terça-feira, 16 de abril de 2013


Garota de Ipanema

* Por José Teles

Carlinhos Lyra, um dos grandes da bossa nova, já se cansou de contar a história. Estava em casa (na Rua Barão da Torre, em Ipanema), quando recebeu a visita de Vinicius de Moraes. Ele vinha trazer a letra para uma parceria que estavam fazendo. Ele conta que pegou o violão e tentou encaixar a letra na melodia. Um trecho da letra: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça / é ela, menina, que vem e que passa / num doce balanço a caminho do mar”.Carlinhos Lyra comentou com Vinicius que não estava dando certo. Imitando perfeitamente a voz de Vinicius ele conta o que aconteceu em seguida: “Mas não é essa a letra. Essa estou fazendo pra Tomzinho”, daí puxou do bolso outra, que casou bem com a música, batizada de Minha namorada”.

A Garota de Ipanema, de Tom e Vinicius, virou cinquentona. A bem da verdade, tem 51 anos. Foi composta em 1962, mas a primeira gravação é de 1963. O privilégio foi de Pery Ribeiro, no LP Pery é todo bossa (Odeon) e num compacto que traz O que eu gosto de você (Sílvio César), no lado B. Nem Tom nem Vinicius imaginavam o sucesso que faria a canção despretensiosa, inspirada numa adolescente que passava pela Rua Montenegro, em Ipanema (hoje, Vinicius de Moraes). Enquanto ela ia à praia, a dupla, numa mesa do Veloso (hoje o Garota de Ipanema) elogiava a beleza da moça, Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto Pinheiro (que faz 68 anos em 2013), a Helô Pinheiro, filha do general que, anos mais tarde, seria o censor oficial do seminário O Pasquim, do qual Vinicius de Moraes era um dos redatores.

Garota de Ipanema tornou-se um clássico instantâneo da bossa nova, mas ainda assim os autores nem tinham ideia de onde ela chegaria. “O Vinicius era casado, eu era casado, a garota que passava por ali era muito jovem. Nós, como homens casados, não podíamos nos aproximar muito. Ela também certamente queria fugir desse assédio, de homens notoriamente casados e com filhos. Não tinha idade para ter liberdade. Nem cantávamos para ela quando passava. Primeiro, porque não podia tocar violão no botequim. O português proibiu logo, porque violão dá briga. Nossa atitude era bem discreta. Inclusive a garota era filha de um general do SNI, mas nós não sabíamos disso. Nós estávamos ali por causa do chope, não é? Eu pedi ao Vinicius uma letra e ele fez a letra. A gente não achou muito boa, ele fez outra. A que ficou foi a terceira letra”, disse Tom Jobim (no site oficial do compositor).

Publicado no Jornal do Commercio, Recife, em 14/4/2013 (domingo)


*  Jornalista e crítico musical

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