À origem
* Por
Eduardo Oliveira Freire
Quando soube que os mortos estavam saindo das tumbas e que se
comportavam como animais selvagens, desejou ser como eles.
Ouvia com interesse as notícias de que os mortos vivos devoravam
qualquer coisa que viam pela frente e que faziam sexo sem pudor. O fedor de
carne putrefata infectava as cidades.
Recordou-se de ter lido em algum lugar a profecia: “Tudo voltará à
origem do caos de cores, odores e instintos”. Como desejaria retornar ao
estágio que precede a mulher: a fêmea. Estava cansada de “humanizar a vida”.
O apresentador do telejornal dizia que se a pessoa fosse mordida pelos
zumbis seria contaminada. Ela saiu de casa e não demorou muito,
apareceu um bando faminto e começou a mordê-la e a possuí-la ferozmente.
Foi esquecendo seu nome, pai, mãe, filhos, marido e emprego. Parou de
pensar. Os instintos a dominava. Já devorou quase todos os membros de sua
família. Agora não tem mais marido, tem machos . E nem filhos; pare filhotes
que quando não mais necessitam de cuidados, ela os expulsa do seu convívio.
Quem a domina é um macho mais forte que ela.
***
– As pessoas não podem contar com o governo. As autoridades estão
tentando exterminar os zumbis, mas a situação está crítica. Uma pessoa reportou
que sua mulher foi contaminada; devorou até os filhos e quase acaba com toda a
família. O marido escapou. A polícia aconselha a todos a procurar lugares
seguros e sugere que se associem para lutar.
O apresentador do jornal está sozinho transmitindo as notícias. Sua
mulher e parceira de trabalho se transformou numa morta-viva, quase aniquilou a
família inteira. Só ele sobreviveu, lembrando-se de que sua mulher sempre
dizia: "Quero ser selvagem.". – Vagabunda!– explodiu.
Pegou uma foto da família na carteira, rasgou a parte onde estava a
mulher e jogou no lixo. Guardou apenas o pedaço em que estavam os filhos. Viu-a
sair por livre espontânea vontade à rua. Não quis acreditar, somente caiu a
ficha quando a desgraça aconteceu perante seus olhos, sem que pudesse fazer
nada para evitar. Para não morrer, escondeu-se.
De repente, escreveu numa folha qualquer:
“Tenho medo de a besta sobrepujar o ser homem. Não consigo me ver num
mundo sem símbolos, conceitos e pensamentos. Meu Deus, tudo é tão frágil”.
* Eduardo Oliveira
Freire é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense,
com Pós Graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é aspirante a
escritor
Medo dos zumbis. A desordem pode até atrair inicialmente, mas a presença de leis e de organização é imprescindível para o mundo funcionar.
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