro
dos gêneros literários”, do médico Meraldo Zisman, onde se lê: “(...) A crônica
não representa mais aqueles ouvintes, de narrativas contadas à beira do fogo, à
beira da água, ao luar, nas bagaceiras dos engenhos, nas calçadas, nos
alpendres das casas, nos balcões das vendas, ou em velórios.”
Quando publiquei o meu
terceiro livro “O Cristo Mulato”, em 1982, acrescentei algumas crônicas da
minha filha Maria do Carmo (19 anos). Agora, acreditando que as referidas
reflitam os personagens do romance e do teatro homônimo, pelos quais todo
brasileiro injustiçado passa, transcrevo-as para vocês leitores, a fim de que possam
ter uma caricatura das situações que são criadas, e que dificilmente
conseguimos superar.
I – Abrasileirando o
negócio
O ar estava úmido! Mas,
de uma umidez que cortava as narinas desprevenidas. As paredes estavam de
óculos, o teto parecia no chão e o piso queimava naquela geleira.
Ele voltara cansado:
nada!
Mas, não se trata de um
nada que contenha algo, falo de um nada completamente vazio. O ar fedia, e a
merda que antes incomodara, devido à sua constância, agora cheirava.
Em seu jardim só nascia
capim: e seco!
Expunha os “dentes”
podres e amarelos com orgulho: em breve teria uma chapa!
- E das melhores! –
Aconselhou o dentista.
Agora erguia o pescoço,
e vejam só que ousadia: havia tomado banho com sabonete: não que fosse falta de
higiene, era falta: mas, de dinheiro.
Já não se “misturava”,
pois aprendera a assinar seu próprio nome, e temia mau olhado.
Chegou na geleira e
sentiu que não sentia. Mas, como? Que fedentina é esta?
É que haviam
endireitado a fossa, e agora só o ar se fazia presente.
Voltou-se ao fogão e
chorou: tentando ver se neste ato, por milagre divino, lágrimas de gordura lhe
escorressem pela face, matando-lhe a fome que já não corria , mas acelerava.
Panela...só
panela...para sempre panela vazia.
Rápido: enche-a de
barro e num brinca: engole e diz que tá gostoso!
II – A morte do morto
Andava pelas ruas,
perseguido por uma nuvem negra, sobre sua cabeça, que só vivia atordoada.
Sobe isso...
Desce aquilo...
Já nem conseguia
encarar um poste, que se punha mais ereto e firme que sua carcaça velha.
Chegou em casa com a
mesma cara de sempre. Cara de nada! Esquecera que havia água, pois afundara-se
em seus próprios pensamentos.
Sentiu uma dor!
... Dor? ...
Que era aquilo?, já não
sabia distinguir seus sentimentos. Seu estômago vivia em constantes gritos de
socorro. Já nem sabia mais o que fazer (e mesmo que soubesse, não podia:
como?), deixou-se cair “daquilo”,indecifrável. Sua voz já era um gemido, e
quando agonizou ninguém percebeu a diferença.
Lá estavas: “entregue
às moscas”.
Sorriu seu último
sorriso, quando satisfeito, pensou que iria ser útil às formigas, que se
deliciariam com sua carne. Soltou seu último suspiro e sentiu-se criança. Um
bebê que acaba de nascer!
*Escritor, poeta e
teatrólogo. Blog Fiteiro Cultural – http://josecalvino.blogspot.com/
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