Meu amor é um vulto marrom
* Por
Gustavo do Carmo
Quando a beijei pela
primeira vez eu estava de olhos fechados. Abri meus olhos e não consegui ver
seu rosto. Só um vulto marrom. Pelo menos seu corpo era delgado.
Foi assim durante todo
o nosso namoro. Nas festas e casamentos em que fomos. Tanto da minha família
quanto da dela. No velório da mãe dela eu fiquei o tempo todo ao seu lado. Foi
ela quem me consolou quando as minhas tias morreram.
Estranhamente a família
dela (que misteriosamente também não consigo lembrar seu nome) também era um
vulto marrom. Seu pai me adorava. Mas a mãe só me tratava com educação. Fiz
amizade com o irmão, meu cunhado. Seus sobrinhos me arrastavam para brincar com
eles.
A minha família era
nítida pra ela. Minha mãe ficou encantada com a futura nora. Minha irmã e meu
cunhado nada comentaram. Meu pai me deu um parabéns orgulhoso. Como não tenho
amigos, ninguém mais deu
palpite, mas tive a sensação de ouvir meus primos rirem pelas minhas costas.
Mesmo assim, não
consegui ver seu rosto e nem me lembrar do seu nome. Procurei um oftalmologista
para tentar identificar o meu problema. E um neurologista para me ajudar a
guardar o nome dela, que me sugeriu perguntar seu nome mais uma vez. O médico
da vista marcou uma cirurgia.
Perguntei seu nome e
ela me respondeu pela quinta vez. Esqueci de novo e ela não ficou chateada.
Pelo contrário, me acompanhou até a minha cirurgia. Operei os dois olhos.
Fiquei cego por uma semana. E ela estava lá me acompanhando.
Quando tirei o curativo
tive um choque. Ela era tão feia, mas tão feia, com rosto queimado de sol e
marcado, cabelos desgrenhados, nariz de bruxa, lábios caídos, dentes tortos e
queixo pontudo que terminei o noivado (já estava de casamento marcado) sem dó,
ali mesmo, no hospital. Fiquei traumatizado.
Me consultei com o
neurologista, que me disse que ela e sua família eram tão feios que a minha
visão tentou me proteger do choque visual e a minha memória tentou me proteger
fazendo com que eu sempre esquecesse o seu nome. Meu nariz também colaborou ao
entupir sempre quando a gente se encontrava: ela fedia muito.
Doutor Nero me chamou
atenção para que, se eu não tivesse operado os olhos para tentar descobrir seu
rosto, eu poderia ter tido um casamento feliz. Eu acredito que não.
* Jornalista e publicitário de formação e escritor
de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São
Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora
Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu
blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com
é bastante freqüentado por leitores
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