Memórias de um integralista
* Por Marco
Albertim
Um mequetrefe de bengala sentou-se na margem do rio
Capibaribe, de costas para o leito gelatinoso às cinco da tarde. Com a barba
por fazer, inda que de uso antigo, ancorou o queixo no torso da mão direita
apoiada na curva da bengala. A calça de linho azul escuro, paletó da mesma cor,
camisa branca, uma gravata da cor da camisa, em vez de reavivarem a memória de
indumentária antiga, cobriram-no de um certo bolor, feito uma decrepitude sem
zelo.
Ele olhou para a fachada do sobrado onde fora a
Secretaria da Segurança Pública, a mesma que abrigara os porões do DOPS. Pouco
se deu conta de que o casarão restaurado perdera a feição de morada de senhor
de engenho cuja vetustez fora usada para infundir terror a presos políticos.
Olhou com os olhos semifendidos pelas pálpebras sanguíneas e enrugadas, a
escada de madeira que dera acesso à sala do delegado chefe do DOPS. Os
corrimãos paralelos, distantes um do outro, agora com um verniz lustroso, quase
tiraram de sua memória a familiaridade com que suas mãos, ao subir ou descer a
escada, alisavam a redondez do carvalho então gorduroso de tanto sorver os
suores.
Enquanto isso, uma multidão ruidosa, multicor,
despontou no começo da Avenida Conde da Boa Vista; não seguiu a ponte para
ocupar a Avenida Guararapes; dobrou na esquina, para se arrastar na Rua da
Aurora, na beira do rio que sob um assovio sorrateiro, desprendia respingos de
miasmas cheios de promessas de saúde. A multidão, compacta, não tinha pressa;
com os passos monitorados pela polícia, não tivera o percurso interrompido por
balas de borracha, não respirara o veneno do gás lacrimogêneo. Só a espreita
concentrada de patrulhas caminhando em fila indiana; no meio, sem que o colete
escuro no busto desse conta de um par de peitos, soldadas sem fogo nos olhos
serenos, curiosas na mira de moças com shorts curtos, empunhando cartazes com
cartolinas escritas com tintas vermelhas, a mesma cor de suas camisas.
A memória do homem solitário interrompera o curso
prenhe de saudades, pesaroso. Tirara do bolso do paletó um livro com a lombada
tão puída quanto impregnada de mofo; o mofo era visto nas bordas das páginas, o
livro fechado, feito fungos inertes. Ele abriu a primeira página, sopesando com
as pontas dos dedos o nome do autor, o perfil de seu retrato cinzento, preto, carregando
certezas de uma sociedade florida por sua economia baseada tão somente na
produção agrária. O rosto de graúna de Plínio Salgado, o bigode fino, basto de
negrume, encheu-o de saberes, de orgulho por ser o portador zeloso de um
espécime não em extinção, mas ricamente raro. O título, O Ritmo da História,
convenceu-o de que o espectro de sua presença daria legitimidade a o casarão
que acomodara policiais civis em trajes de casimira, à cata de subversivos cujo
colarinho na camisa tinha chumaços de gordura, das horas infindas no conluio
comunista.
A multidão, àquela altura percebida com a
sonoridade ruidosa dos carros de som, cobriu a entrada da Rua do Riachuelo.
Impossível não notar o grito de moças cujo suor era o indício da adesão à luta
de classes. O homem não se assustou. A seu lado, a estátua de ferro de Manoel
Bandeira deu fôlego novo a sua cultuada verve literária. Levantou-se, ficou em
cima do jardim na margem do rio. Repôs o livro no bolso do paletó. Lívido,
enxergou nos moços em desalinho a chance de lhes acudir recitando o que tinha
de memória da Oração aos Moços, de Gustavo Barroso.
Quando metade da multidão já passara pelo pregador
solitário, um monte de papéis picados cobriu-o de cima a baixo; atirado por
moços em cima de um carro de som, da altura de um trio elétrico. Saudaram-no no
que supunham se tratar de uma oração de apoio às demandas por mudanças sociais.
O homem estremeceu as sobrancelhas, supondo que eram confetes que lhe jogavam,
confetes para colorir a inteireza da oração integralista.
Ele não foi capaz de, sozinho, descer do púlpito
improvisado; foi acudido por uma policial de uma das patrulhas. As patrulhas
também identificaram no velho um manifestante febril, emocionado. Ao final,
quando a última leva de manifestantes passou em frente ao casarão, o homem
atravessou a rua. Entrou, subiu a escada rumo a uma sala já conhecida de sua
memória. Deparou com uma moça com brincos de ouro nas orelhas. O penteado, inda
que não o mesmo das auxiliares de polícia com quem trocara conversas, ostentava
a nova roupagem da Secretaria de Segurança.
- Quero falar com doutor Moacir Sales, o chefe do
DOPS. Ele está? – inquiriu ele à moça. Com um brilho de moço nos olhos velhos.
*Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de
Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia.
Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008,
obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do
Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e
“Contos de Natal”. Tem três livros de contos e um romance.
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