As éguas da noite bebiam a
lua na poça
* Por Daniel Santos
Acabara
de jantar e me preparava para sair ao encontro de uma namorada da juventude,
quando percebi que as éguas vinham de algum sítio das redondezas e tomavam o
descampado defronte a minha casa, mas, em vez de me preocupar, admirava o
espetáculo de seus vultos no escuro.
Eram
lindas, de fato, com ancas soberbas e um dorso sensual, quase provocante, que a
palidez do luar nuançava discretamente. Ademais, seus lábios de carnadura
rosada fuçavam cada palmo do terreno; à procura, na certa, de algum pasto, de
capim novo que talvez brotara depois da chuva.
No
entanto, àquela hora estavam bem forradas e queriam apenas beber a água com
leve sabor de barro que empoçara aqui e ali. Para tal, estendiam a musculatura
elástica dos pescoços e desciam a cabeça até o chão. Duas ou três na mesma
poça, sorviam deliciadas para matar a sede.
Além
de sombrio e misterioso, o cenário se excedia em beleza e, tanto me distraí na
contemplação, que só depois de algum tempo me assustei: na sua sofreguidão, as
éguas bebiam a gema opalescente da lua que cintilava à superfície. A continuar
assim, não haveria mais luar!
Pior:
sem claridade, como encontrar a namorada? Tentei espantar o rebanho, em vão. Me apressei, então,
antes que fosse tarde, mas quanto mais corria, mais a noite imergia em seus
gomos obscuros. Indiferentes a mim, as éguas bebiam a lua na poça até o
esgotamento, até a saciedade.
* Jornalista carioca.
Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São
Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de
"O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995,
Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002,
Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca
Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.
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