Roteiro social
* Por Rodrigo Ramazzini
Quando
Orlandinho era pequeno perguntavam:
-
O que queres ser quando crescer?
Ele
respondia:
-
Sonho em ser caminhoneiro!
Era
reprimido e ouvia sempre como replica:
-
Não! Tem que ser Engenheiro, Médico ou Advogado, como era o seu avô.
No
futuro, mesmo a contragosto, chegou a começar o curso direito.
Quando Orlandinho era adolescente perguntavam:
-
Quando vais arranjar uma namorada?
Ele
respondia:
-
Não sei!
Insistiam:
-
E a Tábata? Não vais assumir?
Meses
depois, ele assumiu o namoro.
Quando
completou 18 anos perguntavam:
-
Quando vais arranjar um emprego, Orlandinho? Já está na hora.
Pressionado,
começou a trabalhar em uma empresa da cidade.
Quando
o namoro completou dois anos, iniciou o questionamento?
-
Quando vais noivar, Orlandinho?
E
aconselhavam Tábata:
-
Ele está só te enrolando. Te cuida!
Orlandinho
resistiu um ano. No terceiro oficializou o noivado.
Então,
começou a indagação:
-
Não marcaram a data do casamento ainda?
Foram
três anos de pressão até a oficialização da união na esfera civil e religiosa.
Decorridos
um ano e alguns meses de casados, Orlandinho passou a ser perguntado:
-
Quando vão ter filhos?
Ainda,
recebia o complemento:
-
Não vais deixar ficar velho para ter!
Dois
anos depois nasceu Júlia, a primeira filha do casal Tábata e Orlandinho.
Quando Orlandinho perdeu o emprego, logo a
situação suscitou a questão?
-
Já arrumou alguma coisa?
Nos
meses seguintes, empregado novamente, a estabilidade profissional despertou
outro anseio na sociedade que o cercava:
-
Agora que estás bem, quando a Júlia vai ganhar um irmãozinho?
Dois
anos depois nasceu Pedro.
A
partir daí, então, começaram a alertá-lo para preparar a aposentadoria...
O
tempo passou e Orlandinho tinha aos olhos de todos uma família feliz e
estruturada. Tinha percorrido o roteiro social pré-estabelecido. Bom emprego,
filhos na escola, boa esposa e por aí afora. Triste engano. Em seu íntimo o
sentimento era de amargura. A reflexão franca na área de casa mostrara que
guiara toda a sua vida pelos outros. Era hora de dar um fim, vencer os medos e
opiniões e mudar a própria história.
Nos
dia seguinte, Orlandinho cancelou a matrícula na universidade e pediu demissão
do trabalho, e, ontem, foi visto beijando os filhos e Tábata na frente da residência,
pois vai passar alguns meses fora. Da boleia do caminhão, usando um chapéu na
cabeça, entre acenos e sorrisos, teria dito na partida:
-
É hora de trilhar o próprio caminho!
* Jornalista e contista gaúcho
Enfim livre para fazer o próprio roteiro. De fato, uma vida pré-estabelecida, toda roteirizada é maçante. Nada como algo fora do script para dar maior emoção. Parabéns pelo tema, Rodrigo, e a Orlandinho que desamarrou a corda e foi enfrentar a estrada, muitas palmas.
ResponderExcluirObrigado pelo comentário, Mara!
ResponderExcluirAquele abraço!