Nós, os honestos
* Por Rodrigo Ramazzini
Sete
horas da manhã. Dois homens tomam café e comem uma torrada em uma lancheria.
Eles estão sentados em altos bancos próximos ao balcão. Na televisão, o
noticiário exibe uma detalhada reportagem sobre o mais novo escândalo de
corrupção que atinge o Congresso Nacional, que gera o início de uma conversa
entre a dupla.
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Que corja, né?
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É verdade!
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Olha... Vou te contar... Que bando de safado!
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Safados mesmo! Estão lá em Brasília só para roubar! Só para roubar! Só para
roubar...
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Roubar o nosso dinheiro ainda por cima!
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Pois é... Eu não conheço um político honesto!
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Também não!
-
Eu já desafiei muita gente a me dar o nome de um político honesto. Um! Um! Ninguém
conseguiu...
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Pois é...
-
Eles vêm com aquele papo em época de eleição que irão trabalhar por um país
mais justo, trabalhar por saúde, trabalhar por educação, trabalhar para
diminuir as desigualdades e olha aí agora. Quantos milhões desviados?
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Trinta e cinco milhões de reais...
-
Trinta e cinco milhões de reais? É uma pouca vergonha! Os políticos se elegem
para trabalhar em causa própria. Isso, sim! Sempre digo isso...
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Estás coberto de razão. É muita corrupção em benefício próprio que eles fazem.
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É por essas e outras que falta tudo em tudo que é área neste país... É muita
roubalheira! Vai tudo para os bolsos desses pilantras...
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E tem quem diga que os políticos são o reflexo da sociedade. Eu discordo
totalmente!
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Eu... Eu também! E te digo mais: quem diz isso é burguês que não precisa
trabalhar de dia para comer de noite... Não rala o dia inteiro como nós, os
honestos. Aí podem dizer estas asneiras...
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Bem por aí!
-
Não existem mais políticos como antigamente, que eram honestos e honravam a
palavra...
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Minha dúvida é se eles não roubavam também. Será que não?
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Podiam até roubar, mas faziam alguma coisa pelo menos. Hoje, esse bando de
vagabundos só sabe roubar dinheiro dos nossos impostos!
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É verdade!
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Esse que está dando entrevista aí na televisão é o mais safado deles!
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Pior!
-
Depois dessa vou até lá... Até mais!
-
Até e bom dia!
O
homem deixa o balcão e se dirige ao caixa para o pagamento. O valor consumido
foi de R$ 8,50. Ele dá uma nota de R$ 10. Mas, a descuidada garçonete, que
passava por um período difícil na vida pessoal, com o filho doente e uma crise
no casamento, achando que ele tinha pagado com uma nota de R$ 50 devolve-lhe
como troco R$ 41, 50.
Ao
receber o troco, o homem olha para todos os lados, vê que o seu “amigo de
conversa” assiste a cena, mas como se nada de errado estivesse acontecendo,
despede-se dele pela última vez, coloca as notas na carteira e parte.
O
outro homem balança a cabeça ao presenciar a situação, mas se omite de entrar
em confusão. Não valia a pena. As arrecadações das bancas do jogo do bicho que
faria ao longo do dia com certeza já lhe trariam alguma dor de cabeça..
* Jornalista e contista gaúcho.
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