E
pronto
* Por
Antonio Lobo Antunes
Eu
não tenho computador, não tenho telemóvel, não tenho cartão de
crédito, não tenho carro, resumindo: sou todo meu. Estou aqui
sentado nesta cadeira a escrever esta crônica, cheio de vontade de
voltar para o livro que ainda não parou de me trazer problemas. Do
ponto de vista técnico é muito difícil, o material não cessa de
crescer, estou mais ou menos a meio da primeira versão o que
significa que, trabalhando as minhas doze horas diárias habituais,
talvez a acabe lá para o fim do ano se nada especial acontecer na
minha vida que me impeça de rabiscar.
Não
sei porque me meti neste livro, quer dizer sei mais ou menos: foi ele
que se meteu em mim. Tinha acabado o livro anterior, estava à
espera, vazio, e apareceu este primeiro depressa, depois devagar,
depois depressa outra vez quando os vários elementos principiaram a
juntar-se, depois devagar de novo à medida que ia crescendo.
Tem
vinte e cinco capítulos, acabei a primeira versão do décimo
segundo hoje, queria começar a ocupar-me do décimo terceiro mas
tenho de fazer estes textinhos para a revista. É horrível passar
para um ritmo completamente diferente, dizer coisas levezinhas a fim
de distrair as pessoas e o livro à espera, furioso comigo.
Tenho
sempre medo de não conseguir acabá-lo, precisa de tantas correções.
É uma coisa estranha, um livro: quando tudo está a correr bem anda
sozinho e de repente pumba, para e lá fico eu à espera que ele
decida continuar. Quando menos espero engrena de novo.
Às
vezes pergunto-me de onde é que isto vem e ignoro a resposta. Vem de
um sítio qualquer, muito escondido, lá no fundo, uma espécie de
cave confusa onde as palavras se organizam apesar de mim. Acho que o
livro está lá todo à espera do momento de se realizar sozinho.
Quer dizer não é bem assim: umas vezes organiza-se por si, outras
necessita que eu seja criada para todo o serviço. Mas é fascinante
vê-lo crescer, modificar-se, estruturar-se, é fascinante fazê-lo
crescer, modificá-lo, estruturá-lo.
Que
me lembre escrevi o primeiro romance aos sete ou oito anos. Tinha
quatro páginas e custou-me como o diabo. Claro que o queimei na
figueira da casa dos meus pais onde queimava tudo. Os meus pais
sabiam o que eu andava a fazer mas nunca me perguntaram fosse o que
fosse. Enquanto eu escrevia o João estudava. Também nunca me
perguntou nem eu lhe disse. Para quê? Era tão óbvio para mim que
me faltava imenso caminho mas a certeza que ia ser o melhor dava-me
força.
Apesar
de ser humilde, porque só se pode escrever sendo humilde, não tinha
qualquer dúvida acerca disso. E era horrivelmente consciente das
minhas múltiplas imperfeições. E depois, quando me levavam de
férias com os meus irmãos, enchia um saco de livros para aprender.
Fazia exercícios: escrevia à maneira deste, à maneira daquele, lia
imensos romances maus, com os quais se aprende melhor que com os
romances bons porque nesses não se vrem os pregos do reverso do
cenário, o que há, como dizia Pascoaes, da aparição no seio da
aparência. E continuava a queimar tudo, não revoltado, não
zangado, porque era óbvio para mim que aquele era o caminho e que
tinha de ser paciente e continuar a mamar.
Não
conhecia ninguém que escrevesse, nada sabia de literatura, estava
completamente só. É terrível isto, durante um livro está-se
completamente só. Quando me perguntavam o que queria ser não
respondia porque não
queria ser, já era. Só me faltava ser mas já era. E depois ia
aprendendo com todos até que, aos dezessete ou dezoito anos, tive um
encontro decisivo ao ler Antoine Blondin, escritor francês hoje
praticamente esquecido, não é verdade, hoje esquecido, e que abriu,
dentro de mim, uma porta que eu sabia que tinha.
Nem
sequer éramos parecidos no que ele fazia e eu tentava fazer, mas
sendo tão diferente dele Antoine Blondin foi o meu encontro
decisivo. Não sei bem em quê: talvez na luta pela liberdade
interior. Num dos seus livros, falando da mãe, Blondin conta que ela
costumava dizer: não tenho fé mas tenho tanta esperança. Esta
frase foi muito importante para mim. Tanta esperança. E uma frase de
Bernanos que nunca mais esqueço, e os três grandes poemas de
Cendrars.
Armado
deste material as coisas foram-se tornando, a pouco e pouco, menos
penosas. E depois a guerra. E depois a vinda da guerra. E depois,
finalmente, a Memória de Elefante que nunca li nem deixava que
traduzissem. O Christian Bourgois lá me convenceu e então olhei
algumas páginas em francês. Para um primeiro livro achei-o do
caraças mas já nada tinha a ver com o que eu fazia então. No
entanto gosto dele sobretudo porque me recorda quanto me vi à
brochinha para o compor, numa época da minha vida em que sofria
muito por razões que não vêm ao caso nem vou maçar o leitor com
isso.
O
Zé Cardoso Pires dizia-me: é preciso que a gente sofra para o
leitor ter prazer. Mas gostaria que o leitor tivesse prazer com menos
sofrimento da minha parte. Escrever é também isso: prazer e alegria
e a minha ingênua vaidade de então, eu que não estava preparado
para o sucesso nem sabia o que fazer com ele. Ainda não sei muito
bem. Lembro-me sempre de Mozart depois de tocar na corte francesa,
aos cinco anos. Toda a gente aplaudiu muito no fim e ele foi a correr
para o colo da rainha, por acaso Maria Antonieta, saltou-lhe para os
joelhos e pediu-lhe
–
Gosta
de mim.
E
pronto, acho que estou no fim da crônica. Espero não os ter
aborrecido muito. Agora vou até lá dentro sentar-me na sala a olhar
para nada. Como dizem os parvos muito obrigado por este bocadinho.
Fim.
(Crônica
publicada na VISÃO 1271, de 13 de julho de 2017)
*
Escritor e psiquiatra português.
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