quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Favor de tudo, contra todos

Sopa primordial

* Por Fernando Yanmar Narciso

Após tantos dias de manifestações, nossa querida mestra Robodilma derrocou vergonhosamente de 63% para miseráveis 30% de aprovação popular. Um feito para entrar no Guinness Book! Apesar de nosso governo ter fingido que ouviu nossos clamores e ter proposto algumas mudanças radicais- na medida do possível- em nossa legislação, chegando a propor um referendo para nos mobilizar ainda mais na mudança do país, o povo ainda não saiu das ruas. E Dona Odete Roitman já está mais sumida que o Wally.

A gente viu de tudo por aí nessas últimas semanas... Prezando a individualidade, a justiça e, acima de qualquer coisa, o antipartidarismo, continuamos a marchar nas maiores avenidas d o Brasil. Sim, tem um ou outro vândalo, um ou outro exagero de parte das PMs e algumas poucas mortes país afora, mas, aparentemente, há apenas um grito de guerra unificando todas as tribos: FORA PT! Parece que a grande mídia enfim conseguiu tatuar a antiga oposição do país em nossos cérebros como grandes inventores da corrupção e da desonestidade, e qualquer um que tentar se manifestar a favor do partido no meio da multidão já pode passar sal grosso e Sazon no próprio corpo, pois vão te fazer de churrasco e devorá-lo com gosto.

Claro que há grupos mais radicais e exaltados no meio da multidão. Uma das frases mais famosas dessa onda de manifestos foi “NEM DE ESQUERDA NEM DE DIREITA. EU SOU BRASIL!”. Ãhn... O que exatamente isso quer dizer? Não sabia que nosso país tinha se transformado num partido político. Qual a plataforma de governo do partido Brasil? Quem é seu grande líder? O que o partido já fez por nós, além de reclamar de tudo o que está aí e sapatear no teto do Congresso?

A manifestação mais incomum de todas talvez seja “QUEREMOS OS MILITARES DE VOLTA AO PODER!”. Caso tenham se esquecido, alguns jovens meio perturbados das idéias vêm tentando reerguer a temida ARENA desde o ano passado, e até já vislumbram uma hipotética candidatura de Joaquim Barbosa- “nosso herói”- à presidência do país ano que vem. Por mais que ele negue interesse em se candidatar a algum cargo público, sendo que nem de um partido ele faz parte, é só uma questão de tempo até o povo encabrestado pelo julgamento do Mensalão levá-lo na marra para a disputa. Mas o mais engraçado é ver manifestantes usando a famosa máscara de Guy Fawkes, popularizada pelo filme V de Vingança, que mostrava um justiceiro derrubando uma ditadura numa Inglaterra distópica, para pedir o retorno da ditadura militar ao Brasil! Falem de estupidez irônica...

O 1º passo para mudar algo que nos desagrada é gerar caos e desordem, para que aqueles que, há bem pouco tempo, estavam acima de todos nós, se dêem conta que as coisas não andam tão bem como se imaginava. Mas o que fazer depois que a euforia passar e estivermos rolando em cinzas e escombros? Afinal de contas, por mais bagunça e histeria que o povo brasileiro tenha produzido desde a primeira manifestação, no fundo aquilo que nós queremos, independente de nossas inclinações políticas, é um país com ordem, eficiência, dignidade, segurança e transparência política.

É um enorme clichê conservador, mas essa é a bandeira levantada por qualquer partido que se preze. Até quem é ladrão deseja essas coisas. E é também um círculo vicioso, pois não importa quem coloquemos no poder, o cacique há de encarar sempre essas mesmas reivindicações. Por mais que o país tenha melhorado, ou piorado no ponto de vista de muitos, jamais estaremos satisfeitos com a situação. O povo é um imenso saco sem fundo. As cobranças em geral são bem simples. Queremos que as coisas mudem, mas sem exageros. Queremos impostos menos extorsivos, não simplesmente a extinção deles. Uma polícia truculenta e ditatorial, mas só contra o crime. Ter liberdade para entrar no supermercado e levar tudo que quisermos por um preço justo, não simplesmente afanar e sair sem pagar- pelo menos ALGUNS DE NÓS queremos que seja assim. Que as estradas voltem a ser bem cuidadas e limpas, para voltar a dar gosto atravessar o país de carro. Que nossos filhos não saiam da escola pior que quando entraram. Uma grande melhora no transporte público, sempre imundo, lotado e desorganizado, e não apenas pagar uma passagem mais barata. Alguém se importaria em pagar mais um pouco se o serviço prestasse?

E, no topo da lista de reivindicações utópicas, queremos dar um fim à corrupção. Devido à sua permanência, temos todos os problemas listados acima. Eu sei, a tentação no poder é muito grande e a oferta de grana é infinitamente superior à demanda, mas há também de se pensar em todas as pessoas que confiaram em você, deram um tapinha em suas costas, te deixaram beijar os filhos deles e vão praticamente arrastadas para a zona eleitoral ano que vem.

Pelo menos, o fogo e o enxofre vindos da população já geraram alguns frutos, como a derrubada da PEC 37- terá sido um erro?- e a proposta de transformar a corrupção em crime hediondo, sem falar na possibilidade de cancelamento de voto se o político sair da linha, e logo conseguiremos destronar Renan Calheiros e Marco Feliciano, só que não vemos necessidade de convocar um referendo ou plebiscito para mudar na constituição coisas que todo mundo quer que sejam mudadas. O cabra teria que ser um verdadeiro kamikaze pra dizer ser contra o que foi proposto!

Independente de qual seja sua inclinação política, qualquer forma de governo tem pontos positivos e negativos. Capitalistas, comunistas, conservadores, liberais, militares, todos nós temos algo a dizer. Por que não deixar de lado a criancice da segregação e aproveitar apenas o lado bom que cada forma de poder tem a oferecer? País unido é país forte. Não precisamos de mudanças radicais como um golpe de Estado, uma volta dos militares ao poder ou de um Impeachment da presidenta. Tudo que queremos é uma missão bem cumprida da parte de quem colocamos no poder. Mesmo que seja um bem-estar passageiro.

*Designer e escritor. Sites:



2 comentários:

  1. Muito bom, Fernando!
    A luta continua!!!
    Parabéns!

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  2. O nome está adequado. Fez uma mistura de direita e esquerda, juntou alhos com bugalhos e fez graça. Em todo caso um artigo mais para o gênero humorístico. Ou algo para não desagradar nem as massas e nem os criticados.

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