Malhação de Judas
* Por
Ana Deliberador
Aquele cão era
especial.
Aonde o dono
ia, estava por perto. Chovesse ou fizesse sol.
Se alguém se
aproximasse de Anselmo de forma pouco amistosa, logo rosnava. Isso, se não
atacasse de pronto. E só a voz do dono – “calma amigo!” – o deixava
novamente dócil e carinhoso.
Se Anselmo
precisava ir ao patrimônio, o cão corria atrás da montaria. Quando apeava, lá
estava, ofegante, o seu amigo, grande amigo.
E, sem dúvida,
Anselmo precisava de amigos. De temperamento esquisito, o homem de tez muito
amarelada – sempre taciturno e escondendo-se pelos cantos – não era benquisto
pelos outros moradores da fazenda. As crianças morriam de medo pois tinha fama
de, durante a quaresma, transformar-se em lobisomem. Apesar de tudo, era um
excelente peão e Zé Corrêa o tinha em boa conta.
Na fazenda
também morava um amigo de Zé Corrêa, cuja mulher vivia arreliando o pobre
Anselmo.
Cansado,
Anselmo arquitetou um plano de vingança. Passou dias e dias construindo um
boneco de pano, recheado de palha, em tamanho real. Vestiu-o com roupas velhas
e esperou a quaresma chegar.
@@@
Sexta-feira santa.
Amanhecia. O
dia ia ser quente, céu muito azul. Uma ou outra nuvem, aqui, acolá.
Zé Corrêa,
madrugador como sempre, foi à cozinha, coou o café e sentou-se próximo à
janela.
Os amanheceres
na fazenda eram magníficos. As casas, cercadas pelas árvores centenárias, o sol
penetrando por entre as ramagens chacoalhadas pela brisa, salpicando aqui e ali
milhares de pontinhos luminosos, até surgir, esplendoroso, qual enorme fogaréu,
banhando de luz tudo e todos.
Suspirando,
enlevado, Zé Corrêa levantou-se espreguiçando. Foi até a porta para chamar
João, que morava com Maria na casa ao lado.
Deu de cara
com um boneco enorme, pendurado na frente da casa do amigo. Olhou em volta
procurando pistas do idiota que cometera tal desatino e logo descobriu: fora
Anselmo!
Muito bravo
seguiu em direção à casa do peão, lá pros lados do engenho.
Acordou-o, mal
deixou que se calçasse e levou-o, a toque de caixa, em direção à casa.
Anselmo ficou
apavorado. Fora descoberto! Era só olhar para o patrão para saber. E emprego
bom como aquele não era fácil não!
– Ah, seu Zé, o sinhor me descurpe.
Prometo que num faço mais! – choramingava o pobre enquanto
corria para alcançar o patrão, que não disse mais nenhuma palavra.
Chegando em
frente ao Judas, Anselmo soube, de imediato, como fora descoberto: deitado aos
pés do boneco, cuidando de suas roupas, estava seu mais fiel amigo!
*
Professora,m pintora e escritora
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